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O maior telescópio do Havaí mira a Nebulosa Bola de Cristal a 1.500 anos-luz da Terra e capta a luz que saiu de uma estrela morrendo na mesma época em que Carlos Magno fundava o Sacro Império Romano: a escultura cósmica foi moldada por um par de estrelas que dança a cada 9 anos

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 25/05/2026 às 13:33
Atualizado em 25/05/2026 às 13:35
Imagem da Nebulosa Bola de Cristal NGC 1514 capturada pelo telescópio Gemini North no Havaí
Crystal Ball Nebula NGC 1514 fotografada pelo Gemini North 8.1 m no Maunakea.
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Astrônomos do International Gemini Observatory divulgaram em 22 de maio a imagem mais detalhada já feita da NGC 1514, batizada de Nebulosa Bola de Cristal, uma nebulosa planetária a 1.500 anos-luz da Terra na constelação de Touro, esculpida por um par binário de estrelas que dança uma em torno da outra em ciclos de 9 anos no coração de uma estrela morrendo.

O telescópio responsável é o Gemini North, de 8,1 metros de espelho principal.

Fica no topo do Maunakea, uma montanha de 4.205 metros de altitude no Havaí.

Olha o céu há mais de duas décadas e é um dos maiores telescópios ópticos do hemisfério norte.

A luz captada para a foto saiu da nebulosa há 1.500 anos.

Pra ancorar essa distância em tempo humano, foi no entorno do ano 526 depois de Cristo.

Era a era em que Carlos Magno fundava o Sacro Império Romano e a Europa entrava no início da Idade Média.

A nebulosa NGC 1514 fica na direção da constelação de Touro, perto da fronteira com Perseu.

Foi descoberta em 13 de novembro de 1790 pelo astrônomo alemão-britânico William Herschel.

Herschel olhou pelo seu telescópio caseiro em Slough, na Inglaterra, e viu apenas uma mancha luminosa pequena.

Não conseguia imaginar a estrutura interna desse cisco celeste.

A gente passou mais de 200 anos sem entender a forma exata desse pedaço de céu.

A dança binária mais lenta já catalogada

O centro da Nebulosa Bola de Cristal esconde um sistema de duas estrelas.

Uma é uma estrela O-type, sub-luminosa, com temperatura de superfície altíssima.

A outra é uma gigante A0III que fornece a maior parte da energia que ilumina a nebulosa.

As duas orbitam uma em torno da outra a cada 9 anos.

É o ciclo binário mais lento já registrado dentro de uma nebulosa planetária.

Para efeito de comparação, a maioria dos sistemas binários em nebulosas tem período de horas, dias, no máximo semanas.

Nove anos por volta completa coloca a NGC 1514 numa categoria à parte do que se conhecia até aqui sobre dinâmica estelar dentro dessas nuvens de gás.

É o jeito que as duas estrelas dançam que esculpe a forma irregular da nebulosa.

Cada uma sopra ventos estelares assimétricos, que comprimem o gás expelido em camadas sucessivas que parecem flocos de algodão luminoso flutuando no espaço.

Comparação entre a imagem da NGC 1514 captada pelo telescópio WISE em 2009 e a do James Webb em 2025

Como uma estrela morre

A Bola de Cristal é exemplo clássico de nebulosa planetária.

Apesar do nome confuso, não tem nada a ver com planetas.

A categoria foi batizada no século 18, porque as nebulosas se pareciam, vistas em telescópios pequenos, com discos planetários.

Na verdade, a nebulosa planetária se forma quando uma estrela de massa intermediária ejeta as camadas externas no fim da própria vida.

O núcleo da estrela fica para trás como anã branca, ainda quente o suficiente para ionizar o gás expelido e fazer a nebulosa brilhar de dentro para fora.

É como se a estrela desovasse a própria pele em camadas concêntricas antes de morrer definitivamente.

O processo dura entre 10 mil e 20 mil anos, intervalo curto na escala estelar.

Depois, o gás se dissipa pelo espaço interestelar e enriquece nuvens onde novas estrelas vão se formar.

Imagem infravermelha do James Webb revela dois anéis de poeira em torno da NGC 1514

O Webb completa o retrato

O James Webb, que também captou pela primeira vez nuvens de gelo de água em exoplaneta este mês, fez observações da Bola de Cristal no infravermelho.

As imagens do Webb revelam dois anéis de poeira em torno da nebulosa, invisíveis em luz visível.

Os astrônomos acreditam que os anéis vieram de um episódio de perda de massa anterior do par binário.

Foram depois moldados pelos ventos rápidos e assimétricos das duas estrelas.

Combinando o que o Gemini North captou em luz visível com o que o Webb mostrou no infravermelho, os pesquisadores podem agora reconstruir a história completa de como a estrela central começou a morrer.

Confesso que essa parte é a que mais me fascina: cada nebulosa planetária é um capítulo curto na vida da galáxia, e a gente está vendo ele acontecer em tempo real, séculos depois do gás ter saído.

A Bola de Cristal vai continuar inflando pelos próximos milênios.

Depois vai se diluir, e em algum momento daqui a algumas dezenas de milhares de anos esse pedaço específico do céu vai ficar escuro de novo.

E você, qual outra descoberta astronômica recente te chama mais atenção pela paciência da observação científica? Conta aí.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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