Apagões se intensificam quando duas refinarias são desativadas e o fluxo diário de gás cai entre 100 e 140 milhões de m³, revelando como a dependência de um único polo energético virou um alvo claro.
O que pareceu um ataque cirúrgico foi, na prática, um golpe na engrenagem que sustenta o país. Com apagões se espalhando e a crise energética se aprofundando, o Irã sentiu em horas o peso de depender do gás como base do seu funcionamento cotidiano.
Em 18 de março de 2026, por volta das 14h, caças israelenses atingiram Assaluyeh e pararam entre 100 e 140 milhões de metros cúbicos de gás por dia, com duas refinarias desativadas. O impacto foi imediato: apagões aumentaram, a escassez piorou e a operação escancarou um ponto que vinha sendo construído há décadas, a vulnerabilidade criada pela própria geografia e pela concentração de infraestrutura.
O ataque em Assaluyeh e o corte que travou o sistema

A ofensiva mirou plantas de processamento, tanques de armazenamento, dutos, complexos petroquímicos e refinarias em Assaluyeh. Houve incêndios no local, mas eles foram controlados e não foram relatadas mortes imediatas. Israel avisou Washington antes, e, segundo a base, Trump aprovou enquanto as forças americanas não participaram.
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O que fez o episódio virar crise não foi só o dano físico. Foi o efeito dominó: menos gás disponível por dia significa menos energia para um país que roda, majoritariamente, em cima do gás. E quando o gás falha, os apagões aparecem primeiro.
Por que os apagões cresceram tão rápido
O Irã tem cerca de 120 trilhões de pés cúbicos de gás natural, algo equivalente a aproximadamente 18% do gás mundial, atrás apenas da Rússia. O centro desse poder é South Pars, metade do maior campo de gás do mundo dividido com o Qatar.
Esse único campo sustenta a rotina do país. Ele fornece a maior parte do gás doméstico, que cobre mais de 80% do consumo de energia iraniano e gera cerca de 85% a 86% da eletricidade. Quando Assaluyeh é atingida e parte dessa cadeia é interrompida, apagões deixam de ser um incômodo e viram sintoma de um sistema sem margem de manobra.
A fragilidade exposta: concentrar energia demais em um só lugar
Além do ataque em si, a base aponta um detalhe incômodo: concentrar 70% do fornecimento de energia do país em um único local deu ao inimigo um alvo claro. No papel, um ponto remoto pode parecer defensável. Na realidade, ele vira uma chave geral: se alguém encontra o lugar certo e desliga, o país inteiro sente.
É por isso que, mesmo com a leitura comum de “superioridade aérea”, o efeito real foi outro. O Irã ficou preso na própria arquitetura energética, e os apagões foram o sinal mais visível dessa prisão.
A geografia do Irã como escudo e como armadilha
A base descreve o Irã como uma “bacia montanhosa” que dita onde a chuva chega, onde a seca domina, onde exércitos travam e onde cidades prosperam ou murcham. O país é cercado por grandes cadeias de montanhas e, em grande parte, está acima de 1.500 metros, com pouca terra plana fora de faixas estreitas no Mar Cáspio e na planície de Cuzistão.
Esse relevo protege e isola ao mesmo tempo. A autoestrada Teerã Norte, por exemplo, precisou de 137 túneis para atravessar o Albós. Houve obra iniciada em 1997, com perfuração por quase duas décadas, abandono com menos de um quarto concluído e, quando empresas iranianas assumiram, apareceram falhas, água inundando, metano, rochas compactas e máquinas “engolidas” pela montanha, exigindo túneis de desvio para retirar equipamento e recomeçar. Não foi falta de vontade, foi o terreno cobrando o preço.
Infraestrutura cara, lenta e sempre sob pressão
A geografia que eleva barreiras militares também encarece qualquer corredor interno. A base cita exemplos como:
Túnel Kendovan: alargamento iniciado em 1995, parecia simples, mas água subterrânea invadiu, rocha desmoronou repetidamente e o projeto só terminou em 2002.
Represa Bactiári: planejada para ser uma das mais altas do mundo em um desfiladeiro de Zagros, contrato de 2 bilhões de dólares com a China em 2011, cancelado em menos de um ano e transferido à Guarda Revolucionária, com cerimônias e acessos, mas sem represa concluída.
No transporte, a ferrovia transiraniana, inaugurada em 1939, atravessou os Zagros com 126 túneis e enfrentou inclinações de até 2,8% em trecho entre Teerã e o Cáspio. Já a rodovia Teerã Chomal é retratada como uma batalha contínua: dezenas de túneis, rocha comprimida empurrando paredes, metano e sulfeto de hidrogênio exigindo ar pressurizado, água invadindo a 800 L por segundo, falhas geológicas travando máquinas. Cada metro vira uma disputa com a montanha.
Nesse contexto, quando um ataque gera apagões, ele não encontra um país com rede alternativa pronta. Ele encontra um país onde conectar e redundar custa caro e demora.
Apagões e guerra, mas a crise de água continua ali
A base também lembra que, mesmo com a atenção do mundo voltada à guerra, a água não para de faltar. O Irã tem só cerca de 1/3 das terras adequadas para agricultura, e apenas 12% realmente em cultivo. Menos de um terço das áreas cultivadas é irrigada, enquanto o restante depende de chuva em um país onde 80% das terras são áridas ou semiáridas.
Há menção de dados de satélite indicando que cerca de 68% da superfície tem alta ou muito alta suscetibilidade à desertificação. O país recebe em média 235 a 250 mm de chuva por ano, aproximadamente metade da média global de áreas terrestres, com a maior parte da chuva entre novembro e maio e uma longa estação seca.
Entre 2003 e 2019, a base afirma que o Irã perdeu aproximadamente 211 km³ de sua reserva total de água. E a disponibilidade de água per capita teria caído de cerca de 4.500 m³ na década de 1970 para aproximadamente 1.000 m³ hoje, colocando o país na categoria de escassez absoluta. Ou seja, apagões explodem em um país que já vinha acumulando outras pressões estruturais.
O Estreito de Ormuz: a carta forte em meio ao risco
Apesar de tudo, o Irã ainda tem um ponto de poder estratégico descrito como insubstituível: o Estreito de Ormuz, com 167 km e rotas de navegação estreitas. Por ali passa cerca de 20% do suprimento mundial de petróleo, algo como 20 milhões de barris por dia, além de volumes relevantes de GNL e petroquímicos.
A base cita que, em junho de 2025, o Irã usou drones de dupla função dentro de uma doutrina de “controle inteligente”, atingindo alvos e permitindo tráfego neutro, com resultado de queda de 20% no fornecimento global de petróleo e aumento de 50% a 100% nos prêmios de seguro marítimo. Até 2026, mais de 1.650 embarcações teriam sofrido interrupções de GPS e AIS no estreito, tornando a navegação comercial um risco calculado diário.
Essa é a ironia central do quadro: o país consegue ameaçar o mundo pela geografia, mas também pode ser paralisado por ela quando sua energia está concentrada demais.
O que o ataque realmente revelou sobre o Irã
No fim, o episódio em Assaluyeh mostrou dois fatos ao mesmo tempo:
1) A dependência do gás é tão alta que um choque local vira apagões nacionais.
2) A geografia que protege instalações críticas também isola, encarece e atrasa alternativas, criando um sistema com poucos planos B.
O ataque não “inventou” a fraqueza. Ele apenas apertou um ponto que já existia.
Esses apagões expostos em março de 2026 são um choque passageiro ou um sinal de que a fragilidade energética do Irã já virou rotina de risco?


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