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Fitch eleva nota individual da Petrobras a ‘bbb+’ pela primeira vez desde 2020, mas mantém rating global ‘BB’ por vínculo com o Brasil e influência do governo federal

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 04/11/2026 às 20:59 Atualizado em 04/11/2026 às 21:00
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Fachada da Petrobras no Rio de Janeiro, em fotografia oficial utilizada no comunicado sobre a revisão da Fitch em novembro de 2026. Foto de arquivo: André Motta de Souza / Agência Petrobras.
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Fitch elevou o perfil de crédito individual da Petrobras de ‘bbb’ para ‘bbb+’, primeira melhora desde 2020, mas manteve a nota global ‘BB’. O vínculo com o risco soberano do Brasil limita o rating final da estatal.

A Petrobras recebeu da Fitch Ratings sua primeira elevação de perfil de crédito individual desde 2020, passando de ‘bbb’ para ‘bbb+’. A agência reconheceu a evolução da governança, o desempenho das operações e a capacidade financeira da estatal. Entretanto, manteve o rating global em ‘BB’, a mesma classificação atribuída ao Brasil.

O relatório da Fitch foi divulgado em 3 de novembro de 2026, e a Petrobras comunicou a avaliação ao mercado na quarta-feira (4). A justificativa para a manutenção da nota internacional está ligada ao controle estatal: segundo a agência, o Governo Federal possui, direta e indiretamente, 50,3% dos direitos de voto da petrolífera e pode influenciar decisões sobre investimentos e estratégia.

Petrobras sobe para ‘bbb+’ em avaliação própria, mas Fitch mantém nota internacional ‘BB’

A mudança foi aplicada ao Perfil de Crédito Individual, chamado pela Fitch de Standalone Credit Profile (SCP). Ele mede a qualidade de crédito da empresa considerando sua capacidade operacional e financeira própria, os riscos de gestão e o ambiente em que atua. Nessa avaliação, a estatal ganhou um degrau, de ‘bbb’ para ‘bbb+’.

O relatório original da Fitch reafirmou os ratings de longo prazo em moeda local e estrangeira em ‘BB’, com perspectiva estável. A classificação nacional continuou em ‘AAA(bra)’, igualmente com perspectiva estável.

As três notas avaliam aspectos diferentes. O SCP ‘bbb+’ examina a força creditícia intrínseca; o ‘BB’ internacional representa o risco atribuído pela agência à companhia no mercado global; e o ‘AAA(bra)’ compara a qualidade relativa da dívida da empresa com a de outros emissores brasileiros.

A faixa ‘bbb+’ é compatível com grau de investimento na escala internacional, mas foi atribuída ao perfil individual. A classificação global da Petrobras permanece na categoria especulativa ‘BB’, sem elevação nessa revisão.

Controle de 50,3% dos votos pelo governo limita a classificação da companhia

A Fitch explicou que a Petrobras continua vinculada ao risco de crédito soberano brasileiro. Sua metodologia para empresas ligadas a governos considera o potencial de interferência do controlador sobre estratégias empresariais, investimentos e fluxos financeiros.

O relatório aponta que o Governo Federal detém 50,3% dos direitos de voto, direta e indiretamente. Também cita a ausência de barreiras legais capazes de separar inteiramente os fluxos de caixa da empresa de uma eventual intervenção do controlador. Por esses critérios, a agência estabelece a nota internacional da Petrobras no mesmo patamar do país, apesar do perfil individual mais forte.

A Fitch reconhece a evolução de mecanismos corporativos que reduzem a exposição a interferências. Ainda assim, a estrutura de controle permanece: seis dos 11 integrantes do Conselho de Administração são indicados pelo acionista controlador, conforme o documento de classificação.

A petrolífera ganhou capacidade financeira aos olhos da agência, mas o rating aplicável internacionalmente continuou condicionado ao ambiente soberano e às características de sua governança societária.

Governança e geração de caixa fazem Fitch elevar perfil pela primeira vez em seis anos

Magda Chambriard, presidente da Petrobras, fala em microfone durante entrevista coletiva oficial de 2024 no Rio de Janeiro
Magda Chambriard, presidente da Petrobras, durante coletiva de imprensa no Edifício Senado, no Rio de Janeiro, em maio de 2024. Fotografia de arquivo. Crédito: Rafael Pereira / Agência Petrobras.

Na avaliação publicada em Nova York, a Fitch afirmou que o histórico recente demonstra maior eficácia da supervisão do Conselho de Administração e transparência nas decisões corporativas. A estrutura de governança passou a ser considerada mais confiável para sustentar crescimento com disciplina financeira.

A petrolífera também foi reconhecida por reservas, escala de produção, baixo endividamento relativo à geração de resultados e capacidade de produzir caixa em um setor sujeito às oscilações do petróleo Brent. A agência comparou seus fundamentos com os de grandes companhias internacionais de petróleo e gás consideradas de grau de investimento.

