Em Taylor, no Texas, área doada por um fazendeiro em 1999 para virar parque público passou por fundações, cidade e corporação econômica até ser vendida em 2025 à Blueprint. O projeto de data center bilionário divide moradores, governo local, justiça e promessa registrada em escritura e futuro do bairro local.
Um fazendeiro doou uma área de 87 acres em Taylor, no Texas, por valor simbólico de US$ 10, com a condição de que o terreno fosse usado como parque público. Quase três décadas depois, a mesma área entrou no centro de uma disputa porque foi vendida por US$ 10 milhões para dar lugar a um data center da Blueprint.
O caso foi publicado pelo Tom’s Hardware em 8 de junho de 2026 e também noticiado pelo Chron em 9 de junho de 2026, com base em apuração da 404 Media e documentos locais. O projeto previsto para o terreno é apresentado pela cidade de Taylor como um investimento de US$ 1 bilhão, com três fases e cerca de 135 mil pés quadrados de construção.
Terreno doado em 1999 tinha destino ligado a parque público

A origem da disputa remonta a 7 de julho de 1999, quando o fazendeiro identificado nas reportagens como Mr. Bland transferiu 87,97 acres para a Texas Parks and Recreation Foundation, um truste público. O valor simbólico foi de US$ 10, e a escritura indicava que a área deveria ser mantida para uso futuro como parque.
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A lembrança desse objetivo aparece no relato de Pamela Griffin, moradora local ouvida pela 404 Media e citada pelo Tom’s Hardware. Ela disse que cresceu vendo crianças brincarem na antiga área rural e recordou que Bland falava sobre a falta de espaços de lazer para os jovens da vizinhança. Para os moradores contrários ao projeto, o ponto central não é apenas o data center, mas a promessa original vinculada à terra.
Área passou por fundações, cidade e corporação econômica
Depois da primeira transferência, o terreno mudou de mãos várias vezes. Em 2003, a Texas Parks and Recreation Foundation repassou a área para outra organização sem fins lucrativos, a Williamson County Park Foundation. No mesmo ano, a fundação transferiu o imóvel para a cidade de Taylor.
Em 2008, a cidade vendeu o terreno para a Taylor Economic Development Corporation, conhecida como TEDC, por US$ 15 mil. Já em 2025, a TEDC vendeu a área para a Blueprint por US$ 10 milhões. A trajetória transformou uma doação simbólica feita por um fazendeiro para uso comunitário em uma negociação milionária ligada à infraestrutura digital.
Data center de US$ 1 bilhão virou motivo de disputa local
Segundo a página oficial da cidade de Taylor, o Blueprint Projects Data Center é um projeto de 135 mil pés quadrados planejado em três fases. A estrutura deve abrigar servidores usados para armazenamento de dados, hospedagem de sites, processamento de inteligência artificial e outras funções digitais.
O local do projeto fica no lado sudeste de Taylor, entre Carlos G. Parker Boulevard, Martin Luther King Boulevard e a linha férrea. A cidade apresenta o empreendimento como um investimento total de US$ 1 bilhão. Para moradores críticos, porém, o impacto de um data center no bairro não pode ser analisado apenas pelo valor do investimento.
Moradores temem ruído, luz, água, energia e perda de valor das casas

As preocupações citadas por moradores envolvem possíveis impactos sobre ar, água, eletricidade, ruído, iluminação e valorização dos imóveis próximos. A reportagem do Tom’s Hardware afirma que Pamela Griffin só soube do plano para o data center em 2025, quando organizadores locais começaram a alertar vizinhos sobre o projeto.
A cidade afirma que medidas de mitigação foram discutidas, incluindo muro de barreira, paisagismo, sistema de resfriamento de circuito fechado e construção de subestação própria pelo desenvolvedor. O Chron também informa que Taylor contratou a HDR para realizar um estudo de impacto ambiental, que apontou contenção de preocupações como ruído e luz, além de consumo de água menor em comparação com outros projetos do setor.
Governo local defende receita e diz ter limites legais
A cidade de Taylor argumenta que o empreendimento pode gerar cerca de US$ 30 milhões em receita adicional ao longo de dez anos. Desse total, segundo a administração local, até US$ 20 milhões poderiam beneficiar o distrito escolar, com investimentos em instalações, salários de professores e melhorias educacionais.
Ao mesmo tempo, a cidade sustenta que a propriedade já estava zoneada para uso industrial desde 2005 e foi designada como centro de emprego no plano abrangente atualizado em 2023. Em sua página de perguntas frequentes, Taylor afirma que, quando um terreno já está zoneado para uso industrial e o projeto cumpre os requisitos aplicáveis, a legislação do Texas dá direito legal para o avanço da proposta. A prefeitura diz que seu papel é exigir padrões de projeto, água, ruído e afastamento, e fiscalizar o cumprimento dessas regras.
Briga judicial continua após derrota inicial dos moradores

Moradores contrários ao projeto entraram na Justiça para tentar barrar o data center. Segundo o Chron, a ação contra a Blueprint foi rejeitada por um juiz de distrito estadual em outubro de 2025. Depois disso, os autores recorreram à Third Court of Appeals, em Austin.
Pamela Griffin e familiares aparecem nas reportagens como parte da mobilização local. A frase atribuída a ela resume o argumento dos moradores: a disputa não seria apenas contra um data center, mas pela ideia de que a terra havia sido destinada a parque público. Na visão desse grupo, a escritura original deveria preservar a finalidade comunitária do terreno.
Caso expõe tensão entre promessa rural e corrida por infraestrutura digital
A história chama atenção porque conecta duas realidades muito diferentes. De um lado, a decisão de um fazendeiro que entregou terra por um valor simbólico para beneficiar crianças e moradores locais. Do outro, a expansão de data centers em áreas urbanas e periurbanas, impulsionada por armazenamento digital, serviços online e inteligência artificial.
Essa tensão não é exclusiva de Taylor. A busca por terrenos, energia e infraestrutura tem levado projetos de data center a cidades menores, onde governos veem potencial de arrecadação, mas moradores questionam ruído, consumo de recursos, impacto visual e mudança na rotina. O caso mostra como a economia digital também depende de decisões muito físicas: terra, zoneamento, rede elétrica, construção e vizinhança.
Valor simbólico de US$ 10 virou símbolo de uma disputa maior
O contraste entre os US$ 10 da doação original e os US$ 10 milhões da venda em 2025 tornou o caso mais sensível. Para a cidade, o projeto representa receita, investimento e uso compatível com o zoneamento. Para opositores, o valor milionário não apaga a finalidade registrada quando o terreno foi destinado a parque.
O fato de a área ter sido ligada a um truste público também aumenta o peso simbólico da controvérsia. Em um estado onde escrituras e direitos de propriedade têm forte relevância jurídica e cultural, a pergunta que fica é se uma promessa de uso comunitário pode ser superada por mudanças institucionais, zoneamento e desenvolvimento econômico.
O terreno que deveria virar parque agora testa os limites da confiança pública
A disputa em Taylor não se resume a tecnologia contra moradores, nem a progresso contra nostalgia. Ela envolve documento, memória local, arrecadação, legislação, planejamento urbano e o destino de uma área que entrou na história da comunidade como promessa de parque.
No fim, o caso do fazendeiro e dos 87 acres levanta uma questão difícil: se uma terra foi entregue por valor simbólico para servir ao público, uma cidade deve poder mudar esse destino décadas depois em nome de investimento e receita? Deixe sua opinião nos comentários.

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