Populações de kākāriki karaka voltaram a se reproduzir em áreas selvagens de Canterbury, enquanto ilhas sem predadores e santuários cercados funcionam como reservas de segurança para uma espécie que ainda depende de manejo intensivo para evitar novos colapsos populacionais.
O kākāriki karaka, pequeno periquito nativo da Nova Zelândia, voltou a se reproduzir em áreas continentais onde havia desaparecido. Resultados divulgados em 2026 mostram populações selvagens novamente estabelecidas, embora a recuperação continue dependente do controle de predadores e de programas de reprodução e reintrodução.
No Hawdon Valley, dentro do Arthur’s Pass National Park, o Department of Conservation da Nova Zelândia (DOC) informou que o monitoramento encontrou ratos em níveis não detectáveis depois de uma operação aérea de controle realizada antes de um período de forte produção de sementes.
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As equipes acompanhavam 22 ninhos de kākāriki karaka sem sinais de predação por mamíferos. O órgão também estimou entre 50 e 60 aves no Hawdon Valley, enquanto outra população selvagem, no vale South Branch do rio Hurunui, em Canterbury, estava na mesma faixa.
A recuperação ganha dimensão histórica porque a espécie chegou a ser declarada extinta duas vezes, em 1919 e 1965. O kākāriki karaka voltou a ser localizado em Canterbury no fim da década de 1980, depois de um longo período sem registros que confirmassem sua sobrevivência na natureza.
Endêmico da Nova Zelândia, o periquito vive principalmente em florestas de faia. A espécie segue entre as aves mais ameaçadas do país e é descrita pelo DOC como a ave florestal continental mais rara da Nova Zelândia.
Controle de predadores sustenta a volta às áreas selvagens

A vulnerabilidade da espécie está diretamente ligada à forma de reprodução. O kākāriki karaka utiliza cavidades de árvores para fazer ninhos e também para se abrigar, deixando ovos, filhotes e adultos expostos a mamíferos introduzidos, principalmente ratos, arminhos e gatos.
O risco aumenta nos chamados anos de “mast”, quando as florestas produzem grande quantidade de sementes. A oferta temporária de alimento favorece a multiplicação de roedores e, depois, pode ampliar a pressão desses animais sobre aves nativas.
O impacto já provocou perdas extremas. O DOC registra que uma população de kākāriki karaka em um dos vales sofreu redução de 85% após uma explosão de ratos, episódio que reforçou a importância do controle permanente desses predadores.
Foi esse risco que orientou a intervenção no Hawdon Valley antes do período de alta produção de sementes. Com os ratos abaixo do nível detectável pelos métodos de monitoramento utilizados no local, os 22 ninhos acompanhados não apresentaram sinais de ataque por mamíferos.
A situação contrasta com o cenário de poucos anos atrás. Monitoramentos realizados em 2021 e 2022 não detectaram kākāriki karaka no Hawdon Valley, apesar de a espécie ter vivido historicamente na região.

Depois da ampliação das armadilhas e de outras medidas de controle, as reintroduções começaram em 2022. O vale voltou então a abrigar uma das duas principais populações selvagens monitoradas em Canterbury, com aves novamente ocupando e se reproduzindo nesse ambiente.
Refúgios reduzem o risco de um novo desaparecimento
A recuperação no continente faz parte de uma estratégia mais ampla conduzida pelo DOC em parceria com Te Rūnanga o Ngāi Tahu. O programa reúne proteção das populações selvagens, criação sob manejo humano, retirada e manejo de ovos, monitoramento e formação de grupos em locais protegidos contra predadores.
A página oficial dedicada ao kākāriki karaka informa que centenas dessas aves já foram reproduzidas sob manejo humano e posteriormente soltas na natureza. As liberações servem para reforçar grupos existentes e criar populações de segurança longe de áreas sujeitas a colapsos repentinos.
Um desses refúgios foi estabelecido em Ōruawairua, também chamada Blumine Island, para onde o kākāriki karaka foi levado em 2011. A ilha passou a funcionar como reserva caso as populações dos vales montanhosos de Canterbury sofressem uma nova redução severa.
Outra população de segurança foi criada em 2021 no Brook Waimārama Sanctuary, em Nelson, uma área cercada e protegida contra predadores. As aves começaram a se reproduzir poucas semanas depois da introdução, ampliando a presença da espécie fora dos vales onde ainda sobrevivia.
A estratégia avançou em março de 2025 com a soltura de 34 aves em Pukenui, também conhecida como Anchor Island, em Fiordland, uma ilha livre de predadores. Em 2026, outras 43 foram transferidas para o mesmo local como reforço da população estabelecida ali.
A distribuição entre vales selvagens, ilhas sem predadores, santuários cercados e estruturas de reprodução reduz a dependência de uma única população. Dessa forma, uma queda brusca provocada por predadores em determinada área não necessariamente compromete todos os grupos mantidos pelo programa de recuperação.
Apesar do papel desses refúgios, o objetivo não é manter o periquito restrito a ilhas ou santuários cercados. O retorno ao Hawdon Valley mostra que parte do programa busca restabelecer populações em áreas de distribuição histórica sempre que o controle de predadores oferece condições para reprodução.
O kākāriki karaka continua dependente de manejo intensivo porque populações pequenas podem sofrer quedas rápidas quando ratos e outros mamíferos aumentam. Por isso, as equipes seguem acompanhando ninhos, reprodução e predadores nas áreas em que a espécie voltou a viver, inclusive depois das reintroduções.


