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Geólogos que vasculhavam dados de poços de petróleo no deserto da China encontraram o primeiro depósito de urânio em arenito eólico da história, uma formação geológica que ninguém havia explorado para urânio em 70 anos de mineração nuclear

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 18/03/2026 às 17:39
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China encontra depósito de urânio que pode superar reservas globais e abastecer reatores por décadas, descoberta na Bacia de Ordos muda o jogo da energia nuclear.

Em julho de 2024, a China iniciou a construção do projeto chamado “Urânio Nacional Nº 1”, uma operação de extração localizada em uma região árida da Mongólia Interior, onde há pouca presença urbana relevante. Apenas doze meses depois, em julho de 2025, o primeiro barril de urânio foi extraído e levado à superfície. A extração em si não seria suficiente para gerar repercussão global. O que chama atenção é o que foi encontrado no subsolo. Em janeiro de 2025, o China Geological Survey, órgão vinculado ao Ministério dos Recursos Naturais, formalizou uma suspeita que já circulava entre geólogos chineses havia anos. O Campo Jingchuan, localizado na Bacia de Ordos, contém um depósito estimado em mais de 30 milhões de toneladas de urânio in-situ.

Para efeito de comparação, o total de recursos identificados e recuperáveis de urânio no mundo, segundo o relatório mais recente conhecido como “Livro Vermelho” da AIEA e OCDE, é de aproximadamente 7,9 milhões de toneladas. Isso significa que um único campo na China, se confirmado, supera em múltiplos o que era considerado o total global anteriormente catalogado.

Bacia de Ordos: região estratégica da China concentra carvão, gás e agora urânio

A Bacia de Ordos não é um deserto convencional. Trata-se de um vasto planalto árido com cerca de 370.000 km², localizado na grande curva do Rio Amarelo e distribuído por cinco regiões chinesas: Shaanxi, Gansu, Ningxia, Mongólia Interior e Shanxi.

A região apresenta clima extremo, com invernos rigorosos, verões quentes e vastas áreas pouco habitadas. Ao longo das últimas décadas, foi amplamente explorada pela indústria energética chinesa, especialmente na produção de carvão mineral e gás natural.

Essa exploração intensiva gerou um volume significativo de dados geológicos, incluindo levantamentos sísmicos e registros radiométricos provenientes de perfurações de petróleo. Foi justamente esse conjunto de dados históricos que permitiu a descoberta do depósito de urânio.

Registros de poços de petróleo revelaram pistas ignoradas por décadas

A formação de depósitos de urânio segue princípios geológicos conhecidos desde a década de 1950. O mineral tende a se concentrar em ambientes sedimentares específicos, como antigos canais fluviais, deltas e planícies de inundação. O processo ocorre quando águas oxigenadas transportam urânio dissolvido e, ao encontrar ambientes redutores — ricos em matéria orgânica ou sulfetos —, o elemento precipita e se acumula.

O que surpreendeu os pesquisadores chineses foi a identificação desse processo em arenito eólico, formado por depósitos de areia transportados pelo vento, típicos de ambientes desérticos. Até recentemente, esse tipo de formação era considerado inadequado para a formação de depósitos significativos de urânio.

Na Formação Luohe, do Cretáceo Inferior, geólogos da China National Nuclear Corporation (CNNC) e do China Geological Survey identificaram anomalias radiométricas em zonas de arenito com coloração cinza-esverdeada inseridas em camadas de arenito vermelho.

Essa diferença de cor é geologicamente relevante. O arenito vermelho indica ambiente oxidante, desfavorável à precipitação de urânio. Já o arenito cinza-esverdeado indica condições redutoras, frequentemente associadas à presença de hidrocarbonetos e atividade bacteriana. Na prática, os próprios sistemas de petróleo e gás da região criaram, ao longo de milhões de anos, o ambiente químico necessário para aprisionar urânio.

Estimativa de 30 milhões de toneladas exige cautela técnica e validação internacional

Apesar da magnitude anunciada, o número de 30 milhões de toneladas refere-se a recursos estimados in-situ, ou seja, urânio presente na rocha, e não necessariamente economicamente recuperável. Essa distinção é fundamental. Reservas comprovadas exigem estudos detalhados de viabilidade econômica, seguindo padrões internacionais como JORC (Austrália) ou NI 43-101 (Canadá).

