1. Início
  2. / Petróleo e Gás
  3. / Levantamentos sísmicos feitos por navios russos na Antártida apontaram estimativas de até 511 bilhões de barris de petróleo no Mar de Weddell, quase o dobro das reservas da Arábia Saudita, num cenário que acende alerta no Reino Unido sobre o risco ao tratado que proíbe mineração no continente desde 1959
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 5 comentários

Levantamentos sísmicos feitos por navios russos na Antártida apontaram estimativas de até 511 bilhões de barris de petróleo no Mar de Weddell, quase o dobro das reservas da Arábia Saudita, num cenário que acende alerta no Reino Unido sobre o risco ao tratado que proíbe mineração no continente desde 1959

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 27/05/2026 às 19:04
Atualizado em 27/05/2026 às 19:08
Levantamentos russos apontam estimativa de 511 bilhões de barris de petróleo no Mar de Weddell, mas dados não foram verificados e tratado proíbe mineração desde 1959.
Levantamentos russos apontam estimativa de 511 bilhões de barris de petróleo no Mar de Weddell, mas dados não foram verificados e tratado proíbe mineração desde 1959.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
102 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

A cifra precisa ser lida com lupa: vem de pulsos sonoros disparados contra o fundo do mar, técnica que mapeia formações geológicas, mas não comprova quanto petróleo seria de fato recuperável. A própria Rússia diz que se trata de pesquisa, ainda não foi verificada de forma independente, e nenhum poço foi perfurado na região.

Levantamentos sísmicos feitos por navios russos na Antártida apontaram estimativas de até 511 bilhões de barris de petróleo no Mar de Weddell, volume equivalente a quase o dobro das reservas comprovadas da Arábia Saudita. Os dados, apresentados ao Parlamento do Reino Unido em maio de 2024 pelo Comitê de Auditoria Ambiental da Câmara dos Comuns, acenderam um alerta em Londres sobre o futuro do tratado internacional que proíbe a mineração no continente gelado desde 1959.

O alarme tem dois motivos. Primeiro, a área pesquisada está dentro do chamado Território Antártico Britânico, com reivindicações sobrepostas de Argentina e Chile. Segundo, o equipamento utilizado para fazer pesquisa geológica é praticamente o mesmo usado em prospecção de petróleo, o que torna a avaliação das intenções uma questão sensível, num momento em que as relações entre Rússia e países ocidentais estão deterioradas pela guerra na Ucrânia.

O que os navios russos têm feito

O trabalho de campo tem sido conduzido pelo navio Akademik Aleksandr Karpinsky, operado pela estatal russa de exploração mineral Rosgeo. A embarcação participou de várias expedições antárticas, com destaque para a 65ª Expedição Antártica Russa, em 2020. Os levantamentos sísmicos no Mar de Weddell, segundo registros apresentados ao Parlamento britânico, vêm sendo realizados desde 2011, com intensificação entre 2020 e 2024.

A técnica funciona assim: o navio dispara pulsos sonoros contra as camadas rochosas abaixo do leito marinho e sensores captam o eco dessas ondas. A partir das reflexões, geólogos conseguem desenhar um mapa tridimensional das formações sob o fundo do mar e identificar bacias sedimentares com potencial para conter hidrocarbonetos. É exatamente o método aplicado em todo o mundo na busca por petróleo e gás.

Por que “descoberta” é um termo impreciso

É preciso ter cuidado com a forma como o tema vem sendo apresentado em manchetes pelo mundo. Levantamentos sísmicos sozinhos não descobrem petróleo, eles apenas mapeiam estruturas geológicas com potencial de conter hidrocarbonetos. Para confirmar volumes e qualidade, seria necessário perfurar poços, o que está proibido pelo Protocolo Ambiental do Tratado da Antártida, assinado em 1991, em Madri.

Além disso, o número de 511 bilhões de barris é uma estimativa baseada nos dados russos, ainda não verificada de forma independente na literatura científica aberta, e o próprio governo da Rússia nunca anunciou oficialmente uma descoberta. A Rosgeo descreve o material como potencial de hidrocarbonetos das bacias do oceano austral. Em outras palavras, há indicação de geologia favorável, mas o tamanho real de eventuais reservas recuperáveis segue desconhecido.

O tratado que congela o continente

O Tratado da Antártida foi assinado em 1959 por 12 países e hoje conta com 58 signatários. Ele dedica o continente à paz e à ciência, proíbe atividades militares e congela qualquer reivindicação territorial. Em 1991, o Protocolo de Madri ampliou as proteções e proibiu de forma expressa qualquer atividade de exploração de recursos minerais que não esteja ligada à pesquisa científica.

