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A ficção científica errou: biólogo da Rice University diz que humanos nascidos em Marte não seriam altos e magros como nos filmes, mas baixos, com ossos grossos, crânio reforçado e possivelmente pele alaranjada

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 10/04/2026 às 12:23
Atualizado em 10/04/2026 às 12:24
A ficção científica errou: biólogo da Rice University diz que humanos nascidos em Marte não seriam altos e magros como nos filmes, mas baixos, com ossos grossos, crânio reforçado e possivelmente pele alaranjada
Estudo indica que humanos em Marte seriam baixos, com ossos mais grossos e pele alterada.
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Estudo indica que humanos em Marte seriam baixos, com ossos mais grossos e pele alterada, podendo se tornar uma espécie separada em poucos milhares de anos.

Quando Hollywood imagina humanos em Marte, mostra pessoas altas, esguias e elegantes — figuras alongadas pela gravidade fraca do planeta vermelho. A ciência diz o contrário. Segundo o biólogo evolucionário Scott Solomon, professor de Rice University em Houston e autor do livro “Future Humans: Inside the Science of Our Continuing Evolution”, publicado pela Yale University Press, a seleção natural em Marte favoreceria corpos mais baixos, com ossos mais densos e aparência mais robusta — possivelmente parecidos com membros do gênero extinto Paranthropus, um proto-humano que viveu na África há mais de 1 milhão de anos. A razão, conforme descrito pela NBC News, pela Nautilus e pela Discover Magazine, é brutal: numa gravidade que é apenas 38% da terrestre, ossos enfraquecem — e uma pélvis frágil pode matar mãe e filho durante o parto.

O problema que ninguém vê nos filmes

A gravidade de Marte é 0,38 g — pouco mais de um terço da terrestre. Para o dia a dia, isso significa que uma pessoa de 70 kg sentiria como se pesasse 27 kg. Parece confortável. Nos filmes, é. Na biologia, é uma catástrofe em câmera lenta.

Ossos humanos precisam de gravidade para se manterem fortes. É a carga mecânica — o peso do corpo puxando contra o esqueleto — que estimula a remodelação óssea, o processo pelo qual osso velho é reabsorvido e osso novo é depositado. Sem essa carga, os ossos perdem densidade. O endocrinologista Michael Holick estima que a perda de densidade óssea em gravidade reduzida pode chegar a 50% nos primeiros dois a três anos. Astronautas na Estação Espacial Internacional perdem cerca de 1% a 2% de massa óssea por mês na microgravidade — e apesar de exercícios intensivos, nunca recuperam completamente o que perderam ao retornar à Terra.

O parto que mata

Em Marte, a perda óssea não seria temporária — seria geracional. Crianças nascidas e criadas em 0,38 g nunca desenvolveriam a densidade óssea de um ser humano terrestre. Seus esqueletos seriam adaptados à gravidade local desde o nascimento. E aqui está o problema que Solomon identificou: o parto natural requer uma pélvis estruturalmente forte. Uma pélvis enfraquecida pela gravidade baixa pode fraturar durante o trabalho de parto — matando a mãe, o bebê, ou ambos.

A seleção natural resolveria isso da forma como sempre resolve: eliminando. Mulheres com pélvis mais finas e ossos mais leves teriam mais dificuldade em partos naturais. Mulheres com ossos mais espessos e estrutura mais robusta sobreviveriam mais — e passariam seus genes adiante. Ao longo de gerações, a seleção favoreceria corpos compactos, densos e robustos. O marciano do futuro não seria o alienígena elegante dos filmes — seria mais parecido com um halterofilista baixo de crânio grosso.

Paranthropus: o modelo improvável

Solomon sugere que a aparência dos marcianos do futuro poderia lembrar membros do gênero Paranthropus — um grupo de hominídeos extintos que viveu na África entre 2,7 milhões e 1,2 milhão de anos atrás. Paranthropus boisei, o mais conhecido, tinha crânio maciço com cristas ósseas pronunciadas, mandíbulas poderosas e ossos extremamente densos. Não era alto nem elegante — era compacto e robusto.

A comparação não é com a dieta ou o estilo de vida do Paranthropus, mas com o fenótipo: ossos grossos, crânio reforçado e aparência sólida. Em Marte, onde a gravidade baixa degradaria os esqueletos ao longo de gerações, indivíduos que começassem com esqueletos mais pesados teriam vantagem — seus ossos reteriam densidade suficiente mesmo após a perda provocada pela gravidade reduzida. A seleção natural, em poucas centenas de gerações, empurraria toda a população nessa direção.

