Grande Lago Salgado perdeu 73% da água, expõe poeira com metais tóxicos e ameaça aves, economia e saúde pública em Utah.
O Grande Lago Salgado de Utah entrou em uma fase crítica que já não pode ser tratada como uma oscilação natural de um lago em região árida. Pesquisadores ligados à Universidade Brigham Young afirmaram em relatório de janeiro de 2023 que o lago já havia perdido 73% da água e 60% da área de superfície, enquanto o portal oficial do estado de Utah descreve o cenário como uma ameaça direta ao meio ambiente, à economia e à qualidade do ar da região.
O problema deixou de ser apenas a retração da água. À medida que o lago encolhe, o leito seco fica mais exposto ao vento, a salinidade sobe, a base da cadeia alimentar entra em colapso e o risco de poeira contaminada avança sobre uma área densamente povoada do norte de Utah. O USGS, serviço geológico dos Estados Unidos, afirma que essa poeira pode representar risco à saúde, especialmente em comunidades próximas ao lago e entre crianças pequenas.
Grande Lago Salgado de Utah já opera abaixo da faixa considerada saudável
O alerta mais contundente veio do relatório “Emergency measures needed to rescue Great Salt Lake from ongoing collapse”, publicado pela Brigham Young University.
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O documento afirma que, no ritmo de perda observado até então, o lago “como o conhecemos” poderia desaparecer em cinco anos, e atribui o colapso principalmente ao uso excessivo de água na bacia, agravado por seca e aquecimento. O mesmo relatório diz que o lago passou a registrar um déficit médio de 1,2 milhão de acre-feet por ano desde 2020.
O plano estratégico oficial do estado reforça que o lago precisa voltar à faixa de 4.198 a 4.205 pés acima do nível do mar para ser considerado saudável.
Abaixo de 4.192 pés, o documento classifica a situação como de efeitos adversos severos. Em janeiro de 2024, o próprio plano registrava o lago em torno de 4.192,5 pés, ainda fora da zona saudável.
Esse enquadramento é decisivo porque muda a leitura do fenômeno. Não se trata apenas de um lago menor do que o normal, mas de um sistema ecológico que já entrou em um patamar de funcionamento degradado, com impactos encadeados sobre água, ar, biodiversidade e economia regional.
Leito seco com arsênio, chumbo e outros metais transforma a retração do lago em ameaça ao ar
A parte mais preocupante da crise não está apenas na água que desapareceu, mas no que ficou no chão. O relatório da BYU afirma que sedimentos do Grande Lago Salgado já registraram poluentes como arsênio, cádmio, mercúrio, níquel, cromo, chumbo, cobre e selênio, além de outros contaminantes.
Segundo os pesquisadores, essas substâncias podem ser transportadas por partículas de poeira com menos de 10 mícrons, pequenas o suficiente para circular com facilidade pelo ar.
O USGS acrescenta que o leito exposto, especialmente nas regiões de Farmington Bay e Bear River Bay, preocupa por estar perto de centros populacionais e por carregar o legado de poluição associada à mineração, descargas de estações de tratamento e escoamento agrícola.
A agência afirma que a ciência sobre os efeitos exatos dessa poeira na saúde humana ainda está em desenvolvimento, mas já há evidências de que ela pode contribuir para riscos sanitários em comunidades do norte de Utah.
Entre os pontos já identificados, o órgão federal destaca maior vulnerabilidade de crianças com menos de 6 anos em cenários de ingestão elevada de solo e poeira. O USGS também afirma que reduzir o ressecamento do lago pode ter efeito direto na diminuição da exposição a metais transportados pela poeira.
Salinidade alta ameaça a base da cadeia alimentar e coloca milhões de aves migratórias em risco
A retração do Grande Lago Salgado não afeta apenas o volume de água, mas também altera a química do sistema. O portal oficial de Utah informa que, para o ecossistema do braço sul do lago funcionar adequadamente, a salinidade deveria ficar entre 120 e 160 gramas por litro.
No outono de 2022, porém, esse índice chegou a 185 g/L, nível que o plano estratégico do estado associa a sinais claros de colapso da teia alimentar.
Essa mudança é crítica porque organismos como brine shrimp e brine flies sustentam grande parte da fauna que depende do lago.
O próprio estado afirma que esses pequenos organismos são fonte essencial de alimento para aves migratórias e que, sem eles, longas migrações simplesmente não seriam possíveis.
O impacto potencial é continental. O plano estratégico de Utah informa que o Grande Lago Salgado recebe 10 a 12 milhões de aves por ano, vindas de 338 espécies, e funciona como elo vital da Pacific Flyway, a rota migratória entre a América do Norte e a América do Sul. Quando a base alimentar do lago entra em colapso, o problema deixa de ser local e passa a ameaçar uma engrenagem ecológica de escala hemisférica.
Crise do lago ameaça empregos, áreas úmidas e parte da economia de Utah
O lago também sustenta atividades econômicas relevantes. O relatório da BYU estima cerca de US$ 2,5 bilhões em atividade econômica direta por ano, enquanto o plano estratégico do estado aponta contribuição histórica superior a US$ 1,3 bilhão anuais e mais de 7.700 empregos associados ao Grande Lago Salgado.
Embora os levantamentos usem metodologias diferentes, os dois convergem em um ponto central: a perda do lago não seria apenas ecológica, mas também econômica.

O mesmo relatório da BYU afirma que o lago ajuda a sustentar 80% das áreas úmidas de Utah, enquanto o portal oficial do estado descreve a região como a maior concentração de áreas úmidas vegetadas do território estadual. Isso significa que o encolhimento do lago pressiona simultaneamente habitat, biodiversidade, recreação, mineração de sais e qualidade do ar.
Há ainda um efeito indireto relevante sobre a neve. O portal oficial do Grande Lago Salgado informa que o chamado lake effect snow contribui com 5% a 10% da neve de Utah. Em outras palavras, o colapso do lago não ameaça apenas o que está em sua margem, mas também parte do regime climático e econômico das montanhas ao redor.
A saída existe, mas exige cortar o consumo e devolver água ao lago
O lado menos complexo dessa história é o diagnóstico da solução. Para os pesquisadores da BYU, o lago precisa receber cerca de 1 milhão de acre-feet adicionais por ano para inverter sua trajetória de queda. O relatório afirma que isso exigiria cortar o consumo de água na bacia em algo entre um terço e metade, dependendo das condições climáticas futuras.
No plano estratégico de Utah, a lógica é parecida. O documento mostra que levar o lago de volta ao limite inferior da faixa saudável, 4.198 pés, exigiria entre 471 mil e 1,055 milhão de acre-feet por ano de água adicional por conservação, a depender do horizonte de recuperação e do cenário hidrológico considerado.
O colapso do Grande Lago Salgado não é inevitável, mas o custo da inação cresce à medida que o lago perde água, expõe mais sedimento e amplia o risco de poeira, salinidade extrema e ruptura ecológica.
Como o próprio USGS ressalta, a ciência sobre impactos humanos ainda está evoluindo, mas já existe evidência suficiente para tratar o problema como uma crise ambiental e de saúde pública em curso.


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