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Governo coloca R$ 2 bilhões na mesa para obra em rodovia que liga dois estados do Brasil, mas relatório revela risco de perdas de R$ 1,9 bilhão e viabilidade econômica considerada “estatisticamente nula”

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 19/05/2026 às 23:05
Atualizado em 19/05/2026 às 23:09
Obra bilionária na BR-319 prevê R$ 2 bilhões, mas estudo aponta risco de perdas ambientais e viabilidade econômica nula na Amazônia.
Obra bilionária na BR-319 prevê R$ 2 bilhões, mas estudo aponta risco de perdas ambientais e viabilidade econômica nula na Amazônia.
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Investimento bilionário na BR-319 reacende o debate sobre infraestrutura na Amazônia, ao mesmo tempo em que estudos técnicos apontam risco de prejuízo econômico, perdas ambientais expressivas e dúvidas sobre o retorno social da rodovia que conecta Amazonas e Rondônia.

Mantida no planejamento plurianual do governo federal, a obra da BR-319 tem custo estimado em mais de R$ 2 bilhões e volta a concentrar atenções por ligar Manaus à divisa entre Amazonas e Rondônia, em uma área considerada estratégica e ambientalmente sensível.

Ao mesmo tempo, um estudo técnico já publicado sobre a reconstrução da rodovia aponta risco de perdas econômicas e ambientais bilionárias, com resultado negativo mesmo quando são considerados apenas custos e benefícios diretos de transporte.

Vinculada à ação orçamentária 1248, dentro do Programa 3106, a intervenção aparece nos anexos de investimentos plurianuais com custo total de R$ 2.045.094.560 para o trecho Manaus-divisa AM/RO.

Com base na revisão do Plano Plurianual 2024-2027, a previsão mais recente indica conclusão até 31 de dezembro de 2028 e reserva R$ 345,4 milhões entre 2024 e 2027 para essa etapa da execução.

BR-319 concentra obra bilionária no Norte

Tratada pelo governo como ligação estratégica entre Manaus e o restante da malha rodoviária nacional, a BR-319 conecta o Amazonas a Rondônia e aproxima a capital amazonense de eixos terrestres já integrados ao Centro-Oeste e ao Sudeste.

Na programação do ciclo atual, os desembolsos foram distribuídos de forma gradual, com valores menores no início e maior concentração nos anos seguintes, movimento que indica tentativa de acelerar a execução conforme o projeto avança.

Para 2024, a previsão divulgada foi de R$ 9,7 milhões, enquanto 2025 aparece com R$ 81,8 milhões e 2026 soma R$ 53,9 milhões dentro da programação informada.

O maior volume projetado está em 2027, quando os aportes chegariam a R$ 200 milhões, valor que representa a principal expansão prevista no período analisado para essa etapa da rodovia.

No centro das discussões está o chamado Trecho do Meio, segmento que há anos reúne entraves ambientais, logísticos e administrativos, além de ser apontado como decisivo para restabelecer a ligação terrestre entre Manaus e Porto Velho.

Além da reconstrução e adequação da BR-319, o Programa 3106 também reúne metas de manutenção, pavimentação e melhoria de rodovias federais no Norte, com foco em ampliar a capacidade da infraestrutura regional.

Até 2027, a programação mencionada para o PPA prevê a entrega de 298,84 quilômetros de estradas pavimentadas ou adequadas na região, dentro do conjunto de ações voltadas ao transporte rodoviário.

Estudo questionou retorno econômico da BR-319

Apesar do avanço orçamentário, a reconstrução da rodovia segue acompanhada por questionamentos sobre sua eficiência econômica, especialmente a partir de análises que avaliaram custos de transporte, riscos financeiros e impactos ambientais.

Em maio de 2009, a Conservação Estratégica, ligada à Conservation Strategy Fund, publicou o estudo “Eficiência econômica, riscos e custos ambientais da reconstrução da rodovia BR-319”, voltado ao trecho intermediário da estrada.

A pesquisa examinou a pré-viabilidade econômico-ambiental da reconstrução, levando em conta benefícios para usuários, custos diretos, incertezas de execução e possíveis efeitos da abertura de uma ligação permanente em área sensível da Amazônia.

Considerando apenas o cenário convencional, com custos e benefícios diretos de transporte, o estudo apontou prejuízo de cerca de R$ 316 milhões, em valores de 2007, para a reconstrução da rodovia.

