A moradia de Cindy Mora Abarca, em Alajuelita, na Costa Rica, trocou a alvenaria convencional por blocos encaixáveis produzidos com resíduos plásticos. O projeto reuniu organizações sociais e empresas para transformar o terreno comprado pela trabalhadora em uma casa para ela e o filho.
Depois de economizar durante nove anos para conseguir um terreno, Cindy Mora Abarca ainda enfrentava a etapa mais cara: construir uma casa onde pudesse viver com Fabrizio, então com seis anos. A solução veio de um projeto habitacional que transformou resíduos plásticos em blocos usados nas paredes.
A residência foi erguida no bairro Lámparas, em Alajuelita, na região de San José. A obra começou em 23 de abril de 2018 e estava prevista para ser inaugurada em 26 de maio, conforme registrou o Alajuelita Soy, intervalo de pouco mais de um mês.
-
Xuxa e Angélica unem forças com Whindersson Nunes, empresas do setor pet e voluntários para transformar galpão de Porto Alegre em abrigo para mais de 400 animais resgatados, oferecer atendimento veterinário e procurar tutores separados pelas enchentes no RS
-
Comerciante de loja de sapatos de 34 anos precisou colocar placa de fechamento em sua porta, mas ação da filha nas redes sociais criou filas de duas horas de espera e evitou que o negócio fosse encerrado
-
Amanda Meirelles, médica e vencedora do BBB, espera em meio a estradas bloqueadas, viaja ao Rio Grande do Sul com medicamentos na mala e completa mais de 100 horas de trabalho voluntário na UTI de hospital de Canoas atendendo vítimas das enchentes
-
Com até 3,3 metros de comprimento, mais de 300 kg e força para dominar florestas geladas no extremo leste da Rússia, o tigre-siberiano virou símbolo entre os predadores e entrou para a história como o maior felino selvagem já reconhecido no mundo
Cindy trabalhava como auxiliar de serviços gerais e havia passado quase uma década reservando parte da renda para adquirir o lote. Mesmo depois da compra, ainda faltavam os recursos necessários para transformar o terreno em uma residência pronta para receber a família.
O projeto resolveu essa etapa por meio de uma construção que utilizou aproximadamente 7 toneladas de plástico reciclado. Garrafas, sacolas, embalagens e outros resíduos foram processados para dar origem às peças que formaram parte da estrutura da casa.
Como o plástico virou parede
O sistema utilizado no imóvel é conhecido como Bloqueplas. Em vez de tijolos ou blocos de concreto assentados com argamassa da forma convencional, ele emprega peças moldadas com plástico reciclado e projetadas para se encaixar umas nas outras.
O funcionamento lembra blocos de montar: cada peça se conecta à seguinte e permanece posicionada pelo próprio desenho do sistema. Esse método reduz etapas do assentamento tradicional e facilita a montagem das paredes quando os componentes chegam prontos ao canteiro.
Andrea Ramírez, da Urbarium, organização envolvida na execução, explicou ao Alajuelita Soy que os blocos eram acoplados de maneira precisa e hermética. A montagem também permitia a participação de voluntários em parte do trabalho, sem exigir mão de obra especializada em todas as etapas.
Isso não significa que toda a residência fosse feita exclusivamente de plástico. O material reciclado era empregado nos blocos das paredes, enquanto fundação, cobertura, instalações e outros componentes continuavam necessários para transformar a estrutura em uma moradia completa.
As peças também possuíam espaços internos destinados à passagem de instalações elétricas e hidráulicas. A Urbarium atribuía ao sistema características de isolamento térmico e acústico, resistência à umidade e possibilidade de ampliação da construção pela incorporação de novos blocos.
Resistência sísmica também entrou no projeto
A aplicação do material precisava considerar uma característica importante da Costa Rica: a atividade sísmica do país. Os responsáveis pelo projeto informaram que o sistema havia sido desenvolvido para atender às exigências do código sísmico costarriquenho de 2010.
Essa condição diferencia o projeto de uma simples reutilização de garrafas ou embalagens em paredes. O plástico é triturado, processado e moldado antes de assumir o formato das peças utilizadas na construção, com dimensões e encaixes definidos para formar o sistema estrutural.
A experiência de Cindy, entretanto, representa uma aplicação específica da tecnologia. O desempenho de uma solução desse tipo depende do projeto, das normas locais, das condições do terreno e das exigências técnicas de cada país, o que impede tratar o modelo como substituição automática da alvenaria convencional.
Sete toneladas diante do descarte de plástico
A quantidade empregada na residência ganha outra dimensão quando comparada ao volume de resíduos descartado pela Costa Rica naquele período. Dados do Ministério da Saúde publicados pelo La Nación indicavam descarte de aproximadamente 564 toneladas de plástico por dia no país.
Do total diário, somente cerca de 14 toneladas eram recicladas, enquanto 522 toneladas seguiam para aterros e lixões. Outras 42 toneladas acabavam em ruas, sistemas de drenagem, rios e mares, segundo os dados divulgados pelo jornal.
As cerca de sete toneladas incorporadas à casa, portanto, representavam uma aplicação concreta para uma parcela pequena desse fluxo de resíduos. O projeto não tinha escala para resolver sozinho o problema do descarte, mas mostrava uma alternativa de aproveitamento do material depois de coleta e processamento.
Também não é possível comparar diretamente o peso da casa com a quantidade reciclada diariamente no país como se todo o material tivesse o mesmo destino ou tratamento. Antes da construção, os resíduos precisavam ser separados, preparados e transformados nos blocos utilizados nas paredes.
Parceria viabilizou a construção
A moradia resultou de uma parceria envolvendo Procter & Gamble, Habitat for Humanity Costa Rica, Urbarium e Ekojunto. A iniciativa reuniu recursos, tecnologia, materiais e trabalho para tornar possível a construção no terreno que Cindy havia conseguido adquirir após anos de economia.
A Habitat for Humanity participava da seleção e do acompanhamento das famílias, enquanto a Urbarium estava ligada à implantação do sistema construtivo. A tecnologia empregada nos blocos permitiu direcionar resíduos plásticos para uma finalidade diferente do descarte convencional.
Para Cindy, a participação no projeto resolveu justamente a etapa que permanecia fora de seu alcance depois da compra do lote. O terreno já existia, mas a construção dependia de recursos que o orçamento familiar não permitia assumir pelos métodos tradicionais.
A casa foi entregue à família em maio de 2018, pouco mais de um mês depois do início da obra. Cindy e Fabrizio passaram a ocupar a residência construída no mesmo terreno cuja aquisição havia exigido nove anos de economia.

