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Frequentemente tratadas como simples pragas agrícolas, formigas-cortadeiras revelam um papel oculto: elas enriquecem solos degradados, armazenam carbono e aceleram a regeneração vegetal com túneis e fungicultura subterrânea

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 19/01/2026 às 15:34
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Frequentemente tratadas como simples pragas agrícolas, formigas-cortadeiras revelam um papel oculto: elas enriquecem solos degradados, armazenam carbono e aceleram a regeneração vegetal com túneis e fungicultura subterrânea
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Vistas como pragas, formigas-cortadeiras funcionam como engenheiras do solo que enriquecem nutrientes, guardam carbono e ajudam a restaurar paisagens degradadas.

Durante mais de um século, a imagem das formigas-cortadeiras (dos gêneros Atta e Acromyrmex) ficou associada a “inimigos das lavouras”. Pesquisas agrícolas brasileiras do início do século XX já denunciavam o impacto delas no cultivo de cana, citros e pastagens. Mas, desde os anos 1990, ecólogos e biogeoquímicos começaram a reavaliar essas espécies sob outra ótica, não como vetores de prejuízo, mas como engenheiras de ecossistemas, capazes de remodelar o solo, alterar o ciclo de nutrientes e favorecer o retorno da vegetação nativa.

Essa mudança de perspectiva não surgiu do nada: ela é sustentada por estudos de longo prazo no Cerrado, na Amazônia e em savanas da África, mostrando que as cortadeiras modificam o solo mais profundamente que muitos mamíferos escavadores, influenciando carbono, microrganismos do solo e estrutura física.

Túneis, fungicultura e bioturbação: o motor subterrâneo da restauração

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O que diferencia as cortadeiras da maioria dos insetos é que elas não apenas retiram folhas — elas constroem cidades subterrâneas que podem superar:

  • 50 m de diâmetro total,
  • 6–8 m de profundidade,
  • centenas de câmaras interligadas por túneis.

Essas estruturas foram descritas em detalhes por pesquisadores brasileiros da Unesp e da UFSCar em levantamentos realizados no Cerrado, mostrando que cada ninho pode movimentar mais de 40 toneladas de solo ao longo de sua vida útil, fenômeno conhecido como bioturbação.

No interior das câmaras, as cortadeiras cultivam fungos simbiontes (Leucoagaricus gongylophorus) usando folhas trituradas como substrato. Esse sistema de fungicultura subterrânea é tão eficiente que vários estudos (como os publicados na Science e na PNAS) consideram as cortadeiras o único caso bem estabelecido de agricultura não humana complexa na natureza.

Quando essas colônias são abandonadas, o que sobra é um solo com:

  • mais matéria orgânica,
  • maior umidade,
  • maior porosidade,
  • maior concentração de nutrientes como potássio, cálcio e magnésio.

Isso é exatamente o que uma área degradada não tem.

Carbono no subterrâneo: o efeito invisível para o clima

Um dos achados mais importantes dos últimos anos é que as cortadeiras influenciam o armazenamento de carbono no solo. Pesquisas conduzidas na Amazônia e Cerrado, citadas em revistas como Biotropica e Journal of Tropical Ecology, identificaram que os ninhos apresentam:

  • teores mais altos de carbono orgânico,
  • agregados de solo mais estáveis,
  • microbiota mais diversa.

Por quê?

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Porque o cultivo fúngico quebra e reorganiza matéria vegetal, enquanto a bioturbação mistura camadas de solo e injeta carbono mais profundamente, onde a decomposição é mais lenta. Esse mecanismo reduz a liberação de CO₂ e cria bolsões de carbono estável, um fator crucial para políticas de restauração e mitigação climática.

No Cerrado — um dos biomas mais quentes e antigos do mundo — estudos sugerem que as ilhas de fertilidade criadas por cortadeiras funcionam como pontos de partida para a regeneração florestal em campos degradados.

Quando a “praga” vira arquiteta da regeneração vegetal

Em regiões onde pastagens degradadas e solos arenosos dominam, os ninhos de cortadeiras tornam-se manchas de fertilidade, facilitando a germinação e o crescimento de plantas mais exigentes. Pesquisadores cognitaram que muitos arbustos pioneiros crescem preferencialmente próximos a ninhos abandonados.

Isso foi observado:

  • no Cerrado brasileiro, em áreas de pasto abandonado,
  • na Amazônia, após extração seletiva de madeira,
  • na savanas africanas, onde espécies de Acromyrmex enriquecem o solo.

A lógica ecológica é clara: onde há nutrientes, há plantas; onde há plantas, há sombra, micróbios, dispersores e, finalmente, retorno do ecossistema.

