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Após contestação da Petrobras, Cade aprova fusão de gigantes offshore, mas exige venda de navio de 182 metros e guindaste de 5 mil toneladas para proteger o pré-sal

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 04/11/2026 às 20:16 Atualizado em 04/11/2026 às 20:40
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Seven Borealis em fotografia de arquivo no Mar Mediterrâneo, próximo a Limassol, Chipre, em 2016. O Cade exigiu a venda da embarcação para aprovar a fusão Saipem-Subsea7. Foto: Ipernity (perfil 777361) / Wikimedia Commons (CC BY 3.0).
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Após contestação da Petrobras, o Cade aprovou com restrições a fusão entre Saipem e Subsea7 e exigiu a venda do Seven Borealis, navio de 182 metros com guindaste de 5 mil toneladas, para preservar a concorrência no pré-sal.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou nesta quarta-feira, 4 de novembro de 2026, a fusão das multinacionais Saipem e Subsea7, mas impôs uma condição que envolve um dos equipamentos mais poderosos da indústria offshore: as duas empresas terão de vender o Seven Borealis, navio especializado na instalação de tubulações e estruturas em águas profundas.

A decisão veio depois de a Petrobras contestar a união das concorrentes, argumentando que a concentração de fornecedores poderia reduzir a disputa por contratos e elevar custos em projetos estratégicos do pré-sal brasileiro. A embarcação a ser vendida mede cerca de 182 metros de comprimento e possui um guindaste com capacidade nominal de até 5 mil toneladas.

Cade aprova fusão, mas determina venda de navio para manter concorrência no Brasil

A aprovação ocorreu por meio de um Acordo em Controle de Concentrações (ACC), instrumento usado pelo Cade para permitir operações empresariais mediante compromissos que reduzam os riscos à concorrência. O documento negociado obriga as companhias a transferirem o Seven Borealis para um comprador independente capaz de competir no mercado de serviços submarinos.

Em comunicado oficial divulgado no mesmo dia, a Saipem confirmou o compromisso de vender o navio e informou que o acordo inclui medidas para assegurar a continuidade da carteira de projetos já contratados. A empresa também declarou que a alienação não deve alterar de maneira relevante a lógica estratégica da fusão.

Conforme a apuração do portal eixos, o acordo prevê compromissos de não reaquisição da embarcação e mecanismos para preservar os contratos em execução. A intenção é evitar que a venda seja apenas uma troca formal de proprietário, sem criar um concorrente com capacidade real de participar das próximas licitações.

Petrobras recorreu após fusão receber aprovação sem restrições da área técnica

O processo já tramitava desde 2025. Em junho de 2026, a Superintendência-Geral do Cade havia aprovado a operação sem impor condições. A Petrobras recorreu, levando ao tribunal a discussão sobre o efeito da fusão em um segmento no qual embarcações e equipes altamente especializadas são indispensáveis.

A estatal destacou as barreiras financeiras e técnicas para a entrada de novos fornecedores. Construir ou adquirir uma embarcação capaz de lançar dutos em águas ultraprofundas exige investimentos elevados, experiência operacional e disponibilidade para cumprir cronogramas de grandes campos de petróleo.

O processo de concentração, identificado pelo número 08700.008758/2025-77, teve também como terceiros interessados a Associação Brasileira de Empresas de Exploração e Produção de Petróleo e Gás (ABEP), a ExxonMobil e a Technip Brasil. A pauta oficial da sessão confirma os participantes e a relatoria da conselheira Camila Cabral Pires Alves.

Durante a análise, a preocupação central foi a perda de rivalidade entre duas empresas que poderiam disputar as mesmas contratações. A relatora defendeu a venda de capacidade de instalação a um agente independente, acompanhada por um monitor encarregado de informar o Cade sobre o cumprimento das obrigações.

Seven Borealis tem 182 metros e guindaste capaz de levantar até 5 mil toneladas

Seven Borealis, navio de instalação de tubulações submarinas da Subsea7 atracado em Roterdã com guindaste de grande porte
Seven Borealis em registro de arquivo no porto de Roterdã, nos Países Baixos. Embarcação com cerca de 182 metros de comprimento, objeto da venda exigida pelo Cade. Foto: Alf van Beem / Wikimedia Commons (domínio público).

O Seven Borealis foi concebido para instalar tubulações rígidas e içar grandes estruturas submarinas. Segundo a ficha técnica da projetista Ulstein, o navio tem 182,2 metros de comprimento, 46,2 metros de largura e pode acomodar até 399 pessoas, conforme as especificações de construção.