No comunicado oficial da Petrobras, a presidente Magda Chambriard avaliou a mudança como reconhecimento da confiança na governança e na capacidade de gerar valor no longo prazo. A declaração veio após a revisão do perfil, que estava no mesmo nível desde 2020.

O relatório identifica fatores que ainda limitam a empresa, como a previsibilidade do ambiente de negócios no Brasil e parte das condições de acesso a financiamento doméstico. Mesmo o indicador individual, portanto, foi mantido em ‘bbb+’, sem avançar para uma faixa superior.

Produção recorde de 3,512 milhões de barris equivalentes sustenta avaliação financeira

FPSO Almirante Tamandaré, navio-plataforma de casco alaranjado no campo de Búzios, com equipamentos industriais no convés e mar azul em volta
FPSO Almirante Tamandaré, no campo de Búzios, registrou média de 263 mil barris de petróleo por dia em julho de 2026. Foto: Divulgação / SBM Offshore, via Agência Petrobras.

A revisão chega poucos dias depois de a Petrobras anunciar novo recorde de produção própria no terceiro trimestre de 2026. A média de petróleo, líquidos de gás natural e gás atingiu 3,512 milhões de barris de óleo equivalente por dia, avanço de 11,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Conforme o relatório operacional divulgado em 28 de outubro, a alta foi impulsionada pelas plataformas P-78 e P-79, em Búzios, e pelo desempenho do FPSO Alexandre de Gusmão, no campo de Mero. Doze novos poços produtores começaram a operar no trimestre, seis na Bacia de Santos e seis na Bacia de Campos.

O navio-plataforma FPSO Almirante Tamandaré, em Búzios, alcançou média mensal recorde de 263 mil barris de petróleo por dia em julho. Ativos desse porte exigem investimento inicial elevado e ajudam a ampliar a geração de recursos quando operam com maior eficiência.

O CPG já havia detalhado os números do gás e da produção do terceiro trimestre. A avaliação da Fitch conecta a grande escala operacional aos indicadores financeiros utilizados para medir o risco de crédito da estatal.

Fitch destaca US$ 6,5 bilhões em caixa e dívida com vencimentos após 2029

No balanço de liquidez considerado pela Fitch, a Petrobras mantinha US$ 6,5 bilhões em caixa em 30 de junho de 2026. A agência comparou o montante com cerca de US$ 1,6 bilhão em vencimentos de dívida financeira previstos para o restante daquele ano.

A empresa dispunha ainda de aproximadamente US$ 7,3 bilhões em linhas de crédito rotativas disponíveis no encerramento do primeiro semestre. A estrutura de amortização também foi apontada como favorável: cerca de 69% das dívidas tinham vencimento após 2029.

Esses números, referentes à posição de junho, foram usados pela agência para avaliar a capacidade de enfrentar oscilações do petróleo e manter acesso a financiamentos. A análise não representa uma fotografia da tesouraria da Petrobras em novembro, e o custo de novos empréstimos depende das condições de cada operação.

A Fitch também trabalha com hipóteses de projeção financeira, incluindo investimento de capital médio de US$ 19 bilhões por ano e capacidade de refinanciar compromissos futuros. São premissas do cenário da agência, sujeitas a revisão, e não uma nova promessa de investimento divulgada pela Petrobras.

Rating nacional ‘AAA(bra)’ continua no topo, mas usa escala diferente da global

A permanência do ‘AAA(bra)’ pode gerar confusão entre leitores que acompanham títulos de dívida. Essa classificação faz uma comparação relativa entre emissores no mercado brasileiro. Seu significado é diferente do ‘AAA’ internacional atribuído aos emissores com o menor risco de crédito em escala mundial.

No caso da Petrobras, a Fitch reconheceu uma posição sólida entre os emissores brasileiros, mesmo mantendo o rating internacional ‘BB’. A perspectiva estável, aplicada às duas classificações, representa a expectativa da agência de que as condições avaliadas sustentem as notas no horizonte considerado.

A revisão não determina por si só uma redução imediata dos juros pagos pela companhia nem uma valorização automática de suas ações. Investidores também consideram preço do petróleo, câmbio, política de investimentos, resultados financeiros e condições gerais dos mercados de capitais.

Próxima melhora da nota global dependerá também do risco de crédito do Brasil

Entre os fatores que poderiam levar a uma nova alta da nota internacional, a Fitch citou uma ação positiva sobre o rating soberano do Brasil. Uma redução da nota do país, por outro lado, poderia pressionar o crédito da Petrobras, assim como uma piora no acesso a financiamento ou nas condições operacionais brasileiras.

A estatal entra nessa etapa com um perfil individual mais forte e produção em patamar recorde. O vínculo com a classificação soberana continua determinante para o rating global. A próxima revisão dependerá dos resultados operacionais e financeiros, da governança e das condições do crédito brasileiro.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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