Vinte e duas peças monumentais recuperadas do sítio submerso diante de Alexandria estão entre as evidências usadas para testar, em modelos tridimensionais, como partes do antigo farol se encaixavam e quais hipóteses arquitetônicas melhor correspondem aos vestígios preservados no Mediterrâneo.
A retirada de 22 blocos monumentais ligados ao Farol de Alexandria acrescentou peças importantes ao esforço de reconstruir digitalmente uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. A proposta não é reerguer fisicamente o edifício, mas recriar sua arquitetura a partir das evidências arqueológicas preservadas.
O trabalho integra o projeto PHAROS, liderado pela arqueóloga e arquiteta Isabelle Hairy, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), no Centre d’Études Alexandrines. A iniciativa combina arqueologia subaquática, fontes históricas, análise arquitetônica, fotogrametria e modelagem tridimensional.
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Peças da entrada ajudam a dimensionar o farol
Os blocos foram içados do Mediterrâneo em junho de 2025, cerca de três décadas depois do início das escavações sistemáticas no sítio submerso. Entre eles estão vergas e batentes de uma porta monumental, o limiar da passagem e grandes lajes associadas à base da construção.
A operação exigiu uma barcaça e um guindaste para levar as pedras à superfície. Um comunicado do CNRS informa que algumas das peças da entrada pesam entre 70 e 80 toneladas, dimensão que evidencia a escala dos elementos empregados no monumento.
Outro conjunto recuperado pertence a uma estrutura que os pesquisadores identificaram como um monumento até então desconhecido no sítio. São partes de um pilone com uma porta de estilo egípcio construída com técnica grega, combinação relevante para o estudo das influências arquitetônicas presentes na Alexandria helenística.
A retirada das peças não marcou o início da documentação digital. Quando os 22 blocos foram trazidos à superfície, mais de uma centena de elementos arquitetônicos já havia sido digitalizada sob a água ao longo de aproximadamente dez anos de trabalho arqueológico.
Esse cuidado é necessário porque a área submersa diante do atual forte de Qaitbay não reúne apenas restos atribuídos diretamente ao farol. Blocos arquitetônicos, fragmentos, estátuas e outros vestígios pertencentes a diferentes construções ficaram espalhados pelo local e precisam ser examinados antes de qualquer reposicionamento virtual.
Fotografias viram modelos tridimensionais
A principal técnica empregada para registrar as peças é a fotogrametria. O processo utiliza numerosas fotografias feitas de diferentes ângulos para produzir modelos tridimensionais detalhados, capazes de preservar digitalmente formas, proporções e características da superfície dos blocos encontrados no sítio.
Depois do processamento, cada elemento pode ser estudado individualmente e comparado com outras peças. Vergas, batentes, lajes e fragmentos são testados virtualmente em diferentes posições, permitindo que os pesquisadores avaliem quais propostas de montagem apresentam maior compatibilidade com as evidências disponíveis.
Engenheiros voluntários da Fundação Dassault Systèmes participam dessa etapa ao lado da equipe científica do PHAROS. Os modelos ajudam a analisar a posição original de componentes arquitetônicos, aspectos da construção e hipóteses sobre os processos que contribuíram para a queda do edifício.
A reconstrução não depende apenas do material retirado do Mediterrâneo. Textos antigos, representações históricas, moedas e estudos arquitetônicos também são confrontados com os vestígios físicos, reduzindo o espaço para interpretações que não encontrem correspondência no conjunto arqueológico preservado.
O uso de ferramentas digitais nesse estudo começou em 2009. Com o lançamento do PHAROS, em 2023, pesquisadores de diferentes áreas passaram a reunir essas evidências em um mesmo ambiente de análise, no qual os modelos podem ser ajustados conforme novos elementos são incorporados.
Séculos de danos dispersaram partes da construção
O Farol de Alexandria foi construído no início do século III a.C. na ilha de Pharos, diante da antiga cidade egípcia, com a função de orientar navegadores que se aproximavam daquela costa. O CNRS estima que a torre alcançava cerca de 100 metros de altura.
O monumento permaneceu em funcionamento por aproximadamente 1.600 anos e sofreu danos sucessivos ao longo de sua existência. O projeto registra que sua luz deixou de funcionar em 1303, após uma catástrofe que atingiu Alexandria, e que o edifício não voltou a desempenhar sua função original.
Nas décadas e séculos seguintes, partes da estrutura foram reutilizadas como material de construção, enquanto outros elementos acabaram no mar. No século XV, o forte de Qaitbay foi erguido na área onde o farol havia ocupado a entrada do porto, alterando definitivamente a paisagem do local.
Essa trajetória explica por que componentes como os da entrada monumental têm peso especial na pesquisa. Por preservarem relações de escala entre vergas, batentes, limiar e grandes lajes, essas peças podem ajudar a testar proporções de uma região decisiva da construção sem exigir que os pesquisadores preencham lacunas por suposição.
O objetivo do PHAROS é reunir essas evidências em um modelo científico navegável do Farol de Alexandria. Além de servir à análise da arquitetura e da destruição do monumento, a reconstrução digital deverá permitir uma visita virtual baseada nos vestígios e documentos examinados pela equipe.

