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Com capacidade para 9.100 veículos, painéis solares no convés e motores a gás natural liquefeito, o Höegh Aurora é o maior transportador de carros do mundo, e o navio que pode embarcar uma cidade inteira de automóveis em uma única viagem vai migrar para amônia de zero carbono até 2027, tornando-se o primeiro cargueiro de grande porte da história a abandonar completamente os combustíveis fósseis

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Escrito por Débora Araújo Publicado em 06/05/2026 às 12:35 Atualizado em 06/05/2026 às 12:39
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Gigante dos mares e símbolo da nova corrida verde, o Höegh Aurora impressiona pelo tamanho e pela tecnologia.
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Gigante dos mares e símbolo da nova corrida verde, o Höegh Aurora impressiona pelo tamanho e pela tecnologia: capaz de levar milhares de carros de uma só vez, o navio quer entrar para a história ao navegar sem combustíveis fósseis nos próximos anos.

Segundo a Höegh Autoliners, o Höegh Aurora — entregue pelo estaleiro China Merchants Heavy Industry em Jiangsu, China, em julho de 2024, e colocado em operação comercial em agosto do mesmo ano — é o maior Pure Car and Truck Carrier do mundo em capacidade: 9.100 CEU, unidade de medida equivalente a um carro padrão de tamanho médio. O anterior recordista também era da Höegh Autoliners, da classe Horizon, com capacidade para 8.500 veículos.

A diferença de 600 carros parece pequena em percentual, mas o que torna o Aurora excepcional não é apenas o tamanho — é a combinação de tamanho com propulsão de nova geração e uma trajetória de descarbonização que a Höegh descreve como a mais agressiva já implementada no segmento de transporte marítimo de veículos. O Aurora opera com motores MAN Energy Solutions de multifuel capazes de rodar com GNL, biocombustíveis e óleo de baixo teor de enxofre. Tem 1.500 metros quadrados de painéis solares no convés superior, reduzindo a produção de eletricidade dos geradores em 30 a 35%. Emite 58% menos carbono por carro transportado do que a média da indústria de transportadores convencionais.

A partir de 2027, os últimos quatro dos doze navios da classe Aurora serão entregues direto do estaleiro com motores capazes de rodar com amônia verde — combustível zero carbono que eliminará quase 100% das emissões. “A Aurora Class é a joia da coroa do nosso programa de renovação verde de frota”, disse Sebjørn Dahl, COO da Höegh Autoliners. “Esses navios atendem às demandas de nossos clientes cada vez mais conscientes em relação ao carbono.”

O que é um Pure Car and Truck Carrier e por que o tamanho importa

Para entender o que o Höegh Aurora representa, é necessário entender o segmento em que opera — um dos mais invisíveis da logística global, apesar de mover dezenas de milhões de veículos por ano. Um Pure Car and Truck Carrier — PCTC — é um navio especializado no transporte de veículos. Diferentemente dos porta-contêineres, que empilham caixas metálicas com guindastes, os PCTCs são essencialmente garagens flutuantes: os veículos entram andando por rampas, são estacionados nos conveses e saem da mesma forma no porto de destino.

A maioria das montadoras do mundo usa PCTCs para exportar veículos de suas fábricas para mercados em outros continentes. Cada Toyota produzida no Japão que chega a um concessionário no Brasil, cada Volkswagen fabricada na Alemanha que é vendida na China, cada Tesla construída nos Estados Unidos que é entregue na Europa provavelmente passou dentro de um navio desse tipo.

Gigante dos mares e símbolo da nova corrida verde, o Höegh Aurora impressiona pelo tamanho e pela tecnologia

O Höegh Aurora tem 199,92 metros de comprimento e 37,62 metros de largura — dimensões que o colocam na mesma escala de um porta-contêineres médio, mas com uma organização interna radicalmente diferente. São 14 conveses internos, dos quais cinco são liftable — podem ser elevados ou abaixados para acomodar veículos de diferentes alturas, de carros compactos a SUVs de grande porte, caminhões, tratores, equipamentos de mineração e até maquinário de construção pesada. A rampa máxima suporta 375 toneladas — suficiente para os maiores veículos de carga.