Sete países reivindicam pedaços do continente: Argentina, Austrália, Chile, França, Nova Zelândia, Noruega e Reino Unido. A maioria das demais nações, incluindo Estados Unidos e a própria Rússia, não reconhece essas reivindicações. Moscou, aliás, não pleiteia território, mas mantém cinco estações de pesquisa ativas no continente, o que lhe garante presença permanente na região e voz nas decisões do tratado.

A linha tênue entre ciência e prospecção

O ponto mais delicado do debate é justamente a fronteira difusa entre pesquisa geológica e prospecção comercial. Em testemunho escrito ao Parlamento britânico, o professor Klaus Dodds, especialista em geopolítica da Universidade de Londres, alertou que os dados russos poderiam ser interpretados como prospecção disfarçada de pesquisa, funcionando como um precursor para uma futura extração caso o tratado se enfraqueça.

Por outro lado, o ministro do Foreign Office britânico David Rutley afirmou ao comitê que a Rússia tem dado, repetidamente, garantias de que suas atividades têm natureza puramente científica. O Artigo VII do Tratado da Antártida permite que qualquer país signatário inspecione estações e equipamentos de outros membros, mas, até agora, nenhum governo acionou esse mecanismo publicamente em relação aos levantamentos russos no Weddell, optando pela rota diplomática.

O bloqueio às áreas marinhas protegidas

O cenário ganhou outra camada de tensão em 2022, quando Rússia e China vetaram, em conjunto, propostas apresentadas por outros países signatários para ampliar as áreas marinhas protegidas nas águas antárticas. Nenhum dos dois países sinalizou intenção de abandonar o tratado ou de questionar formalmente a proibição da mineração.

Especialistas, no entanto, leem o veto como parte de uma estratégia de ampliar influência sobre a forma como as regras são interpretadas e aplicadas. Em 2048, o Protocolo de Madri pode ser revisado, mas dentro de regras estritas que dificultam mudanças significativas. Para Klaus Dodds, o teste real será saber se a comunidade internacional estará disposta a defender o atual arcabouço diante do que ele chama de erosão silenciosa e deliberada.

O Brasil também está no jogo

O assunto também diz respeito ao Brasil, que aderiu ao Tratado da Antártida em 1975 e mantém presença no continente por meio da Estação Antártica Comandante Ferraz, na Ilha Rei George. O país integra o Programa Antártico Brasileiro e participa das reuniões consultivas do tratado, tendo voz em decisões sobre conservação, pesquisa e governança da região.

Para um país que figura entre os grandes produtores de petróleo do mundo, em especial com o pré-sal, acompanhar de perto o debate sobre eventuais recursos no continente austral importa por razões geopolíticas, ambientais e econômicas. Qualquer mudança nas regras que valem para a Antártida pode afetar tanto o mercado global de energia quanto o equilíbrio diplomático em um dos últimos territórios pouco explorados do planeta.

O caso dos navios russos no Mar de Weddell mostra como a Antártida deixou de ser um tema apenas científico para se tornar parte central da disputa geopolítica do século XXI. As estimativas de 511 bilhões de barris de petróleo precisam ser tratadas com cautela, porque vêm de dados ainda não confirmados independentemente, mas o simples fato de existirem já reabre o debate sobre quanto tempo o tratado de 1959 conseguirá resistir à pressão por novos recursos. A questão não é mais hipotética, é uma corrida silenciosa por influência num continente que pertence, por enquanto, à ciência.

E você, o que acha desse cenário em que estimativas de bilhões de barris de petróleo na Antártida começam a testar um tratado internacional de mais de 60 anos? Acredita que o continente vai conseguir continuar protegido da exploração mineral ou que a pressão por recursos vai vencer? Deixe seu comentário, conte sua opinião sobre o tema e compartilhe a matéria com quem se interessa por geopolítica, energia e meio ambiente.

Inscreva-se
Notificar de
guest
5 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Valdecir domanski
Valdecir domanski
03/06/2026 16:53

A escasses mundial vai forçar a exploração nas calotas, e quem quebrar o pacto sairá na frente, o mundo tem falácias putim tem o poseidon.

Jair Junior
Jair Junior
02/06/2026 05:48

Mentira

Paocombanha@gmail.com
Paocombanha@gmail.com
30/05/2026 05:30

Como se já não tivessem explorando

Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
5
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x