O nó, segundo o presidente da cooperativa catarinense, vai além do custo da folha: o mercado já não oferta mão de obra suficiente nem para os quadros atuais. Sem conseguir contratar, ele diz que o caminho será reduzir produção, com risco de fechar granjas integradas e enxugar postos no campo e na indústria.
A Aurora Coop, considerada a maior cooperativa de carnes do Brasil, calcula que precisaria contratar mais 11 mil trabalhadores em cima dos 51 mil atuais só para produzir um pouco menos do que hoje, caso o Congresso aprove o fim da escala 6×1 e a redução da jornada para 40 horas semanais. A conta é do presidente da cooperativa, Neivor Canton, em entrevista publicada no dia 26 de maio de 2026 pela colunista Estela Benetti, do NSC Total.
O alerta vem em um momento decisivo do debate. Na véspera, em 25 de maio de 2026, a Comissão Especial da Câmara dos Deputados começou a analisar o relatório da proposta que altera a jornada de trabalho no país, em meio a um acordo entre o governo Lula e a presidência da Casa para destravar a votação. A discussão é considerada uma das mais sensíveis para o setor produtivo, especialmente para agroindústrias com cadeias de produção encadeadas, como o ramo de carnes.
A conta da cooperativa catarinense

Com sede em Chapecó, no oeste de Santa Catarina, e fundada em 1969, a Aurora Coop é uma central que reúne 14 cooperativas filiadas e dezenas de unidades industriais em vários estados. Segundo o presidente Neivor Canton, simulações internas indicam que, para manter um nível de produção pouco abaixo do atual sob a nova jornada, a cooperativa teria que ampliar seu quadro dos atuais 51 mil para cerca de 62 mil trabalhadores.
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O dirigente afirma que esse aumento representaria um custo adicional difícil de absorver, em um momento em que o mercado não tem aceitado reajustes de preços. Diante disso, segundo ele, a alternativa seria repassar essa elevação de custos para o consumidor, num cálculo incerto que depende da disposição do mercado em pagar mais pelos produtos, especialmente os itens de proteína animal, que pesam diretamente na cesta básica das famílias.
O gargalo da mão de obra
O ponto mais delicado, segundo o presidente da Aurora, não é apenas o custo, mas a viabilidade da contratação. Ele afirma que a cooperativa já enfrenta hoje dificuldade para preencher as vagas em aberto, o que tornaria praticamente inviável a meta de contratar mais 11 mil trabalhadores em pouco tempo, especialmente em regiões do interior catarinense onde a oferta de mão de obra é historicamente apertada.
Diante dessa restrição, Canton afirma que o caminho mais provável seria reduzir o volume de produção, o que provocaria efeitos em cadeia. Isso porque a agroindústria de carnes opera com uma cadeia viva e integrada, em que produtores rurais cooperados criam aves e suínos para abastecer as plantas industriais. Se a indústria abate menos, granjas perdem destino para seus animais, alguns produtores podem ficar sem atividade e, dentro das fábricas, surge o risco de ociosidade e demissões.
“Quase um recomeçar”
O presidente da Aurora descreveu o cenário como “quase um recomeçar”. Segundo ele, a cooperativa precisaria refazer o cálculo da capacidade de compra do consumidor, redimensionar quanto produto consegue ofertar a novos preços e ajustar toda a operação para uma estrutura de custos diferente da atual, num processo que demandaria tempo, planejamento e capital de giro.
Esse tipo de impacto, na avaliação de Canton, atingiria de forma mais intensa o setor de carnes do que outros segmentos da economia. Setores com processos menos encadeados teriam, segundo ele, mais flexibilidade para adaptações. Já a agroindústria, que envolve animais vivos, prazos de abate e cadeias de fornecimento estritas, teria menos margem de manobra para se ajustar rapidamente a uma mudança brusca de jornada, o que aumentaria o efeito de curto prazo da transição.