Ou seja: o predador de folhas vira facilitador de florestas.

A engenharia ecológica através do tempo

Para entender o tamanho da transformação, é útil comparar com outro caso já famoso: os castores na América do Norte, hoje reconhecidos como “engenheiros ecossistêmicos” por criarem represas e zonas úmidas. No caso das cortadeiras, a engenharia não é hidráulica, ela é edáfica (do solo).

O resultado, porém, aponta na mesma direção: modificar o ambiente de forma duradoura.

E isso levanta uma questão importante: se mamíferos construtores moldam rios e lagos, por que insetos construtores não moldariam solos?

Agricultura, controle e restauração: o ponto de equilíbrio

Nenhum ecólogo sério defende que cortadeiras devam ser “soltas em lavouras”. Elas realmente causam prejuízos em agricultura intensiva, especialmente:

  • silvicultura (eucalipto),
  • citros,
  • cana-de-açúcar,
  • pastagens.

O ponto é outro: reconhecer que uma espécie pode ser praga em um contexto e peça-chave da restauração em outro.

Hoje, programas de restauração ecológica já consideram a presença de cortadeiras como:

  • indicador de solo vivo,
  • sinal de fertilidade subterrânea,
  • agente de ciclagem biogeoquímica.
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Isso está bem documentado em pesquisas de restauração ecológica financiadas por instituições brasileiras, americanas e africanas.

O que isso muda para o futuro?

Três tendências científicas se destacam:

Restauro baseado em processos
Restaurar um ecossistema não é apenas plantar árvores — é reativar processos subterrâneos que sustentam nutrientes, água e carbono.

Rewilding do solo
O debate sobre rewilding (reintrodução de funções ecológicas) está chegando ao subsolo, e formigas cortadeiras estão no centro dessa discussão em biomas tropicais.

Valor climático invisível
O carbono do solo tropical é imenso, porém subestimado. Cortadeiras ajudam a explicar onde esse carbono está e como ele se mantém.

As formigas cortadeiras não vão deixar de ser problema para agricultores — e não precisam. Mas, ao mesmo tempo, ignorar seu papel como engenheiras subterrâneas distorce nossa compreensão dos ecossistemas tropicais.

Elas:

  • movimentam solo,
  • enriquecem nutrientes,
  • armazenam carbono,
  • facilitam vegetação,
  • reorganizam microbiotas,
  • constroem estruturas que duram décadas.

Ou seja: são pragas agrícolas e restauradoras ambientais ao mesmo tempo, dependendo do contexto e poucas espécies no planeta carregam essa dualidade tão forte.

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João
João
26/01/2026 09:00

Nasci na roça, cresci na roça, e combato essas formigas minha vida toda até hoje , e agora pesquisadores vem com essa conversa de q as formigas fazem bem pro meio ambiente, falaram um monte coisa verdadeira sobre as formigas , tipo aumento de matéria orgânica no solo , etc , dizem q elas são ótimas para recuperar áreas degradadas , mas só se esqueceram de uma coisinha um pequeno detalhe ,”essas formigas dependem de vegetação para sobreviver , em uma área degradada elas não sobrevivem ” , uma coisa é estudar as formigas dentro de ambientes controlados, outra é na natureza , e na natureza elas são concorrentes dos humanos e dos animais q o ser humano cria pra seu sustento, essa febre ecológica cega os pesquisadores e promovem a desinformação da população, levando as pessoas q vão ao supermercado todo dia comprar alimentos, a serem contra as pessoas que produzem os alimentos que estão lá no mercado .

Antônio de Abreu Pereira.
Antônio de Abreu Pereira.
21/01/2026 08:47

A preservação da qualidade do feijão em tempos passados poderia ser feitas fazendo uma mistura de terra solta superficial dos formigueiros(saúvas limão, mata pasto,etc…) com os grãos secos (mistura uma parte de terra seca e outra parte dos grãos secos) está mistura guardada em recipientes secos e ventilados), preserva a qualidade do grão para alimentação humana e para futuros plantios já que não endureciam a casca e preserva o poder germinativo em 100% dos grãos. O interessante é que não usavam química pesada,pois o feromônio existente na terra de formigueiro faziam a função.

Marcos Henrique Saat
Marcos Henrique Saat
20/01/2026 08:14

Também acho que o fungo cultivadopelas formigas cortadeiras têm ação benéficas para o solo. Deveriam estudar mais este tipo de fungo. Além disto estas formigas devem ter alguma substância que impede que outros fungos cresçam e talvez deve ter ação bactericida.

Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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