O detalhe que torna o Aurora particularmente relevante para o futuro do setor é o reforço estrutural dos conveses para suportar veículos elétricos em todas as 14 pontes. Veículos elétricos são significativamente mais pesados do que seus equivalentes a combustão, por causa das baterias — um Tesla Model 3 pesa aproximadamente 1.800 kg contra cerca de 1.400 kg de um Toyota Corolla equivalente. O aumento de peso por veículo muda completamente o cálculo de carga por convés, e navios mais antigos projetados para frotas de combustão precisaram ser recertificados ou tiveram sua capacidade reduzida ao começar a transportar EVs. O Aurora foi projetado desde o início para a era elétrica.

Os painéis solares que ninguém esperava ver num cargueiro

O convés superior do Höegh Aurora é uma superfície plana de quase 200 metros de comprimento por 37 metros de largura — uma área total superior a 7.000 metros quadrados que, numa embarcação convencional, seria apenas espaço de ventilação e manutenção. A Höegh Autoliners decidiu colocar 1.500 metros quadrados de painéis solares ali.

A instalação solar num navio de transporte de veículos é incomum por razões práticas evidentes: painéis solares são frágeis, o ambiente marinho é corrosivo, e a inclinação e o movimento do navio reduzem a eficiência da geração. A Höegh superou esses desafios com painéis de construção naval endurecidos, fixados em estruturas que resistem à vibração do casco e à spray salgada. O resultado é redução de 30 a 35% na produção de eletricidade pelos geradores convencionais durante as horas de sol.

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Em números absolutos: o Aurora consome energia elétrica para iluminação, ventilação, sistemas de navegação, equipamentos de segurança e climatização dos conveses ao longo de toda a travessia. Parte significativa desse consumo agora vem diretamente do sol. Nas rotas mais ensolaradas — Ásia-Europa pelo Canal de Suez, América do Norte-Europa pelo Atlântico Norte em condições favoráveis — a economia de combustível pelos painéis pode ser mensurável em toneladas de GNL não consumido por viagem.

O sistema de energia elétrica de costa — shore power — complementa a geração solar: quando o Aurora está atracado num porto equipado, pode desligar completamente seus geradores a diesel e usar eletricidade da rede terrestre, eliminando as emissões portuárias que regulações crescentemente rigorosas em portos europeus e americanos estão penalizando com taxas crescentes. A combinação de solar + shore power + GNL é o que permite ao Aurora operar com 58% menos carbono por veículo transportado do que a média da indústria — sem nenhuma tecnologia experimental ou sem precedente, apenas com a integração eficiente de sistemas já disponíveis.

O problema da amônia — e por que a Höegh apostou nela

A transição do Höegh Aurora para amônia verde até 2027 é a parte mais ambiciosa e mais arriscada do programa Aurora Class — e entender por que a Höegh escolheu amônia em vez de metanol, hidrogênio ou outros combustíveis alternativos é entender a lógica que vai moldar o debate sobre descarbonização do transporte marítimo na próxima década.

A amônia — NH₃ — tem duas propriedades que a tornam atraente como combustível naval. Primeira: não contém carbono. Quando queimada, produz nitrogênio e água — não CO₂. Segunda: tem densidade energética por volume muito maior do que o hidrogênio puro, o que significa que um navio pode armazenar mais energia no mesmo espaço de tanque, tornando as rotas de longo alcance viáveis sem precisar de tanques enormes.

O problema é que a amônia também tem propriedades problemáticas para uso em navios tripulados. É altamente tóxica — concentrações de 300 partes por milhão no ar são perigosas para humanos em exposição curta, e 2.500 ppm são letais em minutos. É corrosiva para certos materiais, exigindo modificações nos sistemas de combustível. E queima com chama de baixa temperatura que requer ignição auxiliar, complicando o design dos motores.

A MAN Energy Solutions — fabricante dos motores dos navios Aurora — desenvolveu motores de dois tempos especificamente projetados para amônia que resolvem os problemas de ignição e combustão. A Höegh Autoliners já contratou fornecimento de amônia verde — produzida a partir de energia renovável sem emissões de carbono no processo de produção — com parceiros incluindo Yara Clean Ammonia, Norwegian North Ammonia e Sumitomo Corporation. A DNV — a principal certificadora marítima do mundo — concedeu às embarcações Aurora as notações “ammonia ready” e “methanol ready”, atestando que os sistemas foram projetados para a transição.

