O Reino Unido perdeu até 92% de seus prados de erva-marinha por poluição e dragagem. Agora voluntários mergulham para replantar semente por semente em bolsas biodegradáveis — e cada hectare restaurado captura carbono 35 vezes mais rápido que uma floresta tropical.
Nas décadas de 1860, empreendedores britânicos escreviam ao Times de Londres propondo a erva-marinha como um potencial cultivo comercial capaz de rivalizar com o algodão importado. Era tão abundante nas costas do Reino Unido que parecia inesgotável. Hoje, o país perdeu até 92% desses prados submarinos — e só recentemente percebeu o tamanho do buraco que cavou no fundo do mar.
A erva-marinha (Zostera marina e Zostera noltii, as duas espécies nativas britânicas) é a única planta com flores capaz de viver completamente submersa em água salgada e se polinizar dentro do oceano. Forma pradarias densas e ondeantes em águas rasas de até 4 metros de profundidade, em baías protegidas e estuários ao longo de toda a costa. E faz coisas que nenhuma floresta terrestre consegue replicar.
O que se perdeu quando os prados desapareceram
Um estudo publicado em 2021 na revista Frontiers in Plant Science, conduzido por pesquisadores das universidades de Londres, King’s College e Swansea, foi o primeiro a mapear sistematicamente o histórico de perda de erva-marinha no Reino Unido. Os dados vieram de jornais do século XIX, diários de naturalistas e levantamentos científicos compilados ao longo de décadas.
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A conclusão foi pesada: com alta certeza, ao menos 44% dos prados britânicos foram perdidos desde 1936, e 39% desse total desapareceu apenas nos últimos 30 anos. Quando os pesquisadores cruzaram os dados com modelos que estimam quais áreas costeiras seriam adequadas para o habitat, o número sobe para até 92% de perda histórica.
Das cerca de 82.000 hectares que poderiam ter coberto o fundo do mar britânico — uma área equivalente a 115.000 campos de futebol — restam hoje apenas 8.493 hectares mapeados, concentrados sobretudo nas Terras Altas da Escócia, Devon e Irlanda do Norte.
As causas: esgoto, dragagem e ancora de barco a motor
A destruição não teve um único culpado. O Reino Unido foi o primeiro país a se industrializar, e as consequências chegaram aos fundos marinhos com atraso, mas de forma persistente. O principal problema é a qualidade da água. Efluentes de esgoto — especialmente durante chuvas fortes, quando as estações de tratamento transbordam e lançam dejetos sem processar no mar — carregam nutrientes que estimulam o crescimento de microalgas sobre as folhas da erva-marinha.
Essas algas microscópicas sufocam a planta ao bloquear a luz solar necessária para a fotossíntese. O escoamento agrícola com dejetos de animais agrava o problema. Obras de urbanização costeira, dragagem de portos e a ancora de embarcações de lazer completam o quadro. Uma única ancora em uma baía popular pode rasgar metros de prado em segundos.
O que está desaparecendo junto com a planta
Os números do que se perdeu vão além dos prados em si. Os 82.000 hectares históricos poderiam ter armazenado 11,5 milhões de toneladas de carbono — equivalente às emissões anuais de 7,7 milhões de carros. Poderiam também ter abrigado até 400 milhões de peixes. E filtravam, todo ano, uma quantidade de poluentes equivalente a toda a urina produzida pelos habitantes de Liverpool.
A erva-marinha é o berçário favorito de espécies comercialmente importantes como bacalhau, linguado e robalo. É também o habitat das duas espécies nativas de cavalos-marinhos do Reino Unido, que enrolam suas caudas preênseis nos caules da planta para não serem levados pela corrente. Com os prados desaparecendo, toda essa cadeia se fragmenta.
Por que a erva-marinha importa mais do que qualquer floresta tropical
Apesar de cobrir menos de 0,2% do fundo dos oceanos do mundo, a erva-marinha responde por cerca de 10% de todo o carbono enterrado anualmente nos sedimentos marinhos. E faz isso de um jeito que nenhuma árvore consegue: a uma velocidade 35 vezes maior do que as florestas tropicais.
A diferença está em como o carbono é armazenado. Quando uma árvore morre e apodrece, libera o carbono de volta para a atmosfera. Quando uma folha de erva-marinha morre, afunda e se enterra nos sedimentos abaixo do prado — onde pode permanecer por milênios, sem decomposição significativa.

