Casamento infantil cresce nos campos rohingya de Cox’s Bazar, em Bangladesh, após cortes de ajuda fecharem escolas e deixarem quase 500 mil crianças rohingya sem aprendizagem. Relato publicado pela Reuters em agosto de 2025 mostra famílias empurradas ao trabalho infantil diante da fome, do medo e do abandono.
O casamento infantil voltou a preocupar agências humanitárias nos campos rohingya de Cox’s Bazar, em Bangladesh, depois que cortes de financiamento fecharam escolas e atingiram quase 500 mil crianças rohingya refugiadas. A situação foi relatada pela Reuters em reportagem publicada em 22 de agosto de 2025.
Segundo informações publicadas pela Reuters, o caso de Begum, uma mãe rohingya de 35 anos, expõe a gravidade da crise. Ela afirmou ter casado uma filha de 16 anos por medo do que poderia acontecer com meninas fora da escola nos assentamentos superlotados, enquanto organizações alertam para aumento do trabalho infantil e da perda de acesso à educação.
Fechamento de escolas empurrou famílias para decisões extremas

Nos campos de Cox’s Bazar, o fechamento de milhares de salas de aula deixou famílias sem uma das poucas estruturas de proteção disponíveis para crianças refugiadas. Quando a escola desaparece, meninas e meninos ficam mais expostos à ociosidade, ao trabalho informal, à pressão social e a formas de exploração.
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Para Begum, a ausência da escola virou medo diário. A mãe, que vive em um abrigo de bambu e tem sete filhos, disse à Reuters que se sentiu pressionada a casar uma das filhas antes que a situação piorasse, afirmando que esperava que o marido permitisse que a adolescente continuasse estudando.
A decisão não aparece como escolha simples, mas como sintoma de uma crise maior. O casamento infantil surge no relato como resposta desesperada de uma família cercada por pobreza, insegurança e falta de perspectivas dentro dos campos.
Begum não revelou o nome completo por medo de represálias. Esse detalhe mostra como o tema é sensível mesmo dentro da comunidade refugiada, onde normas sociais, estigma e sobrevivência se misturam em um ambiente de extrema vulnerabilidade.
Quase 500 mil crianças rohingya estão sem acesso à educação
Bangladesh abriga cerca de 1,2 milhão de refugiados rohingya, metade deles crianças. A maioria fugiu de Myanmar em 2017, após uma repressão militar descrita por investigadores da ONU como exemplo clássico de limpeza étnica.
Oito anos depois daquele deslocamento em massa, a educação voltou a entrar em colapso. O Comitê Internacional de Resgate estima que até 500 mil crianças rohingya estejam sem acesso à aprendizagem em Cox’s Bazar.
A situação é ainda mais grave para os menores de 12 anos. Segundo o IRC, nenhuma criança rohingya abaixo dessa idade nos assentamentos tem acesso à educação formal atualmente.
O UNICEF, responsável por muitos centros de aprendizagem, afirmou ter suspendido em junho as atividades de mais de 4.500 escolas. A medida deixou mais de 227.500 crianças sem aulas e quase 1.200 professores bengaleses desempregados, além de afetar muitos professores rohingyas.
Casamento infantil e trabalho infantil aumentaram com a crise
As agências humanitárias alertam que a redução dos serviços já está produzindo consequências concretas. Segundo o IRC, os casos relatados de casamento infantil aumentaram 3% este ano, enquanto o trabalho infantil cresceu 7%.
Esses números podem ser menores do que a realidade. A própria organização aponta que monitoramento limitado e estigma social dificultam a identificação de todos os casos, especialmente em comunidades onde famílias temem exposição ou punição.
Quando serviços básicos desaparecem, crianças passam a carregar o peso da sobrevivência dos adultos. Meninas podem ser entregues ao casamento, enquanto meninos e meninas podem ser empurrados para trabalho, exploração ou atividades perigosas.
Hasina Rahman, diretora do IRC em Bangladesh, alertou que mais famílias podem recorrer a medidas extremas de sobrevivência, incluindo venda de crianças para casamento, trabalho forçado e maior risco de abuso sexual. A declaração reforça a urgência do cenário.
Cortes de ajuda ameaçam alimentação, saúde e proteção
A crise educacional é apenas parte de um problema maior. O ACNUR informou que precisa de cerca de US$ 256 milhões para apoiar os rohingya deslocados este ano, mas recebeu compromissos equivalentes a apenas 38% do total.
