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Um peixe “comum” está virando o fundo de lagos e empurrando a água para o estado turvo: a engenharia ecológica silenciosa do pimpão-comum (Carassius carassius)

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 30/08/2026 às 15:50 Atualizado em 30/08/2026 às 16:25
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Experimento com 12 mesocosmos mostrou que o Carassius carassius aumenta partículas suspensas e reduz indicadores de crescimento da Vallisneria natans mesmo em baixa densidade, um efeito relevante para projetos de restauração de lagos rasos que dependem da recuperação da vegetação submersa.

Ao procurar alimento junto ao fundo, o Carassius carassius não interfere apenas na cadeia alimentar. O movimento do substrato devolve partículas à coluna d’água, altera a transparência e modifica condições que determinam quanto de luz alcança as plantas aquáticas submersas.

Esse mecanismo foi medido em um experimento publicado na revista Ecological Engineering, que acompanhou durante 28 dias 12 mesocosmos com Vallisneria natans. Os pesquisadores compararam recipientes sem peixes com densidades de 10 e 40 gramas de Carassius carassius por metro quadrado, com quatro repetições para cada condição.

O que acontece quando o peixe revolve o fundo

A presença dos peixes aumentou a concentração de clorofila-a e a biomassa de perifíton nos dois tratamentos. O estudo também registrou maior disponibilidade de nutrientes e redução da biomassa de zooplâncton, alterações relacionadas pelos autores à perturbação do sedimento, à excreção e à menor pressão de consumo sobre as algas.

Pimpão-comum revolve sedimentos, aumenta a turbidez e reduz a luz para plantas submersas, prejudicando a restauração de lagos rasos.
Pimpão-comum revolve sedimentos, aumenta a turbidez e reduz a luz para plantas submersas, prejudicando a restauração de lagos rasos.

O efeito mais diretamente ligado à aparência da água apareceu nos sólidos suspensos inorgânicos. A concentração desse material aumentou conforme crescia a densidade de peixes, elevando a turbidez e intensificando o sombreamento sobre a vegetação submersa.

Parte das partículas que permanecia depositada no fundo passou, portanto, a circular na coluna d’água. Para as macrófitas, essa mudança importa porque menos transparência significa menor disponibilidade de luz para a fotossíntese e para a manutenção do crescimento.

O processo não exige que o peixe remova grande quantidade de sedimento em um único episódio. A perturbação repetida durante a alimentação pode manter material em suspensão e transformar uma atividade cotidiana em um fator físico capaz de alterar as condições do habitat.

Como a Vallisneria natans responde

A Vallisneria natans respondeu de maneira mensurável à presença dos animais. A taxa relativa de crescimento, o número de rametes e a relação entre raízes e folhas diminuíram significativamente tanto na baixa quanto na alta densidade, em comparação com os mesocosmos sem peixes.

Os rametes são brotos que participam da expansão vegetativa da planta. Sua redução, junto com a menor taxa de crescimento e a mudança na distribuição de biomassa entre raízes e folhas, indica que a vegetação teve seu desenvolvimento limitado nos tratamentos com Carassius carassius.

As folhas, porém, apresentaram uma resposta diferente. O comprimento médio aumentou conforme crescia a densidade dos peixes, comportamento interpretado pelos pesquisadores como uma possível adaptação ao sombreamento, já que folhas mais longas poderiam alcançar regiões da coluna d’água com melhores condições de iluminação.

Essa resposta não anulou as demais perdas observadas. Exemplares pequenos foram suficientes para alterar parâmetros de crescimento da Vallisneria natans, inclusive na densidade mais baixa usada pelos pesquisadores.

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Por que peixes pequenos importam na restauração

O resultado chama atenção para projetos de restauração de lagos rasos, nos quais a recuperação de plantas submersas depende, entre outros fatores, de transparência suficiente para que a luz alcance o fundo. A remoção de peixes bentívoros é uma das estratégias empregadas para melhorar essas condições.

O problema é que o manejo pode se concentrar nos indivíduos maiores e deixar uma população numerosa de peixes pequenos no sistema. Em ambientes subtropicais rasos, o rápido recrutamento desses animais pode ocorrer justamente durante a fase inicial de recuperação das macrófitas.

Os autores relacionaram essa situação à biomanipulação, técnica que altera a comunidade de organismos de um lago para favorecer sua recuperação ecológica. No caso estudado, a presença de pequenos Carassius carassius mostrou que o tamanho reduzido não elimina a capacidade de perturbar o sedimento e interferir na vegetação.

A dinâmica também ajuda a explicar por que a turbidez não deve ser entendida apenas como resultado de processos externos ao lago. O próprio comportamento dos organismos pode ressuspender material acumulado no fundo e, ao mesmo tempo, influenciar nutrientes, algas, zooplâncton e plantas.

O experimento foi realizado em condições controladas e não demonstra que todo lago turvo tenha o Carassius carassius como causa. Ele isola um mecanismo específico e mostra que pequenos peixes bentívoros podem atuar como uma das forças capazes de reduzir a transparência e dificultar o restabelecimento da vegetação.

Essa limitação é importante porque lagos rasos respondem a vários processos físicos e biológicos ao mesmo tempo. A relevância do estudo está em demonstrar que a pressão exercida por peixes pequenos pode continuar ativa mesmo quando a atenção do manejo está voltada principalmente para indivíduos maiores.

Os resultados também não seguiram uma relação simples de “quanto mais peixe, pior” para todas as respostas medidas. Os sólidos suspensos inorgânicos e a clorofila-a aumentaram com a densidade, mas a redução de indicadores de crescimento da Vallisneria natans ocorreu tanto no tratamento de 10 quanto no de 40 gramas por metro quadrado.

Para a restauração, essa diferença muda o foco do manejo: não basta considerar apenas o porte dos animais. Mesmo biomassa relativamente baixa de pequenos Carassius carassius foi suficiente, no experimento, para manter uma pressão mensurável sobre o crescimento das plantas submersas.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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