Movimento estratégico amplia presença brasileira na Ásia em meio a tensões comerciais, com foco em tecnologia, minerais críticos e diversificação de parceiros além da China.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma nova viagem à Índia e à Coreia do Sul, após o carnaval, com a meta de ampliar parceiros e reduzir a concentração do comércio brasileiro na China, segundo interlocutores do governo e integrantes da área econômica.
A comitiva pretende discutir abertura de mercados, cooperação em tecnologia e regras para inteligência artificial, além de conversas sobre minerais críticos, em um momento de tensões comerciais globais e de maior disputa por cadeias produtivas estratégicas, segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo.
Ao mesmo tempo, o Planalto tenta calibrar a sinalização externa antes de uma reunião prevista em Washington, em março, entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmada pelo próprio petista em declarações recentes.
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Nos bastidores, auxiliares afirmam que a busca por alternativas na Ásia não mira um afastamento de Washington, mas a leitura de que o Brasil não pode limitar oportunidades a um único mercado, num ambiente de rearranjo geopolítico e competição por investimentos.
Índia como prioridade estratégica e mercado de 1,4 bilhão de habitantes
A escala indiana é tratada como eixo central do roteiro por combinar população estimada em 1,4 bilhão de habitantes e crescimento do consumo urbano, além de presença crescente em tecnologia, serviços digitais e debate internacional sobre governança de dados.
Lula viaja a convite do primeiro-ministro Narendra Modi e deve participar, na primeira parte da visita, de um evento voltado aos impactos da inteligência artificial, antes de cumprir compromissos de Estado e reuniões bilaterais com autoridades locais.
De acordo com apuração do jornal O Globo, integrantes do Itamaraty avaliam que a agenda busca consolidar entendimentos em áreas consideradas estratégicas, num diálogo que o governo associa à defesa do multilateralismo e à reforma da governança global.
“O diálogo com a Índia ganha relevância no contexto de instabilidade global e da defesa do multilateralismo”, afirmou a diplomata, ao citar também convergências sobre mudanças em instituições internacionais, inclusive no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
No Itamaraty, a relação é descrita como organizada em pilares de cooperação que incluem defesa, segurança alimentar, transição energética, transformação digital e parcerias industriais, com menções a setores como aeronáutica, fármacos e petróleo e gás.
A aposta, segundo relatos de integrantes do governo, é usar a visita para ampliar o fluxo comercial e avançar em temas sensíveis, como minerais críticos, sem detalhar modelos de exploração ou acordos fechados, ponto que ainda depende de negociações.
No setor produtivo, a Confederação Nacional da Indústria avalia que a viagem pode destravar uma agenda mais ampla, combinando investimentos, comércio e diálogo regulatório, em especial na fronteira de tecnologias emergentes e cadeias industriais.
“A visita presidencial cria um ambiente favorável para alavancar essa agenda, com a possibilidade de avançarmos inclusive na ampliação do acordo Mercosul-Índia”, afirmou Frederico Lamego, superintendente de Relações Internacionais da CNI, em entrevista concedida ao jornal O Globo.
Dados do próprio governo apontam que as exportações brasileiras para a Índia cresceram no acumulado recente, em movimento acompanhado por alta das importações no mesmo intervalo.
Coreia do Sul no radar por semicondutores e abertura para carne brasileira
Depois da Índia, Lula segue para a Coreia do Sul em visita de Estado, num esforço para abrir frentes em um mercado com alto nível tecnológico e forte peso industrial, além de histórico de barreiras para produtos agropecuários brasileiros.
No radar do governo, a carne brasileira volta a aparecer como tema recorrente, enquanto autoridades e especialistas apontam interesse em cadeias de maior valor agregado, como semicondutores, segmento sensível na disputa por liderança tecnológica global.
O país asiático também chama atenção pela capacidade de inovação e pela presença de grandes grupos industriais, aspecto que Brasília associa ao discurso de reindustrialização, ainda que os detalhes de cooperação dependam de agendas técnicas e empresariais.
O presidente sul-coreano Lee Jae-myung é citado pelo governo como anfitrião da visita, em um contexto no qual Seul mantém laços estratégicos com os Estados Unidos, mas preserva espaço para acordos econômicos e tecnológicos com outros parceiros.
O jornal também apontou que a Coreia do Sul aparece no radar brasileiro tanto por razões comerciais quanto tecnológicas, especialmente diante das discussões globais sobre cadeias de suprimentos e produção de chips.
Para o professor Alexandre Uehara, coordenador de estudos sobre negócios asiáticos, a busca por novos destinos ganha força diante das mudanças comerciais promovidas pelos EUA desde 2025, com impactos sobre cadeias globais e decisões de investimento.
“É uma viagem importante, pois é necessária a busca de alternativas e a ampliação de negócios com outros países”, disse ele, ao defender que a abertura de mercados ajuda a diminuir riscos ligados à concentração do comércio brasileiro.
China segue dominante no comércio exterior brasileiro
A China continua no centro do comércio exterior brasileiro, com vantagem consolidada desde que se tornou o principal destino das exportações do país, movimento que, na prática, elevou o peso de commodities e produtos básicos na pauta de vendas.
Em 2025, as exportações brasileiras para a China chegaram a US$ 100,02 bilhões e a balança comercial com o país registrou superávit de US$ 29,09 bilhões, segundo dados compilados a partir do Comex Stat.
No mesmo ano, a participação chinesa foi estimada em 28,7% das exportações totais do Brasil e em 25,3% das importações, indicador usado para dimensionar a dependência.
Esse peso explica por que auxiliares do governo tratam Índia e Coreia do Sul como alternativas importantes, ainda que o objetivo declarado não seja substituir Pequim, mas ampliar margem de manobra e reduzir vulnerabilidades em choques externos, como destacou O Globo em sua cobertura.
Na leitura de especialistas em política internacional, a Índia oferece ao Brasil uma combinação de mercado, autonomia diplomática e espaço para cooperação tecnológica, enquanto a Coreia do Sul tende a gerar resultados mais concentrados em comércio e indústria.
A agenda com Trump, prevista para março, também entra nesse cálculo, porque o governo avalia que a política comercial americana pode influenciar fluxos e cadeias produtivas, exigindo do Brasil um mapa de parceiros mais diversificado.

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