Câmeras instaladas em ninhos de açores em Gloucestershire registraram esquilos-cinzentos entre as presas levadas aos filhotes. Os dados permitem acompanhar como o mamífero introduzido foi incorporado à cadeia alimentar, embora ainda não provem que o predador reduza os danos causados pela espécie invasora.
A recuperação do açor-do-norte nas florestas britânicas passou a revelar mais do que o retorno de uma ave de rapina. Câmeras instaladas em ninhos mostram como o esquilo-cinzento, introduzido da América do Norte, foi incorporado à dieta de um predador nativo e à dinâmica dessas áreas.
O fenômeno foi documentado pelo Gloucestershire Raptor Monitoring Group, que acompanhou ninhos entre 2017 e 2022. O trabalho, reunido em artigo publicado pela Royal Forestry Society, mostrou que o esquilo-cinzento não nativo compunha uma parcela elevada das presas levadas pelos adultos em vários territórios monitorados.
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A relação passou a ter interesse também para a gestão florestal. A Forestry Commission cita a pesquisa de Gloucestershire ao tratar da expansão de predadores nativos como uma possibilidade de manejo natural de esquilos-cinzentos, mas ressalva que ainda não há evidência de que a predação por açores reduza os danos causados às árvores.
Os registros, portanto, mostram que o invasor já faz parte da dieta do predador, sem permitir concluir que o açor, sozinho, controle sua população. Essa distinção é central porque o esquilo-cinzento continua associado a prejuízos florestais e à pressão sobre o esquilo-vermelho nativo.
Duas espécies com trajetórias opostas

O encontro reúne histórias ecológicas que avançaram em sentidos opostos. O açor foi perseguido até desaparecer como espécie reprodutora no Reino Unido no fim do século XIX, enquanto o esquilo-cinzento se expandiu depois de ser introduzido da América do Norte.
A recuperação do predador começou a se consolidar na segunda metade do século XX. Com novas populações estabelecidas e menor pressão de perseguição, os açores voltaram a ocupar grandes áreas florestais e também bosques menores, incluindo regiões próximas de zonas habitadas.
Gloucestershire se tornou um dos principais pontos para acompanhar essa retomada. O levantamento da Royal Forestry Society registrou mais de 100 locais conhecidos de reprodução no condado e estimou que a região concentrava cerca de 14% das aves reprodutoras do Reino Unido, sobretudo na Forest of Dean.
A dimensão nacional, porém, é difícil de medir. Uma estimativa usada no artigo apontava 712 casais reprodutores em 2020, enquanto o grupo de monitoramento avaliava que o total real provavelmente era maior por causa do comportamento discreto da espécie e da dificuldade de localizar seus territórios.
Entre 2017 e 2022, as buscas em Gloucestershire localizaram mais de 25 casais antes desconhecidos. O resultado era compatível com a possibilidade de que parte da população passasse despercebida mesmo em regiões onde a presença do açor já estava estabelecida.
Como o esquilo entrou no cardápio

As câmeras de ninho começaram a ser usadas em 2017 para acompanhar aves anilhadas, mas também forneceram um registro detalhado da alimentação. Entre pombos, corvídeos e outras presas, os pesquisadores passaram a identificar esquilos-cinzentos levados com frequência aos filhotes.
Em alguns ninhos, o mamífero invasor chegou a representar mais da metade das entregas registradas. Isso mostra que a espécie já foi incorporada ao cardápio de um predador que voltou a se expandir justamente em áreas onde o esquilo encontrou alimento e abrigo em abundância.
O período de reprodução ajuda a explicar o encontro. Enquanto os açores precisam intensificar a caça para alimentar os filhotes, jovens esquilos-cinzentos começam a deixar seus ninhos e circular pelas árvores, aumentando a disponibilidade de uma presa relativamente grande dentro das áreas de caça.
Essa incorporação do invasor à dieta não elimina os efeitos que ele produz em outras partes do ecossistema. A Forestry Commission registra que os esquilos-cinzentos competem com os esquilos-vermelhos por alimento e estão associados à circulação do squirrelpox, vírus capaz de provocar consequências graves para a espécie nativa.
O impacto também chega às árvores. Os esquilos-cinzentos removem cascas, especialmente em exemplares jovens ou em crescimento, o que pode favorecer podridão e doenças, reduzir a qualidade da madeira e, em casos severos, levar à morte da árvore.
A Royal Forestry Society cita uma estimativa de aproximadamente 37 milhões de libras por ano em prejuízos associados a esses danos na Inglaterra e no País de Gales. É nesse contexto que a presença do açor passou a interessar não apenas à ornitologia, mas também ao debate sobre manejo florestal.
O limite do papel dos açores
Ao acompanhar o que os adultos carregam para os ninhos, pesquisadores conseguem observar como uma espécie introduzida passou a circular entre diferentes níveis da cadeia alimentar. A comparação entre territórios também ajuda a mostrar como os açores respondem à disponibilidade local de presas durante a reprodução.
Para proprietários e gestores florestais, a presença do predador acrescenta uma função ecológica que não depende de intervenção direta. A relação registrada pelas câmeras ocorre espontaneamente onde açores e esquilos-cinzentos coexistem dentro dos mesmos territórios.
Isso não transforma cada ave em uma ferramenta de controle administrada por pessoas. A política britânica para o esquilo-cinzento continua combinando manejo populacional, proteção de áreas ocupadas pelo esquilo-vermelho e pesquisa de novas técnicas, enquanto a contribuição dos açores permanece limitada ao que já foi observado em campo.
A própria orientação florestal recomenda reduzir perturbações em áreas de reprodução e manter estruturas adequadas à nidificação, inclusive coníferas maduras em locais menos sujeitos à circulação intensa de pessoas. Essas medidas podem favorecer a permanência do predador sem atribuir a ele um efeito de controle que os dados ainda não demonstraram.