A cabeça que pode crescer

Um efeito colateral surpreendente: se partos cesarianos se tornarem a norma em Marte — como Solomon sugere que poderiam, dada a fragilidade pélvica —, o tamanho da cabeça humana deixaria de ser limitado pelas dimensões do canal de parto. Na Terra, o crânio do bebê é comprimido durante o nascimento para passar pela pélvis. Essa limitação é uma das razões pelas quais o cérebro humano não cresceu mais ao longo da evolução.

Sem essa restrição, a cabeça dos marcianos poderia se tornar gradualmente maior ao longo das gerações. Mais espaço craniano não significa necessariamente mais inteligência — mas significa que a pressão seletiva que manteve o crânio humano num tamanho específico por centenas de milhares de anos deixaria de existir.

Pele alaranjada ou pele escura: o debate

A cor da pele dos marcianos é um dos pontos de maior divergência entre os especialistas. Nathalie Cabrol, diretora do Centro Carl Sagan no Instituto SETI, argumenta que menos luz solar em Marte levaria à perda gradual de pigmentação — colonos se tornariam progressivamente mais pálidos, com cabelos claros, como aconteceu com populações humanas que migraram para latitudes altas na Terra.

Solomon discorda. A atmosfera de Marte é fina — menos de 1% da terrestre — e o planeta não tem campo magnético protetor. Isso significa que a radiação ultravioleta e cósmica na superfície é muito mais intensa do que na Terra. A melanina, o pigmento que escurece a pele, protege contra radiação UV. Solomon argumenta que a seleção natural favoreceria pele mais escura, não mais clara — ou, numa alternativa mais radical, que o corpo humano poderia começar a produzir pigmentação baseada em carotenoides em vez de melanina. O resultado: pele alaranjada, como a cor de uma cenoura. Marte seria o planeta vermelho com habitantes alaranjados.

O efeito fundador: quando 100 pessoas definem uma civilização

Elon Musk propôs enviar 100 pessoas na primeira nave para Marte. Scott Solomon aponta que esse número criaria um fenômeno genético chamado “efeito fundador” — o mesmo mecanismo que diferenciou os tentilhões de Darwin nas Ilhas Galápagos. Quando uma população nova é fundada por um grupo muito pequeno, os traços genéticos desses fundadores se tornam desproporcionalmente representados nas gerações seguintes, mesmo que não ofereçam nenhuma vantagem adaptativa.

Se os 100 primeiros colonos tiverem, por acaso, uma proporção alta de ruivos, Marte será um planeta de ruivos. Se tiverem predisposição a diabetes, a colônia terá taxas altas de diabetes. Se tiverem orelhas grandes, Marte será o planeta das orelhas grandes. O efeito fundador é aleatório — não é seleção natural, é acidente genético amplificado pelo isolamento. E em Marte, onde a população inicial seria minúscula e o fluxo genético com a Terra seria mínimo, o acidente viraria regra.

A radiação que acelera tudo

Marte não tem campo magnético global e sua atmosfera é 100 vezes mais fina que a da Terra. Isso significa que a radiação cósmica e solar atinge a superfície praticamente sem filtro. Para os colonos, isso implica risco elevado de câncer. Para a evolução, significa algo diferente: taxa de mutação acelerada.

Mutações são a matéria-prima da seleção natural. Quanto mais mutações ocorrem, mais variantes genéticas surgem para a seleção filtrar. Na Terra, a taxa de mutação é relativamente baixa porque a atmosfera e o campo magnético nos protegem. Em Marte, a taxa seria muito maior. “Aumentar a taxa de mutação dá à seleção natural mais material para trabalhar”, diz Solomon. O resultado: a evolução em Marte correria mais rápido do que em qualquer lugar da Terra.

6 mil anos para virar outra espécie

Solomon estima que, em apenas algumas centenas de gerações — talvez tão pouco quanto 6 mil anos —, um novo tipo de humano poderia emergir em Marte. Não necessariamente uma espécie separada pela definição clássica (incapaz de cruzar com humanos terrestres), mas um ser fisicamente distinto, com anatomia, fisiologia e possivelmente imunologia diferentes das nossas.

O astrônomo Chris Impey, da Universidade do Arizona, pondera que parecer fisicamente distinto seria muito mais rápido — talvez dezenas ou cem gerações — mas que a especiação completa levaria centenas de milhares de anos. O biólogo teórico Philipp Mitteröcker, da Universidade de Viena, é mais cético: populações humanas na Terra ficaram isoladas por milhares de anos sem virar espécies separadas. A divergência existe entre os cientistas, mas todos concordam num ponto: colonos de Marte não permaneceriam iguais a nós.