Seu guindaste principal possui capacidade nominal de 5.000 toneladas, enquanto o sistema de lançamento de tubos inclui modalidades conhecidas como S-lay e J-lay, utilizadas para posicionar linhas submarinas em diferentes condições de profundidade. O navio também conta com capacidade de armazenamento de aproximadamente 2.800 toneladas de tubos e equipamentos robóticos para operações no fundo do mar.

Esse tipo de embarcação é utilizado para montar a infraestrutura que conecta poços submarinos às unidades produtoras. Pode trabalhar em projetos com lâminas d’água superiores a 1.500 metros, faixa relevante para diversos desenvolvimentos do pré-sal. O Seven Borealis não é uma plataforma de produção nem uma sonda de perfuração: sua especialidade é instalar a infraestrutura que permite transportar o petróleo e o gás extraídos no mar.

A venda deverá retirar o ativo do controle da companhia combinada, mas não representa uma ordem para interromper os serviços já contratados. O acordo prevê salvaguardas justamente para manter a execução dos projetos existentes durante a transferência.

Por que um único navio pode mudar a disputa por contratos bilionários do pré-sal

Na indústria offshore, a sigla SURF reúne equipamentos como umbilicais, risers e linhas de escoamento. São cabos, tubos e sistemas que ligam os poços instalados no leito do oceano às plataformas. Já o modelo EPCI abrange engenharia, suprimentos, construção e instalação dessas estruturas.

Para desenvolver grandes campos, operadoras precisam contratar empresas com navios apropriados, equipes técnicas e capacidade de execução. A fusão de dois fornecedores relevantes pode reduzir o número de propostas independentes disponíveis, especialmente quando os navios necessários já estão ocupados com outros projetos.

A saída exigida pelo Cade busca colocar uma embarcação desse porte à disposição de outra empresa, mantendo pressão competitiva nas futuras contratações. A decisão também reflete a importância do calendário dos projetos: encontrar um concorrente tecnicamente habilitado não garante que ele tenha um navio livre na data necessária.

A Saipem já possui histórico de grandes contratos no Brasil, enquanto a Subsea7 atua em sistemas submarinos e instalação de linhas. As companhias concorrem e também podem integrar consórcios em determinadas oportunidades. Essa sobreposição foi considerada na análise sobre os riscos da união.

Saipem7 prevê receita anual de 21 bilhões de euros e carteira de 43 bilhões

Saipem 7000, navio semissubmersível de construção offshore com duas enormes estruturas de guindastes, fotografado no mar em 2025
Saipem 7000, embarcação de construção offshore da Saipem, fotografada em 2025. É diferente do Seven Borealis, cuja venda o Cade exigiu. Foto: Jan Winkler / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

A fusão foi acertada em 2025 com o objetivo de criar a Saipem7, grupo sediado em Milão, com ações negociadas nas bolsas de Milão e Oslo. No acordo definitivo anunciado em julho daquele ano, as empresas apresentaram projeções de 21 bilhões de euros em receita e 43 bilhões de euros em carteira de pedidos para a companhia combinada.

Os números são estimativas do plano empresarial divulgado pelas próprias companhias, e não faturamento já registrado pela Saipem7. O projeto também prevê ganhos anuais de eficiência de aproximadamente 300 milhões de euros, obtidos com a integração de operações, tecnologia, estruturas corporativas e frotas.

O CPG noticiou a assinatura da fusão em julho de 2025. A novidade agora é a condição imposta pelo órgão brasileiro de defesa da concorrência: a operação que originalmente havia recebido sinal verde sem restrições precisará ceder um ativo especializado para seguir adiante.

Venda do navio será acompanhada e fusão ainda depende de etapas regulatórias

A Saipem e a Subsea7 informaram que continuam comprometidas com a conclusão da união e com o atendimento das condições previstas no plano de fusão. O aval do Cade representa uma etapa decisiva no Brasil, mas a combinação ainda depende do cumprimento dos compromissos assumidos e de outras exigências aplicáveis em diferentes jurisdições.

A identificação de um comprador qualificado para o Seven Borealis e a transferência efetiva do ativo serão pontos centrais do acompanhamento. Até o anúncio de 4 de novembro, as empresas não haviam divulgado no comunicado o nome do futuro comprador nem o valor de venda da embarcação.

Para a Petrobras e outras operadoras que investem em águas profundas, o efeito da decisão será medido nas próximas concorrências por sistemas submarinos. O tribunal autorizou o negócio, mas exigiu que uma capacidade relevante de instalação continue acessível a um fornecedor independente. A manutenção dessa alternativa poderá influenciar a concorrência por grandes projetos do pré-sal nos próximos anos. A exigência de venda do navio foi suficiente? Deixe sua avaliação nos comentários.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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