Nesse mesmo cálculo, a relação benefício-custo foi estimada em R$ 0,33 para cada R$ 1 aplicado, o que indica retorno social inferior ao investimento necessário, segundo os parâmetros adotados no relatório.

Por meio de simulações probabilísticas, a análise de risco reforçou o resultado negativo e indicou que a probabilidade de o projeto ser economicamente viável foi considerada zero nos cenários testados pelos pesquisadores.

Mesmo com variações nas principais incertezas do cálculo, o relatório afirmou que o projeto não alcançava viabilidade econômica, resultado que ajuda a explicar a permanência da controvérsia sobre a obra.

Impacto ambiental amplia perdas estimadas

Ao incluir os custos ambientais na avaliação, o resultado ficou ainda mais desfavorável para a reconstrução, porque o estudo passou a considerar efeitos ligados ao desmatamento, à proteção territorial e às emissões associadas à perda de floresta.

Os custos econômicos parciais do desmatamento foram estimados em cerca de R$ 10,7 bilhões ao longo de 25 anos, montante equivalente a R$ 1,9 bilhão em valor presente.

Com esse cenário integrado, a perda total estimada chegou a aproximadamente R$ 2,2 bilhões, enquanto a relação benefício-custo caiu para 0,065, patamar muito inferior ao observado na análise convencional.

Na prática, o cálculo indicou que cada R$ 1 em custos geraria apenas 6,5 centavos em benefícios econômicos mensuráveis, conforme a metodologia adotada pelo estudo técnico sobre a BR-319.

Entre os componentes avaliados, o impacto climático respondeu pela maior parte das perdas ambientais calculadas, com cerca de R$ 1,4 bilhão atribuído ao efeito negativo associado às mudanças climáticas globais.

Esse valor supera os benefícios brutos estimados para a rodovia no estudo e reforça a diferença entre a lógica de integração terrestre e os custos ambientais projetados para a região.

Outro ponto citado pelo relatório foi a necessidade de aproximadamente R$ 469 milhões em investimentos adicionais para implementar e proteger Unidades de Conservação capazes de reduzir parte dos impactos associados à recuperação da estrada.

Histórico da BR-319 reúne impasses e paralisações

A reconstrução da BR-319 acumula uma disputa antiga entre argumentos de integração regional, redução do isolamento logístico e preocupação com o avanço do desmatamento em áreas de floresta ainda preservadas.

De um lado, defensores da obra citam a importância do acesso terrestre entre o Amazonas e o restante do país; de outro, estudos técnicos alertam para pressões sobre áreas florestais e custos sociais elevados.

Na avaliação da Conservação Estratégica, o histórico decisório da rodovia apresentou fragilidades relevantes, incluindo a ausência de estudos oficiais robustos de viabilidade econômica quando o projeto foi incluído no Programa de Aceleração do Crescimento.

Também consta entre os pontos mencionados a paralisação de frentes de serviço em 2007, após problemas envolvendo contratos e questionamentos sobre a execução de obras relacionadas à recuperação da rodovia.

Após as interrupções, parte dos trabalhos foi transferida ao Exército Brasileiro, por meio de estruturas de engenharia de construção, em uma tentativa de reduzir atrasos e manter intervenções consideradas prioritárias.

Mesmo com essa reorganização operacional, a discussão sobre a BR-319 continuou condicionada ao licenciamento ambiental, à capacidade de fiscalização territorial e à pressão por obras de infraestrutura no Amazonas.

Com a retomada de previsões bilionárias no planejamento federal, o debate ganhou novo peso político e orçamentário, especialmente porque a rodovia permanece associada a promessas de integração e a alertas sobre impactos ambientais.

Ao manter a obra no PPA, o governo federal sinaliza que a BR-319 segue entre os projetos prioritários de infraestrutura para o Norte, enquanto o estudo técnico de 2009 continua sendo citado por apontar retorno econômico negativo.

Entre a aposta na integração rodoviária e os riscos de ampliar perdas sociais, ambientais e climáticas, a divergência central permanece aberta em uma região de alta sensibilidade e importância estratégica para o país.

Até agora, os dados disponíveis confirmam o valor global bilionário da ação e a existência de estudos técnicos que classificam a viabilidade econômica da reconstrução como nula.

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Edson Tomé
Edson Tomé
23/05/2026 11:41

O povo amazonense tem o direito constitucional de ir vir.

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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