INMET e Climatempo indicam maio de 2026 com seca no Norte, frentes frias no Sul e bloqueio atmosférico no Centro-Oeste.
Segundo o INMET, o Informativo Meteorológico Semanal nº 17/2026, publicado em 27 de abril, indica os maiores acumulados de chuva para a primeira semana de maio em áreas das regiões Norte e Nordeste, enquanto toda a região central do país exibe predomínio de tempo seco e estável. A previsão mensal da Climatempo confirma esse padrão, com chuva abaixo do normal no Pará, em Roraima, na maior parte do Amazonas, no norte de Rondônia e de Mato Grosso e no centro-oeste do Tocantins.
São exatamente estados que, em janeiro e fevereiro de 2026, receberam chuvas acima da média, mas agora entram no período de transição para a estação seca com déficit hídrico acumulado. Os modelos climáticos já identificam esse cenário como precursor de condições que podem tornar a seca do segundo semestre mais severa do que o El Niño, isoladamente, justificaria.
Enquanto isso, o Sul enfrenta uma sequência de frentes frias semanais, com chuva acima da média e quedas de temperatura. O que torna maio de 2026 tecnicamente excepcional é que esses dois padrões opostos ocorrem ao mesmo tempo, sustentados pelo mesmo sistema de alta pressão que bloqueia frentes frias no Centro-Oeste e mantém a Zona de Convergência Intertropical comprimida sobre o Norte.
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Por que o Norte recebe menos chuva em maio e por que a transição de 2026 preocupa meteorologistas
Maio é, por definição, o mês de transição da estação chuvosa para a estação seca no Norte do Brasil. A Amazônia tem dois regimes sazonais claros: o período chuvoso, de novembro a abril, quando a Zona de Convergência Intertropical migra para o hemisfério sul e organiza bandas de nuvens convectivas sobre a bacia, e o período seco, de maio a outubro, quando a ZCIT migra para o norte e a precipitação reduz drasticamente em grande parte da região.
A ZCIT é a faixa de convergência dos ventos alísios dos dois hemisférios próxima ao Equador. Quando está posicionada ao sul da linha do Equador, durante o verão austral, organiza enormes sistemas de chuva sobre o norte da América do Sul.
Quando migra para o norte, durante o inverno austral, a cobertura de chuva se retrai para a porção norte da bacia amazônica e para o litoral do Amapá, enquanto o interior do Amazonas, do Pará e de Roraima começa a secar.
O que torna maio de 2026 tecnicamente diferente não é a migração sazonal em si, que ocorre todos os anos, mas a velocidade com que o padrão de chuva está se retraindo sobre uma bacia que ainda não recuperou plenamente os níveis hídricos após a seca extrema de 2023. O Rio Negro, em Manaus, atingiu em outubro de 2023 o menor nível desde o início dos registros em 1902, com 12,70 metros, abaixo do nível de alerta de 13 metros.
A Amazônia entra na estação seca com solos, vegetação e aquíferos ainda pressionados por secas recentes
A cheia de 2024 foi intensa, com o Rio Negro subindo acima de 29 metros em Manaus, mas a seca do segundo semestre daquele ano voltou a ser severa. Em 2025 e 2026, a cheia foi mais moderada em algumas sub-bacias, o que reduz a capacidade de recomposição hídrica antes do início da nova estação seca.
Na prática, isso significa que aquíferos subsuperficiais, solos e vegetação de partes da Amazônia chegam ao começo da estação seca de 2026 com menor reserva de umidade acumulada do que a média histórica. Essa condição torna a floresta e os rios mais vulneráveis caso o segundo semestre seja reforçado por El Niño.
O problema não está apenas na quantidade de chuva de maio. Está no ponto de partida da estação seca. Quando a estação seca começa sobre um sistema que já está parcialmente deficitário, qualquer redução adicional de precipitação pode produzir efeitos mais rápidos e mais severos nos rios, na vegetação e no risco de queimadas.
O mapa de anomalia de precipitação mostra chuva abaixo da média em mais de 3 milhões de quilômetros quadrados
O mapa de anomalia de precipitação da Climatempo para maio de 2026 mostra com clareza a divisão do país. Os tons de marrom, que indicam chuva abaixo da média, cobrem o Pará, Roraima, a maior parte do Amazonas, o norte de Rondônia e de Mato Grosso e o centro-oeste do Tocantins.
Esses estados, juntos, cobrem mais de 3 milhões de quilômetros quadrados, uma área maior que a Argentina. Na primeira semana de maio, a previsão do INMET indica acumulados que podem passar de 100 milímetros em sete dias apenas em áreas próximas aos rios Negro e Amazonas, numa faixa que vai do oeste amazonense até o território paraense.
Nas demais áreas da região Norte, a chuva deve ocorrer de forma irregular, com volumes abaixo de 50 milímetros, uma fração do que é esperado para o período na climatologia histórica. As precipitações estão associadas ao fim do período chuvoso e à atuação residual da ZCIT, que ainda mantém atividade sobre o extremo norte antes de migrar completamente para o hemisfério norte.