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Até o momento, não há auditoria independente internacional que valide os números divulgados pela China. Portanto, a estimativa deve ser interpretada com cautela.

Para comparação, o maior depósito previamente conhecido, Olympic Dam, na Austrália, possui enorme volume de minério, mas com teor de urânio significativamente menor. Já os recursos totais da Austrália somam cerca de 1,68 milhão de toneladas, enquanto o Canadá possui aproximadamente 588.500 toneladas. Mesmo considerando essas diferenças, a escala anunciada para Ordos é sem precedentes.

Lixiviação in-situ permite extração de urânio sem mineração tradicional

A extração no projeto “Urânio Nacional Nº 1” utiliza o método de lixiviação in-situ (ISL), técnica amplamente empregada em países como o Cazaquistão, responsável por cerca de 39% da produção mundial de urânio.

Nesse processo, não há escavação convencional. O solo é perfurado e uma solução líquida é injetada para dissolver o urânio presente no minério. Em seguida, o fluido é bombeado de volta à superfície para processamento. Esse método reduz significativamente a movimentação de terra e o impacto superficial, mas depende de condições geológicas específicas para ser viável.

Estudos publicados entre 2021 e 2025 indicam que o urânio no Campo Jingchuan está presente em minerais como pechblenda e coffinita, distribuídos nos poros do arenito e associados a pirita e argilas. Essa configuração favorece a extração por lixiviação, já que parte significativa do urânio encontra-se em forma solúvel.

Expansão nuclear da China aumenta importância estratégica do urânio

Em março de 2026, a China opera cerca de 58 reatores nucleares, com capacidade instalada próxima de 57 GW, sendo a segunda maior frota do mundo. Além disso, o país possui 32 reatores em construção e aprovou novos projetos com investimentos superiores a 200 bilhões de yuan em 2025.

As metas são ambiciosas: atingir 110 GW até 2030, 200 GW até 2035 e potencialmente 500 GW até 2050. Esse crescimento exige grandes volumes de combustível nuclear. Em 2023, o consumo chinês superou 11.000 toneladas de urânio, e projeções da AIEA indicam que esse número pode chegar a 40.000 toneladas anuais até 2040.

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imagem meramente ilustrativa

Historicamente, a China depende de importações, principalmente do Cazaquistão e da Namíbia, o que cria vulnerabilidades geopolíticas. Caso o depósito de Ordos se confirme, ele pode reduzir significativamente essa dependência.

Descoberta em arenito eólico pode abrir nova fronteira global para mineração de urânio

A implicação geológica da descoberta vai além da China. O arenito eólico da Formação Luohe cobre mais de 200.000 km² dentro da Bacia de Ordos e possui formações equivalentes em outras regiões do país, como Tarim, Junggar e Songliao. Esses ambientes, antes considerados pouco promissores, passam a ser potenciais alvos de exploração.

Fora da China, formações semelhantes existem em diversas bacias sedimentares ao redor do mundo. Estudos publicados em plataformas científicas como ScienceDirect e ACS Omega indicam que essa descoberta pode redefinir critérios de prospecção mineral.

Riscos ambientais da extração de urânio em regiões áridas

A lixiviação in-situ apresenta riscos específicos, especialmente em regiões com escassez de água. A Bacia de Ordos possui aquíferos interconectados e já enfrenta estresse hídrico. A injeção de soluções químicas no subsolo pode, em caso de falhas, contaminar lençóis freáticos.

Estudos em outras regiões da China, como a Bacia de Yili, documentaram contaminação de águas subterrâneas e aumento de concentração de urânio em populações locais.

Além disso, a região abriga ecossistemas frágeis, incluindo áreas de estepe e zonas protegidas como o lago Bojiang. A expansão acelerada da mineração pode intensificar impactos ambientais.

O potencial do depósito de Ordos em números globais

O mundo consumiu aproximadamente 59.000 toneladas de urânio em 2024. Se o depósito de Ordos realmente contiver 30 milhões de toneladas e apenas 5% forem economicamente recuperáveis, isso representaria cerca de 1,5 milhão de toneladas.

Esse volume seria suficiente para atender aproximadamente 25 anos da demanda global atual. O dado resume a dimensão da descoberta. O urânio não estava oculto em uma área inexplorada. Ele estava registrado em dados geológicos já existentes, mas que não haviam sido reinterpretados sob uma nova perspectiva.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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