Relato de Wesley Santos ao Correio Braziliense mostra como a demora na retirada de um pedido pode consumir parte relevante da jornada de quem trabalha por corrida, especialmente quando o expediente reúne dezenas de entregas, gastos próprios e exposição ao trânsito e à chuva.
Esperar o consumidor faz parte da etapa final de uma entrega, mas 20 minutos parado debaixo de chuva ganharam outro peso para o motoboy Wesley Santos. Ele permaneceu no endereço até o cliente buscar o pedido e só então pôde encerrar a corrida e seguir trabalhando.
O episódio foi relatado por Wesley ao Correio Braziliense, em reportagem sobre a rotina de entregadores por aplicativo no Distrito Federal, quando ele tinha 23 anos e trabalhava havia dois anos no setor.
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Ao lembrar situações que considerava desrespeitosas, o trabalhador resumiu a espera: “Também na chuva, outro cliente demorou 20 minutos para pegar o pedido”. Depois que o consumidor apareceu e recebeu a compra, acrescentou: “A pessoa sequer agradeceu”.
Não houve abandono da encomenda nem recusa em concluir o atendimento: Wesley permaneceu no local até a entrega ser finalizada, apesar da chuva e do tempo gasto depois de já ter chegado ao endereço indicado pelo aplicativo.
Vinte minutos dentro de uma jornada de 12 horas
O intervalo fica mais significativo quando comparado à rotina descrita pelo próprio motoboy. Wesley começava a trabalhar às 11h e normalmente encerrava o expediente às 23h, período de aproximadamente 12 horas no qual realizava entre 25 e 30 viagens.
Cada corrida dependia da conclusão da anterior, porque, depois de retirar o pedido no estabelecimento e percorrer o trajeto, o entregador ainda precisava encontrar o consumidor, entregar a compra e encerrar aquele atendimento antes de seguir para o próximo.
Vinte minutos equivalem a um terço de hora. Em uma jornada formada por dezenas de deslocamentos, esse período mantém a motocicleta parada e ocupa parte do mesmo expediente usado para aceitar novas corridas, buscar encomendas e levá-las a outros endereços.
Wesley informou ao jornal que faturava entre R$ 200 e R$ 250 por dia, valor bruto do qual ainda precisavam sair despesas com combustível, manutenção da motocicleta e alimentação durante as horas de trabalho.
A quantidade de corridas estava diretamente ligada à dinâmica da jornada. Quanto mais tempo fosse necessário para concluir cada atendimento, menor era o período restante para aceitar, retirar e finalizar outros pedidos ao longo do mesmo expediente.
O trabalho nem sempre terminava às 23h: Wesley contou que, em algumas ocasiões, permanecia nas ruas até as duas horas da manhã para atingir a meta estabelecida para o dia, ampliando ainda mais o período sobre a motocicleta.
Chuva também aparecia em outros conflitos
A espera de 20 minutos não foi o único episódio envolvendo chuva citado pelo entregador. Em outra entrega, Wesley afirmou ter recebido uma reclamação porque um lanche chegou molhado depois de o consumidor demorar para abrir o portão.
“Teve uma vez que brigaram comigo porque o lanche estava molhado, mas está fora do meu controle se está chovendo e a pessoa demora para abrir o portão”, relatou o motoboy ao descrever outra situação enfrentada durante o expediente.
Para o motociclista, a chuva também acompanhava o trajeto anterior ao encontro com o cliente. Além de tentar proteger a encomenda, ele precisava continuar circulando no trânsito e cumprir as demais etapas do serviço em condições mais adversas.
Wesley mencionou ainda a preocupação provocada por acidentes envolvendo outros entregadores, situações que, segundo seu relato, causavam desânimo a quem passava muitas horas conduzindo uma motocicleta para garantir a renda do dia.
Do restaurante às entregas por aplicativo
Antes de atuar com aplicativos, Wesley tinha emprego com carteira assinada em um restaurante. Ele contou que a remuneração não atendia às suas necessidades e que encontrou nas entregas a possibilidade de trabalhar mais horas e aumentar os ganhos.
A mudança também colocou sob responsabilidade do trabalhador despesas diretamente ligadas à atividade, como manutenção da motocicleta, combustível e alimentação durante um expediente realizado principalmente nas ruas e sujeito ao tempo necessário para concluir cada corrida.
Mesmo diante dessas dificuldades, Wesley afirmou que conseguia uma condição financeira melhor do que no emprego anterior. A possibilidade de ampliar as horas trabalhadas vinha acompanhada dos custos da motocicleta, da exposição ao trânsito e de situações que ele classificava como desrespeitosas.
Na rotina descrita ao jornal, a segunda-feira era reservada à folga e ao convívio com a esposa, com quem Wesley morava em Sobradinho; nos demais dias, o trabalho podia ocupar do fim da manhã à noite e, quando a meta exigia, avançar pela madrugada.