O sistema imunológico que esquece como lutar

Marte parece ser estéril. Se a colônia for construída como ambiente fechado e livre de germes, os colonos viveriam sem exposição a bactérias, vírus e fungos terrestres. Ao longo de gerações, seus sistemas imunológicos perderiam a capacidade de combater infecções comuns na Terra. Um resfriado terrestre poderia ser fatal para um marciano.

Essa vulnerabilidade imunológica criaria uma barreira prática entre as duas populações. Colonos evitariam contato próximo com visitantes terrestres por segurança — incluindo contato sexual. Isso reduziria o fluxo genético entre Terra e Marte e aceleraria a divergência evolutiva. A mesma lógica que separou espécies em ilhas oceânicas operaria entre dois planetas separados por 55 milhões de quilômetros de vácuo.

A ironia que Musk não mencionou

Elon Musk disse em 2016 que a humanidade tem dois caminhos: tornar-se uma espécie multiplanetária ou esperar a extinção na Terra. Stephen Hawking concordou. A colonização de Marte é apresentada como seguro de vida da espécie. Mas Solomon aponta a ironia embutida nessa proposta: a estratégia para preservar Homo sapiens pode ser exatamente o que o transforma em algo que não é mais Homo sapiens.

“Isso acontece rotineiramente com animais e plantas isolados em ilhas — pense nos tentilhões de Darwin”, escreveu Solomon na Nautilus. “Mas enquanto a especiação em ilhas pode levar milhares de anos, a taxa acelerada de mutação em Marte e os contrastes extremos entre as condições de Marte e da Terra provavelmente acelerariam o processo.” Tornar-se uma espécie multiplanetária pode significar tornar-se múltiplas espécies.

O caminho ciborgue

O astrônomo Chris Impey, da Universidade do Arizona, sugere que os colonos de Marte provavelmente não esperariam pela evolução natural. “Eles serão agressivos em engenharia genética e automodificação — melhoramento e substituição de partes e órgãos do corpo —, a ponto de incorporar dispositivos de monitoramento e reparo, seguindo um caminho ciborgue”, disse Impey à NBC News. A colônia seria composta de pessoas tecnologicamente avançadas que alterariam seus próprios corpos deliberadamente, sem esperar que a seleção natural fizesse o trabalho.

Nesse cenário, a divergência entre terrícolas e marcianos não seria apenas biológica — seria tecnológica, cultural e filosófica. Os marcianos desenvolveriam seus próprios dialetos, normas sociais e valores. Separados por distância, por biologia e por escolha, deixariam de ser “nós” muito antes de deixarem de ser Homo sapiens.

O espelho que Marte nos mostra

A questão de como humanos mudariam em Marte não é apenas sobre Marte. É sobre o que significa ser humano. Nosso corpo é o produto de milhões de anos de evolução num planeta com 1 g de gravidade, campo magnético forte, atmosfera densa e bilhões de espécies de micróbios. Tire qualquer uma dessas variáveis e o corpo muda. Tire todas ao mesmo tempo e o resultado, em algumas centenas de gerações, é algo que não reconheceríamos como nós mesmos.

Solomon não está dizendo que colonizar Marte é errado. Está dizendo que tem consequências que ninguém inclui na apresentação de slides. O plano de tornar a humanidade multiplanetária pode funcionar — mas o preço pode ser descobrir que, do outro lado da viagem, quem chega já não é quem partiu.

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Pablo César
Pablo César
11/04/2026 10:16

Esse cientista só se esquece de uma coisa: a civilização mudou a lógica da seleção natural. Não se morre mais por falta de adaptação ao meio. Pessoas com dificuldade de locomoção usam cadeiras de rodas e o mundo se adapta a ajudá-las. Partos no Brasil tem altos índices de cesarianas há décadas, é nem por isso cabeças começaram a crescer por aqui. Ele mesmo disse que os partos naturais seriam substituídos por cesarianas em marte, para mães não morrerem no parto. Neste momento ele aceita que a civilização “daria seu jeito” para pessoas não morrerem. Mas depois ele diz que por conta disso as cabeças cresceriam. Mas cresceriam a troco de que, se o material genérico é o mesmo? Essa conversa é antiga aqui na terra mesmo. Quando criança eh ouvia isso “o homem do futuro terá cabeças maiores, porque pensamos mais hoje”. Nunca vi, na prática. E por um motivo muito simples: a civilização não seleciona mais por motivos biológicos. A menos que aceitemos que em marte será diferente (os mais fracos e menos adaptados serão largados à própria sorte), a civilização fará tudo o que está ao alcance para que todos prosperem. E portanto, não haverá seleção natural. Seleção natural implica no que a moral hoje chama de barbárie. E isso, apesar de defendido por alguns grupos políticos, não é mais o que acontece.

Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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