Governo Federal acelera investimentos no Anel Ferroviário Sudeste e promete modelo final até agosto
O interesse do mercado é real e o governo já percebeu que, se quiser ver esse trem andando, vai ter que fazer concessões, mudar o traçado, oferecer garantias e até incluir mais trechos na conta. Os ajustes no projeto estão acontecendo a todo vapor, com a promessa de que o modelo definitivo seja concluído até agosto, segundo garantiu George Santoro, secretário-executivo do Ministério dos Transportes.
Investimento no projeto ganha reforços para driblar riscos e atrair investidores
Entre os ajustes que estão na mesa, o mais sensível é uma alteração no traçado da ferrovia, pensada justamente para reduzir impactos ambientais, um dos maiores entraves de projetos de infraestrutura atualmente. Além disso, o governo federal quer incluir uma apólice de seguro específica, que assegure os aportes públicos prometidos, caso haja algum imprevisto no meio do caminho.
Outro ponto relevante: a inclusão de um ramal de 80 km no Espírito Santo, que, inicialmente, seria responsabilidade da Vale, mas que agora pode entrar oficialmente no escopo da concessão. Isso porque, como bem explicou Santoro, deixar essa parte nas mãos da mineradora não agrada muito aos investidores. Afinal, a ferrovia pode acabar concorrendo diretamente com os interesses da própria Vale.
-
Enquanto pontes antigas ainda travam ferrovias pelo mundo, nos Estados Unidos uma estrutura de 2,3 mil toneladas foi montada fora do canteiro e levada de barcaça pelo rio Hudson para substituir uma ponte centenária
-
Egito constrói monotrilho de US$ 5,5 bilhões sobre o Cairo com vigas de 80 a 100 toneladas içadas por guindastes móveis, enquanto ruas precisam ser bloqueadas para erguer quase 100 km de trem suspenso
-
Perto de Amsterdã, uma obra ao lado da rodovia A9 colocou 19 vigas de concreto em sequência no mesmo dia, com peças de até 31,5 metros e 60,5 toneladas
-
Enquanto a cidade dormia na Suíça, uma ponte de 255 toneladas foi erguida no escuro por um guindaste de 1.000 toneladas em uma operação noturna com precisão milimétrica
“Essa é, sem dúvida, a questão mais sensível do projeto. Apareceu em todas as conversas com o mercado”, destacou o secretário.
Leilão ferroviário é o único com chance real até 2026
O leilão ferroviário da EF-118 virou uma prioridade. Na prática, é o único projeto do setor com chances reais de sair do papel até o fim do atual governo. Outras promessas, como a Ferrogrão e o corredor Fico-Fiol, continuam em banho-maria, cercadas de incertezas e questionamentos jurídicos.
O contrato inicial prevê 170 km, ligando Anchieta (ES) ao Porto do Açu (RJ), terminal que se consolida como hub logístico na região. Mas isso é só o começo. O projeto já considera uma expansão futura: o chamado Trecho Sul, com mais 325 km, chegando até Nova Iguaçu (RJ), onde fará conexão com a malha da MRS Logística.
Esse segundo trecho, no entanto, está condicionado ao surgimento de demanda. Segundo Santoro, se o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) avançar com as fases 3 e 4, isso dispararia o gatilho para obrigar o concessionário a tocar essa obra. O investimento inicial está estimado em R$ 4,6 bilhões, com uma contrapartida pública de R$ 3,3 bilhões.
Mercado atento e disputa começa a se desenhar
Segundo o próprio Ministério dos Transportes, 24 empresas já sinalizaram algum tipo de interesse. E o perfil é bem variado: tem desde operadores ferroviários e portuários, até construtoras e grupos estrangeiros, com destaque para investidores da China e da Espanha.
Entre os nomes que circulam nos bastidores, estão:
- Porto do Açu, da Prumo Logística, que inclusive já tem autorização para construir um ramal de 43 km, avaliado em R$ 650 milhões, conectando diretamente o terminal à ferrovia;
- Equipav, que estuda uma possível parceria com investidores chineses para entrar forte na disputa;
- MRS Logística, que, apesar da conexão natural com o projeto, declarou oficialmente que não participará do leilão;
- VLI Logística, que demonstra interesse, mas atualmente está focada na renovação da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA);
Vale, que mantém uma posição de cautela, avaliando os impactos estratégicos, dado que a EF-118 pode rivalizar com suas operações na Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM).
Para David Goldberg, diretor sênior da A&M Infra, a tendência é que grandes construtoras se interessem mais, especialmente porque os recursos públicos cobrem uma parte relevante das obras. “O fluxo da operação pode vir muito mais do direito de passagem de outras ferrovias do que de uma operação própria do concessionário”, explicou.


Seja o primeiro a reagir!