Geoglifo histórico de 55 metros recebe nova camada de giz branco, mobiliza voluntários e volta a intrigar arqueólogos sobre sua origem medieval
Um dos geoglifos mais famosos da Inglaterra voltou ao centro das atenções durante uma nova etapa de preservação em Dorset, no sul do país.
O Gigante de Cerne Abbas, figura monumental escavada em uma encosta, recebe uma nova camada de carbonato de cálcio para recuperar o contraste branco que marcou sua presença na paisagem ao longo dos séculos.
Com cerca de 55 metros de altura, o monumento representa uma figura humana segurando um grande porrete acima da cabeça. A imagem foi formada por sulcos abertos no terreno e preenchidos com giz branco.
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Segundo o National Trust, instituição responsável pela preservação do local desde 1920, a restauração atual utiliza aproximadamente 19 toneladas de giz e envolve cerca de 300 voluntários e funcionários durante duas semanas de trabalho.
Restauração recupera o contraste branco do geoglifo
A manutenção do Gigante de Cerne Abbas costuma ser realizada aproximadamente a cada dez anos, de acordo com o National Trust.
O processo preserva a visibilidade da figura na encosta e mantém ativo um método tradicional usado por gerações.
As equipes removem o material antigo das trincheiras, misturam o novo giz com água e compactam a pasta manualmente nos sulcos da colina.
Segundo Luke Dawson, guarda-chefe do National Trust, a técnica permanece quase igual há décadas. O trabalho exige cuidado, força física e precisão em uma área bastante íngreme.
A última grande restauração ocorreu em 2019. Poucos dias depois, fortes chuvas de outono removeram parte do revestimento recém-aplicado.
Desta vez, a equipe escolheu o início do verão europeu para tentar garantir um resultado mais duradouro.
Algas e chuvas recentes ameaçam a aparência do monumento
O contorno branco do gigante voltou a perder intensidade nos últimos anos.
O National Trust identificou dois problemas principais: o impacto das chuvas fortes e o crescimento de algas sobre o giz branco.
Segundo Dawson informou ao The Guardian, condições mais quentes e úmidas podem favorecer esse avanço. Invernos mais amenos e verões mais chuvosos também criam ambiente ideal para o crescimento das algas.
Esse processo reduz o brilho da figura e compromete a leitura visual do geoglifo na paisagem de Dorset.
A nova aplicação de giz busca reforçar a aparência original do monumento e preservar sua presença histórica na encosta.
Origem medieval mudou o debate entre arqueólogos
Durante décadas, arqueólogos e historiadores discutiram a verdadeira origem do Gigante de Cerne Abbas.
Algumas hipóteses apontavam para uma criação pré-histórica. Outras sugeriam o período romano ou uma origem pós-medieval.
Também houve interpretações que associavam a figura a uma caricatura de Oliver Cromwell, no século 17.
Em 2021, um estudo conduzido pelo National Trust apresentou uma nova datação para o monumento.
A pesquisa indicou que o gigante provavelmente foi esculpido entre 700 e 1100 d.C., durante o período saxão tardio.
O resultado surpreendeu especialistas, já que muitos esperavam uma origem muito mais antiga ou muito mais recente.
Segundo o geoarqueólogo Mike Allen, pesquisadores imaginavam que o geoglifo fosse pré-histórico ou pós-medieval, mas não medieval.
Técnica revelou camadas profundas da encosta
A datação foi feita por meio da luminescência opticamente estimulada, técnica usada para identificar quando sedimentos foram expostos à luz solar pela última vez.
Pesquisadores analisaram camadas profundas das trincheiras escavadas no solo e encontraram sinais de manutenção acumulada ao longo dos séculos.
Segundo Martin Papworth, arqueólogo sênior do National Trust, a arqueologia da encosta era surpreendentemente profunda.
Esse dado indica que diferentes gerações reabasteceram o contorno do gigante com calcário por muito tempo.
Estudos mais recentes também levantaram a hipótese de que a figura tenha sido inspirada em Hércules, personagem associado à força e ao porrete.
A origem exata do monumento, porém, segue cercada de dúvidas.
Monumento segue ligado à comunidade local
O período indicado pela pesquisa coincide parcialmente com a fundação da Abadia de Cerne, no século 10.
Essa proximidade temporal levanta uma pergunta curiosa entre pesquisadores: como uma figura nua monumental teria convivido com a presença de um mosteiro na região?
Segundo Gordon Bishop, presidente da Sociedade Histórica de Cerne, ainda há muita pesquisa a ser feita nos próximos anos.
O monumento mantém forte valor simbólico para os moradores locais, mesmo diante das perguntas sem resposta.
Conforme Dawson afirmou ao The Guardian, todos na vila têm alguma ligação com o gigante.
Com a nova restauração, o Gigante de Cerne Abbas volta a ganhar destaque na paisagem de Dorset e reforça seu lugar entre os geoglifos mais intrigantes da Inglaterra.
Afinal, quantos mistérios esse gigante medieval ainda pode revelar sobre a história inglesa?

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