O que está em jogo na Câmara
Do outro lado da discussão está o projeto que tramita no Congresso. O governo federal enviou em 14 de abril de 2026, em regime de urgência, o Projeto de Lei 1838/2026, que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, garante dois dias consecutivos de descanso e proíbe redução salarial, o que, na prática, extingue a escala 6×1. A Câmara também trabalha em uma proposta de emenda à Constituição com efeito semelhante.
Pelo acordo entre o governo e o presidente da Câmara, Hugo Motta, a mudança seria escalonada. Em 60 dias após a promulgação, o trabalhador já passaria a folgar dois dias por semana e cumpriria 42 horas em até cinco dias. Em 12 meses, a jornada chegaria às 40 horas semanais, configurando a escala 5×2. O relator da proposta é o deputado Leo Prates, do Republicanos da Bahia.
O outro lado do debate
Apesar das preocupações da indústria, a redução da jornada conta com forte apoio popular. Levantamentos citados por entidades sindicais, como a Central Única dos Trabalhadores, indicam que mais de 70% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1. Para os defensores, o avanço tecnológico, a automação e o ganho histórico de produtividade já abriram espaço para reduzir a carga horária sem perda de eficiência, como ocorreu em outros países.
Outro argumento recorrente é o de saúde do trabalhador. O Brasil é apontado como um dos países com maior incidência de burnout no mundo, e os defensores da proposta sustentam que um ambiente de trabalho mais equilibrado traria benefícios sociais, com queda de afastamentos e melhora na qualidade de vida. A discussão, portanto, opõe o argumento econômico do setor produtivo ao argumento social dos trabalhadores e parte do governo, num impasse típico de mudanças estruturais na legislação trabalhista.
Por que a indústria catarinense de carnes pesa nesse debate
O alerta da Aurora Coop ganha peso por causa da importância do setor de carnes para Santa Catarina e para o Sul do país. O estado é um dos principais polos brasileiros de produção de aves e suínos, com forte concentração no oeste catarinense, e abriga gigantes do setor e uma rede densa de cooperativas e produtores integrados, que sustentam a economia de dezenas de municípios.
Por isso, decisões nacionais sobre jornada de trabalho têm efeito particularmente sentido nessa região, onde uma boa parte das vagas formais está justamente na agroindústria. Os impactos potenciais sobre granjas, frigoríficos e cadeias logísticas reforçam por que entidades empresariais vêm pedindo períodos de transição mais longos e discussões setoriais, enquanto sindicatos e o governo defendem a urgência da mudança em nome dos direitos dos trabalhadores.
O cálculo apresentado pela Aurora Coop joga luz sobre um dos pontos mais sensíveis do debate em torno do fim da escala 6×1: o desafio de adaptar grandes cadeias produtivas, especialmente as agroindustriais, a uma jornada de 40 horas semanais. Se, de um lado, a maior cooperativa de carnes do Brasil aponta riscos de redução de produção, fechamento de granjas e perda de postos, de outro, defensores da proposta lembram do apoio popular e da necessidade histórica de aliviar a carga horária dos trabalhadores brasileiros. A decisão final caberá ao Congresso, mas seus impactos vão pesar diretamente sobre milhões de empregos no país.
E você, o que pensa sobre o impacto do fim da escala 6×1 e da jornada de 40 horas em setores como o de carnes, que empregam milhares de trabalhadores? Acredita que o alerta da Aurora se confirma na prática ou enxerga a mudança como uma conquista que precisa avançar? Deixe seu comentário, conte sua opinião sobre o tema e compartilhe a matéria com quem trabalha na indústria, no campo ou acompanha de perto o debate trabalhista no Brasil.

Ou pagar 4 hrs de extra por semana ao seus funcionários e acredito que essa seja a visão do governo, mas estão esquecendo de regulamentar as horas extras junto.
Ou pagar 8 hrs de extra por semana ao seus funcionários e acredito que essa seja a visão do governo, mas estão esquecendo de regulamentar as horas extras junto.