Projeções apresentadas indicam uma extensa carteira de descomissionamento até 2059; especialistas alertam que empresas brasileiras precisam se qualificar para manter contratos, empregos e investimentos no país
Quando uma plataforma de petróleo chega ao fim da vida útil, ela não pode simplesmente ser abandonada no mar. Os poços precisam ser fechados, equipamentos e estruturas devem receber uma destinação adequada e os resíduos necessitam de tratamento ambientalmente seguro.
Esse conjunto de atividades é chamado de descomissionamento. Além de representar uma obrigação técnica e ambiental das operadoras, o processo está abrindo um mercado bilionário para empresas de engenharia, logística, serviços offshore, reciclagem e construção naval.
O tema foi debatido durante o painel “Descomissionamento: regulação, economia e cadeia de serviços em construção”, realizado na Navalshore 2026, no Rio de Janeiro. A discussão reuniu representantes da Universidade Federal Fluminense, da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, da OceanPact, da FGV Energia e da Destri Energy.
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Investimentos podem alcançar R$ 370 bilhões até 2059
Dados apresentados durante a conferência apontam aproximadamente R$ 370 bilhões em investimentos previstos no Brasil entre 2026 e 2059.
No horizonte mais próximo, a projeção supera R$ 65 bilhões até 2029. Somente para 2026, a estimativa apresentada com base em informações da ANP ultrapassa R$ 15 bilhões.
O país também possui mais de 55 unidades de produção com idade superior a 25 anos. À medida que plataformas, poços e sistemas submarinos mais antigos chegam ao fim de seus ciclos produtivos, aumenta a demanda por serviços especializados.
Durante o painel, os especialistas defenderam que o Brasil reúne condições para assumir uma posição de destaque nesse mercado. Entre as vantagens estão a experiência acumulada nas operações offshore, a atuação das agências reguladoras e a estrutura de fiscalização ambiental nos níveis federal, estadual e municipal.
Descomissionamento não termina com a retirada da plataforma
O descomissionamento envolve uma cadeia muito mais extensa do que a simples desmontagem de uma unidade.
O trabalho começa ainda no mar, com a interrupção definitiva da produção, o fechamento dos poços e a retirada ou destinação dos equipamentos instalados no fundo do oceano. Depois, a plataforma pode ser conduzida até um porto ou estaleiro, onde começa o processo de desmantelamento.
A etapa seguinte inclui a descaracterização da estrutura, a separação dos materiais que podem ser reaproveitados ou reciclados e o descarte ambientalmente adequado do que não possui outra destinação.
“O descomissionamento é uma cadeia”, resumiu Mauro Destri, CEO da Destri Energy, durante entrevista ao Click Petróleo e Gás.
Essa cadeia pode mobilizar embarcações de apoio, operações com equipamentos submarinos, inspeção, engenharia, serviços de corte, movimentação de cargas, limpeza e descontaminação, monitoramento ambiental, tratamento de materiais perigosos e reciclagem de grandes volumes de aço.
Cadeia brasileira ainda está em formação
Apesar do potencial econômico, a indústria nacional ainda se encontra em uma fase de aprendizado.
Segundo Mauro Destri, o Brasil acumula aproximadamente 15 anos de experiência nessa atividade, enquanto outros mercados trabalham com descomissionamento há quatro ou cinco décadas.
“Essa cadeia no Brasil está começando a se montar agora. Nós somos jovens”, afirmou o especialista. Para ele, o país possui capacidade de aprender rapidamente, mas precisa ampliar a integração entre operadoras, grandes prestadores de serviços e fornecedores de menor porte.
A previsibilidade dos projetos é considerada fundamental. Antes de investir em equipamentos, licenças, certificações e capacitação, as empresas precisam conhecer o volume da demanda, os cronogramas e as exigências técnicas e ambientais de cada contrato.
Pequenas e médias empresas precisam adaptar suas soluções
O crescimento desse mercado também pode abrir espaço para fornecedores de terceira e quarta camadas, incluindo pequenas e médias empresas.
Entretanto, os produtos e serviços utilizados para construir e colocar uma plataforma em operação não são necessariamente os mesmos exigidos para retirá-la.
“Essas empresas precisam aprender o que é o processo. Elas estão muito acostumadas a vender para quem vai comissionar, mas descomissionar é diferente”, explicou Destri.
O especialista citou como exemplo os serviços de corte. Uma ferramenta inadequada pode danificar uma linha, dificultar o reaproveitamento dos materiais ou aumentar os riscos da operação. Isso cria demanda para o desenvolvimento de novos equipamentos, métodos e tecnologias específicos para a desmontagem.
Para participar dos contratos, os fornecedores precisam estudar as normas, compreender as etapas do processo e procurar as grandes empresas da cadeia para descobrir quais problemas podem solucionar.
Oportunidade também passa pela economia circular
A destinação dos materiais retirados das plataformas é outra frente relevante. Toneladas de aço, componentes industriais e equipamentos podem ser recuperadas e reinseridas na cadeia produtiva.
Quando executado de forma adequada, o descomissionamento reduz riscos ambientais, amplia a reciclagem e gera atividade para estaleiros e empresas em terra. O processo também pode contribuir para a ocupação da capacidade industrial instalada no país.
Por outro lado, a falta de infraestrutura, tecnologia, licenciamento e trabalhadores qualificados pode fazer com que parte dessas estruturas seja enviada ao exterior. Nesse cenário, o Brasil assumiria os custos e as responsabilidades pelo encerramento das operações, mas perderia uma parcela dos contratos, investimentos e empregos.
Regras e qualificação definirão quanto ficará no Brasil
O tamanho da carteira indica que o descomissionamento não será uma demanda isolada. A atividade deve movimentar a indústria offshore brasileira durante várias décadas.
O desafio agora é combinar regras claras, planejamento, infraestrutura portuária, capacidade dos estaleiros, tecnologia, segurança ambiental e formação profissional.
Se conseguir estruturar essa cadeia, o Brasil poderá transformar o fim da vida produtiva de plataformas e sistemas offshore em uma nova frente de negócios, inovação, reciclagem e geração de empregos para a indústria nacional.