Globalmente, a agência da ONU para refugiados prevê receber somente um terço dos US$ 10,6 bilhões necessários para atender populações deslocadas. Isso ameaça serviços essenciais em diferentes regiões, incluindo Bangladesh.
Nos campos rohingya, a falta de recursos pode atingir comida, saúde, gás de cozinha, sabão e educação. A representante interina do ACNUR em Bangladesh, Juliette Murekeyisoni, afirmou que a comunidade já perdeu tudo e agora enfrenta falta grave de financiamento.
Sem apoio adicional, serviços vitais podem ser interrompidos ou sofrer danos profundos. Para famílias que já dependem de ajuda humanitária para sobreviver, qualquer corte cria uma cadeia de efeitos que chega rapidamente às crianças.
Professores veem uma geração perder o futuro
Nos campos, professores descrevem crianças vagando entre barracos de bambu, lama e chuva, sem rotina de estudo. Naser Khan, professor rohingya, afirmou que as crianças estão esquecendo o que aprenderam e chamou o cenário de uma geração perdida.
A fala revela o impacto silencioso da interrupção escolar. A perda não é apenas de conteúdo; é de rotina, proteção, convivência, referência adulta e esperança de mobilidade futura.
Para muitas crianças rohingya, a escola era uma das poucas pontes entre o campo e a possibilidade de outro destino. Sem aula, os dias se tornam vazios e mais perigosos.
Kafayat Ullah, professor de matemática de 45 anos, disse que sonhava ver alunos se tornando médicos ou engenheiros. Agora, segundo ele, sem aulas, esses sonhos estão sendo destruídos dentro dos próprios campos.
Uma menina queria ser médica, mas ficou sem escola
A Reuters também relatou o caso de Nahima Bibi, de nove anos, que agora passa os dias brincando nas vielas lamacentas do acampamento. Ela perguntou como poderá se tornar médica se não puder ir à escola.
A frase resume a dimensão humana da crise. Por trás dos números sobre financiamento, escolas fechadas e crianças sem aula, há projetos de vida interrompidos antes mesmo de começarem.
A infância nos campos rohingya está sendo comprimida entre deslocamento, pobreza e abandono internacional. Crianças que sobreviveram à fuga de Myanmar agora enfrentam outro tipo de perda: a erosão lenta do futuro.
Essa ausência de educação também amplia o risco de casamento infantil, trabalho infantil e exploração. Sem escola, as crianças ficam mais vulneráveis a decisões tomadas por famílias pressionadas pela sobrevivência.
Cox’s Bazar virou o maior assentamento de refugiados do mundo
A região de Cox’s Bazar se tornou o maior assentamento de refugiados do mundo depois que mais de 700 mil rohingyas cruzaram a fronteira de Myanmar para Bangladesh em poucos dias, em 2017.
Desde então, os campos cresceram sob pressão constante. Nos últimos 18 meses citados pela Reuters, até 150 mil novos rohingyas chegaram à região, aumentando a demanda sobre serviços já sobrecarregados.
A crise atual mostra que o deslocamento não termina quando a família cruza a fronteira. A sobrevivência física pode ser garantida por abrigos e comida, mas dignidade, educação e proteção exigem financiamento contínuo.
Quando esse apoio falha, as consequências aparecem nos espaços mais frágeis: salas de aula fechadas, meninas casadas cedo, crianças trabalhando e famílias sem alternativas seguras.
Crise rohingya revela o custo humano dos cortes internacionais
O caso de Begum não pode ser lido isoladamente. Ele representa a pressão que milhares de famílias enfrentam quando ajuda internacional diminui, escolas fecham e a vida nos campos perde qualquer perspectiva de melhora.
O casamento infantil aparece como uma consequência extrema de um sistema em colapso. Não é tradição vista em abstrato, nem decisão individual desconectada do contexto; é uma resposta de sobrevivência dentro de uma crise humanitária prolongada.
Quando quase 500 mil crianças ficam sem acesso à educação, o dano não se limita ao presente. Ele cria uma geração com menos proteção, menos formação e maior risco de exploração.
E você, acredita que a comunidade internacional deveria priorizar a reabertura das escolas nos campos rohingya antes que mais crianças sejam empurradas para casamento infantil e trabalho infantil? Deixe sua opinião nos comentários.


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