Tocantins, sudeste do Pará e áreas de transição entre Amazônia e Cerrado entram mais cedo no padrão seco
Na semana de 5 a 12 de maio, o padrão seco se consolida em áreas estratégicas. Os modelos indicam volumes entre 20 e 40 milímetros para a divisa entre Amazonas, Acre e Rondônia, enquanto em Tocantins e no sudeste do Pará as chuvas não devem ultrapassar 10 milímetros em sete dias.
Tocantins e o sudeste do Pará estão justamente na região de transição entre Amazônia e Cerrado. São áreas que primeiro entram na estação seca e que mais sofrem quando esse período é intensificado pelo aquecimento do Pacífico, pela retração da ZCIT e pelo bloqueio atmosférico no Brasil Central.
Essa antecipação do padrão seco preocupa porque a região funciona como corredor climático entre floresta, savana e fronteira agrícola. Quando essa faixa perde umidade cedo demais, aumentam os riscos para rios menores, pastagens, lavouras, queimadas e transporte de umidade para outras regiões do país.
Enquanto o Norte seca, o Sul recebe sequência de frentes frias, temporais e chuva acima da média
Enquanto o Norte entra na estação seca, o Sul enfrenta uma sequência de frentes frias que trazem chuva e queda de temperatura. Esse contraste é normal para maio, mas em 2026 está sendo amplificado pelo bloqueio atmosférico de alta pressão, que impede essas frentes de avançarem de forma consistente para o Sudeste e o Centro-Oeste.

Na semana de 27 de abril a 4 de maio, o INMET prevê possibilidade de tempo severo no Sul, com temporais, chuva intensa, rajadas de vento, raios e queda de granizo. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, os acumulados podem chegar a 80 milímetros em sete dias, volume superior à média mensal de São Paulo, que é de 66,3 milímetros.
No Paraná, os volumes previstos não devem passar de 70 milímetros, mas podem se concentrar em episódios de tempestade com vendavais e granizo.
O Sul deve ter ao menos um episódio de chuva por semana, e alguns deles podem trazer volumes elevados, contribuindo para um mês acima da climatologia em grande parte do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Bloqueio de alta pressão no Centro-Oeste impede o avanço das frentes frias e amplia a divisão climática do país
O bloqueio de alta pressão no Centro-Oeste é o mecanismo direto que amplifica a assimetria entre Sul, Norte e Brasil Central. A América do Sul está cercada por águas quentes: o Pacífico, desde o Equador até parte da costa do Chile, apresenta temperatura acima do normal, enquanto o Atlântico na costa do Brasil também está mais quente que a média.
Essa configuração de oceanos quentes ao redor do continente facilita a formação e a manutenção de alta pressão atmosférica sobre o Brasil. O anticiclone dificulta a passagem das frentes frias do Sul para o Sudeste e para o Centro-Oeste, mantendo o ar frio mais concentrado no extremo sul e o calor mais persistente no interior do país.
Várias frentes frias devem passar pelo Rio Grande do Sul e por Santa Catarina, mas poucas terão força para alcançar São Paulo, Espírito Santo ou Goiás. O resultado é um país dividido: o Sul recebe chuva e incursões de ar frio, enquanto o Centro-Oeste e parte do Sudeste permanecem sob bloqueio, calor e tempo seco.
A segunda metade do outono deve concentrar as quedas de temperatura mais fortes no Centro-Sul
A Climatempo projeta que a segunda metade do outono, de meados ao fim de maio, e o começo do inverno, de junho ao início de julho, devem concentrar as quedas de temperatura mais significativas do ano no Centro-Sul. O padrão inclui São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e todos os estados do Sul.
São Paulo pode registrar mínimas próximas de 10°C na capital e entre 0°C e 5°C no interior durante as ondas de frio mais intensas desse período. O mecanismo que permite essas incursões de ar frio, mesmo num ano em que o El Niño começa a se formar, é a Oscilação Antártica.
A AAO tem previsão de neutralidade com viés negativo nas próximas semanas, o que tende a favorecer sistemas precipitantes e frentes frias no Sul do Brasil. Quando a AAO está em fase negativa, os ventos circumpolares antárticos enfraquecem, permitindo que o ar polar avance com mais facilidade para latitudes menores.
Agricultura do Sul enfrenta janela curta entre frio favorável, chuva regular e risco de excesso na primavera
A agricultura do Sul é diretamente afetada por essa sequência. A soja de segunda safra que estava sendo colhida em março e abril no Paraná foi prejudicada pelo excesso de chuva associado à chegada das primeiras frentes frias após o período de La Niña.
O trigo e a cevada que começam a ser plantados em maio precisam de temperaturas amenas e chuva regular. Essas condições devem existir no Sul durante a segunda metade do outono e o início do inverno, favorecendo o estabelecimento inicial das culturas.
A janela, porém, é curta. Se o El Niño se consolidar com intensidade forte no segundo semestre, o excesso de chuva na primavera pode prejudicar justamente as culturas de inverno que maio e junho ajudaram a estabelecer. O mesmo padrão que favorece o plantio pode se tornar risco na fase seguinte do ciclo agrícola.

