Nas duas primeiras semanas da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, o conflito lançou quase 5,6 milhões de toneladas de CO2 e outros gases de efeito estufa, com a destruição de casas, escolas, centros médicos e instalações de petróleo aparecendo como a principal origem do impacto climático
As duas primeiras semanas da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã liberaram quase 5,6 milhões de toneladas de CO2 e outros gases de efeito estufa, segundo uma nova análise. O volume, registrado entre 28 de fevereiro e 14 de março de 2026, já supera as emissões anuais totais da Islândia e coloca a destruição de edifícios civis no centro do impacto climático do conflito.
O levantamento aponta que as emissões diretas e indiretas do confronto avançam em ritmo suficiente para, se mantido por um ano, igualar a soma anual dos 84 países com menores emissões do planeta. A análise e um artigo de opinião complementar dos pesquisadores foram publicados em 21 de março pelo Instituto de Clima e Comunidade.
Patrick Bigger, coautor do estudo e diretor de pesquisa do Climate and Community Institute, afirmou ao The Guardian que “cada ataque com mísseis é mais um pagamento inicial para um planeta mais quente e instável, e nada disso torna alguém mais seguro”. A avaliação dele reforça a dimensão climática associada às operações militares e aos danos sobre a infraestrutura.
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Destruição de casas, escolas e prédios lidera as emissões no Irã
A principal fonte de CO2 identificada no conflito com o Irã nas duas primeiras semanas foi a destruição de casas, escolas e outros edifícios. Segundo os pesquisadores, a remoção dos escombros e a futura reconstrução desses espaços representam cerca de 2,7 milhões de toneladas de CO2, volume comparável às emissões anuais das Maldivas.
Com base em dados da Sociedade do Crescente Vermelho do Irã, os autores listaram 16.191 residências destruídas, além de 3.384 estabelecimentos comerciais. Também entraram nessa conta 77 centros médicos e 69 escolas atingidos durante o período analisado.
Esse conjunto de danos foi tratado como a maior parcela do passivo climático inicial da guerra. A análise considera que o impacto não termina com os bombardeios, porque a recomposição da infraestrutura também exigirá processos intensivos em carbono.
A conclusão dá peso ao efeito indireto do conflito sobre o clima. Em vez de se limitar ao que foi queimado no momento dos ataques, o estudo projeta as emissões futuras associadas à recuperação do que foi destruído.
Petróleo em chamas aparece como a segunda maior fonte de CO2
A segunda maior fatia das emissões veio dos ataques dos Estados Unidos, de Israel e do Irã contra instalações de armazenamento de petróleo, refinarias e petroleiros na região do Golfo. Os pesquisadores estimaram que entre 2,5 milhões e 5,9 milhões de barris de petróleo foram explodidos entre 28 de fevereiro e 14 de março.
Esse volume liberou aproximadamente 2,1 milhões de toneladas de CO2 e outros gases de efeito estufa na atmosfera. O montante é apresentado como equivalente aproximado às emissões anuais de Malta.
A análise destaca que o ritmo desses ataques preocupa especialmente pelo potencial de aceleração das emissões à medida que a guerra avança. Fred Otu-Larbi, coautor do estudo e pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Universidade de Energia e Recursos Naturais, em Gana, afirmou ao The Guardian que as emissões podem crescer rapidamente por causa da velocidade alarmante com que as instalações petrolíferas estão sendo alvejadas.
Segundo ele, ainda não é possível saber com precisão quais serão os custos totais do conflito. Para o pesquisador, essa incerteza é justamente uma das razões que tornam estudos desse tipo necessários.
Combustível militar e logística ampliam o impacto climático da guerra
A terceira maior fonte de CO2 apontada na análise foi o combustível usado nas operações de combate e apoio. O estudo calcula cerca de 583 mil toneladas de emissões associadas a esse consumo, volume comparável às emissões anuais da Groenlândia.
Os pesquisadores afirmam que Estados Unidos e Israel atacaram mais de 6 mil alvos no Irã com caças e bombardeiros no intervalo estudado. Isso foi equiparado a cerca de 2.500 voos de três horas cada, além de envolver transporte de tropas e outras atividades de apoio.
A estimativa é de que essas ações tenham consumido entre 150 milhões e 270 milhões de litros de combustível. O dado ajuda a explicar por que a logística militar aparece com peso relevante mesmo ficando atrás da destruição de edifícios e dos incêndios em estruturas ligadas ao petróleo.
A análise também inclui as perdas de equipamentos que provavelmente terão de ser repostos por meio de fabricação. Nas duas primeiras semanas da guerra, os Estados Unidos perderam três caças F-15 e uma aeronave de reabastecimento KC-135, enquanto o Irã teria perdido 28 aviões, 21 navios e cerca de 300 lançadores de mísseis.
Essa reposição potencial é tratada como a quarta maior fonte de CO2 do levantamento. O total estimado chega a 190 mil toneladas, em nível aproximado ao das emissões anuais de Tonga.
Mísseis, drones e rearmamento também entram na conta
Os pesquisadores calcularam ainda as emissões incorporadas ao arsenal disparado e à necessidade de reabastecimento desse estoque. Segundo a análise, Estados Unidos e Israel lançaram 9 mil mísseis nos primeiros 14 dias da guerra.
No mesmo período, o Irã teria lançado 1 mil mísseis e cerca de 2 mil drones. A conta considera também mísseis interceptores, já que a recomposição desse material tende a exigir nova produção industrial.
De acordo com o estudo, essa parcela representa cerca de 61 mil toneladas de CO2. O volume é comparado às emissões anuais de uma pequena fábrica de cimento.
Embora seja a menor entre as grandes categorias identificadas, essa fonte reforça a ideia de que o impacto climático da guerra não se limita à queima imediata provocada pelos ataques. O rearmamento aparece como parte relevante do custo ambiental acumulado.
Pesquisadores alertam para expansão das emissões e nova dependência fóssil
Otu-Larbi afirmou que, no estágio atual, “queimar as emissões anuais da Islândia em duas semanas é algo que realmente não podemos nos dar ao luxo de fazer”. Os pesquisadores acrescentaram que a entrada de mais países no conflito poderá elevar significativamente esse volume.
A análise também sustenta que as consequências da guerra podem produzir impacto climático ainda maior que o próprio confronto. Isso ocorreria à medida que os países buscassem se proteger dos choques nos preços de combustíveis e fertilizantes provocados pelo bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz.
Segundo os autores, uma possível resposta seria a ampliação da perfuração para extração de combustíveis fósseis, em busca de maior autossuficiência energética. Bigger afirmou que, historicamente, todo choque energético provocado pelos Estados Unidos foi seguido por aumento na abertura de novos poços, novos terminais de GNL e novas infraestruturas de combustíveis fósseis.
Para ele, a guerra atual corre o risco de consolidar mais uma geração de dependência de carbono. Nesse cenário, o impacto do conflito entre EUA, Israel e Irã sobre o CO2 deixaria de ser apenas um efeito imediato dos bombardeios e passaria a influenciar também decisões energéticas de longo praz