Cada hectare de prado saudável equivale, em termos de captura de carbono, às emissões anuais de 47 pessoas. O IPCC estima que manguezais, sapais e prados de erva-marinha podem armazenar até 1.000 toneladas de carbono por hectare — mais do que a maioria dos ecossistemas terrestres.
A tentativa de reverter o dano: bolsas de sementes no fundo do mar
Em julho de 2019, a Natural England lançou o projeto LIFE Recreation ReMEDIES — uma iniciativa de £2,5 milhões financiada pela União Europeia para restaurar habitats marinhos em cinco Áreas Especiais de Conservação ao longo do sul da Inglaterra. O objetivo central: replantar 8 hectares de erva-marinha, 4 na Baía de Plymouth e 4 no Solent Maritime.
O método desenvolvido pela Ocean Conservation Trust (OCT) é laborioso por necessidade. As sementes da Zostera marina só podem ser coletadas por mergulhadores uma vez por ano, quando a planta floresce. Cada semente é colhida à mão, um broto de cada vez. As sementes são levadas para um laboratório especializado no Aquário Nacional do Mar, em Plymouth, onde passam o inverno em estado de dormência — armazenadas em um sistema refrigerado com alta salinidade para evitar germinação precoce.
Voluntários, sacos de juta e um canhão submarino
Na primavera, centenas de voluntários se reúnem no aquário para uma tarefa singular: colocar sementes dentro de pequenos sacos de juta biodegradável. São necessários cerca de 10.000 sacos por meio hectare restaurado. Em seguida, uma barcaça os leva até a baía, onde um dispositivo chamado HMS OCToPUS — uma espécie de seringa pressurizada — injeta os sacos diretamente no fundo do mar.

A taxa de germinação no início era de apenas 5%. Em dois anos de ajustes no laboratório, a equipe chegou a 33% — o maior índice já registrado na literatura científica sobre restauração de erva-marinha. Ao final do projeto, em outubro de 2023, os 8 hectares planejados haviam sido restaurados. Foram mais de 70.000 sacos de sementes empacotados por voluntários e implantados no oceano.
A escala do problema versus a escala da solução
Oito hectares é uma conquista real — mas representa menos de 0,1% dos prados históricos perdidos. O WWF lançou o Seagrass Ocean Rescue com meta de restaurar 15% dos prados britânicos até 2030, o que implicaria plantar até 18 hectares adicionais até 2026 e desenvolver métodos mecanizados capazes de acelerar o processo para escalas maiores.
O obstáculo mais difícil não é técnico. É a qualidade da água. Enquanto o esgoto continuar sendo despejado no mar durante chuvas fortes e os fertilizantes agrícolas continuarem chegando aos estuários, qualquer prado restaurado enfrentará a mesma pressão que destruiu os originais.
A Zona Voluntária Sem Âncora criada em Jennycliff Bay, em Plymouth, mostrou que mudanças de comportamento dos velejadores ajudam — mas o problema sistêmico exige reformas nas redes de saneamento e na gestão de bacias hidrográficas.
O que o oceano ganha quando a grama volta
Nos locais onde os prados foram restaurados ou onde a degradação foi interrompida, a recuperação surpreende. A erva-marinha pode se recolonizar espontaneamente quando as condições melhoram — como aconteceu na Baía de Tampa, nos EUA, após a redução de 90% do nitrogênio no escoamento local. Em Virginia, nos Estados Unidos, uma restauração iniciada nos anos 1990 resultou hoje em milhares de hectares replantados e em uma das populações mais densas de vieiras do Atlântico Norte.
No Reino Unido, os cavalos-marinhos já foram fotografados nos novos prados de Plymouth. Pesquisadores da Universidade de Swansea monitoram o crescimento das plantas e a densidade de peixes ao redor dos sacos biodegradáveis à medida que se decompõem, deixando apenas as raízes ancoradas no sedimento. O prado não cresce rápido. Mas cresce.
Uma planta de 100 milhões de anos que aprendeu a sobreviver
A erva-marinha existe há pelo menos 100 milhões de anos — era contemporânea dos dinossauros. Atravessou extinções em massa, glaciações e regressões marinhas. O que não havia encontrado antes era a combinação de esgoto industrial, dragagem contínua e fertilizantes em escala agroindustrial que o último século produziu nas costas britânicas.
A tentativa de reverter esse dano semente por semente, dentro de sacos de juta costurados por voluntários, é ao mesmo tempo modesta e simbólica. Modesta porque 8 hectares são uma fração minúscula do que se perdeu. Simbólica porque demonstra que a restauração é possível — e que o carbono enterrado nos sedimentos pode voltar a ser armazenado, lentamente, no fundo do mar onde sempre esteve.

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