Os quatro últimos navios da série de 12 serão entregues direto do estaleiro já equipados com os motores de amônia — previsto para 2027, com pequeno atraso em relação ao planejado original por atraso no fornecimento dos motores MAN. Os oito primeiros navios, incluindo o Aurora e o Borealis, foram entregues com motores de GNL mas com todos os sistemas projetados para conversão futura — o que a Höegh chama de “ammonia ready”: não precisam ser substituídos, precisam ser convertidos.

A rota que um PCTC percorre — e o que muda quando ele não emite carbono

O Höegh Aurora, após ser entregue em Jiangsu em julho de 2024, fez sua primeira viagem comercial carregando veículos no Japão e na Coreia do Sul e seguindo para a Europa, passando por portos na Bélgica, França, Reino Unido, Suécia e Holanda antes de chegar a Hamburgo para um grande evento com clientes da Höegh. Em fevereiro de 2025, fez sua primeira escala no Caribe, atracando em Kingston, Jamaica.

Essa trajetória ilustra o que um PCTC de grande porte faz na prática: rotas transoceânicas de longo alcance, múltiplos portos por viagem, combinações de carga que misturam veículos de consumo com maquinário de alto valor. A rota Ásia-Europa é a mais movimentada do segmento — as montadoras japonesas, coreanas e chinesas exportam para o mercado europeu num fluxo que, no retorno, leva veículos europeus para a Ásia. A rota Ásia-América do Norte também é intensa, com Toyota, Hyundai e crescentemente BYD enviando veículos para os Estados Unidos e Canadá.

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O que muda quando o navio que percorre essas rotas emite 58% menos carbono do que a média — e eventualmente zero carbono com amônia — é a pegada de carbono incorporada no preço do veículo. Cada Toyota vendida na Europa tem uma parcela de emissões de carbono que inclui a fabricação na fábrica e o transporte marítimo até o porto europeu. Quando o transporte marítimo passa de fuel convencional para amônia verde, essa parcela cai. Para montadoras que operam sob regulações crescentes de emissão de ciclo de vida — como as que a União Europeia está implementando progressivamente — essa redução tem valor econômico direto.

O presidente do conselho da Höegh Autoliners, Leif O. Høegh, articulou o significado da classe Aurora num comunicado que foi além do marketing: “Juntos com nossos parceiros, estamos removendo carbono de um dos setores mais difíceis de descarbonar. Mudando a percepção do transporte de longa distância. Juntos, estamos tornando o shipping sustentável fazível, acelerando a transição verde em nossa indústria e estabelecendo um novo padrão para soluções e serviços mais sustentáveis no shipping.”

Os doze navios que vão mudar o setor

O Aurora não é um experimento singular. É o primeiro de uma série de 12 navios idênticos — todos construídos na mesma especificação, todos registrados na bandeira norueguesa, todos certificados pela DNV. A Höegh recebe dois Auroras a cada seis meses desde 2024, com o décimo segundo previsto para o primeiro semestre de 2027.

A escala da encomenda é o que distingue o programa Aurora de outros projetos de propulsão alternativa na indústria naval. Muitas companhias têm protótipos ou navios piloto com combustíveis alternativos. A Höegh tem doze navios, todos iguais, todos sendo entregues num período de três anos. Isso cria precedente operacional em escala que a indústria pode estudar e replicar: problemas de logística de abastecimento de GNL em diferentes portos, padrões de manutenção dos painéis solares em diferentes condições climáticas, eficiência real dos motores em diferentes tipos de carga e velocidade.

O CEO Andreas Enger foi direto ao descrever a posição da Höegh na indústria: “Como os maiores e mais ambientalmente amigáveis PCTCs já construídos, a Höegh Aurora incorpora a mudança que nossa indústria precisa.” A frase é ao mesmo tempo descrição factual e declaração de posição competitiva. Numa indústria que movimenta dezenas de milhões de veículos por ano e que representa parcela significativa das emissões globais do setor de transporte, ser o primeiro a operar zero carbono não é apenas ambientalismo — é uma vantagem competitiva num mercado onde os clientes são montadoras cada vez mais pressionadas por regulações de emissão de ciclo de vida nos mercados onde vendem seus carros.

O maior transportador de veículos do mundo é, ao mesmo tempo, a aposta mais concreta que a indústria naval fez até agora de que o futuro do transporte marítimo de longa distância não precisa ser movido a combustíveis fósseis.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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