Projeto FutuRaM, financiado pela União Europeia, mapeou 42 matérias-primas críticas em 31 países e mostrou que resíduos de eletrônicos, baterias, edifícios e turbinas podem ampliar a recuperação de lítio, reduzir importações e evitar milhões de toneladas de CO2 por ano até 2050.
Projeto FutuRaM, financiado pela União Europeia, mapeou 42 matérias-primas críticas em 31 países e mostrou que resíduos de eletrônicos, baterias, edifícios e turbinas podem reduzir importações, ampliar a reciclagem de lítio e evitar milhões de toneladas de CO2 até 2050.
A Europa pode recuperar mais de 55 mil toneladas de lítio por ano até 2050 se transformar eletrônicos descartados, baterias usadas, edifícios demolidos e turbinas eólicas antigas em uma mina urbana estratégica para sua indústria.
Lítio aparece no centro da nova mina urbana europeia
O levantamento foi desenvolvido pelo projeto FutuRaM, financiado pela União Europeia, para medir a disponibilidade futura de matérias-primas secundárias. A pesquisa mapeou 42 matérias-primas críticas em 31 países europeus, reunindo dados sobre resíduos já presentes ou previstos nos fluxos de descarte.
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O inventário mostra que produtos colocados no mercado europeu carregavam 5,7 milhões de toneladas de matérias-primas críticas apenas em 2022. Desse total, 1,5 milhão de toneladas foi recuperado, enquanto grande parte se perdeu em rotas ilegais, reciclagem desalinhada ou exportações como itens de segunda mão.
A diferença revela uma fragilidade industrial. Materiais decisivos para veículos elétricos, baterias e energia renovável ainda dependem fortemente de fornecedores externos. O mapeamento indica que resíduos urbanos podem virar fonte relevante para reduzir essa exposição, desde que haja coleta, rastreamento e refino mais eficientes.
Recuperação pode substituir até 56% dos recursos primários
Até 2050, sistemas avançados de recuperação poderiam retirar entre 4,5 milhões e 6,2 milhões de toneladas de matérias-primas críticas por ano dos resíduos europeus. Em um cenário de economia circular completa, esse volume poderia substituir até 56% das necessidades de recursos primários do continente.
O potencial cresce com a digitalização, a eletrificação e a expansão das energias renováveis. Esses setores colocam no mercado produtos ricos em componentes estratégicos, que depois retornam como lixo eletrônico, baterias gastas, estruturas desmontadas e equipamentos industriais fora de uso.
No caso do lítio, a mudança seria expressiva. A recuperação anual poderia sair de menos de 1.102 toneladas atualmente para mais de 55.115 toneladas até 2050. O cobalto também poderia ter reciclagem quarenta vezes maior, enquanto o níquel ultrapassaria 188.495 toneladas anuais.
Menos importação e menor pressão climática
A dependência externa é um dos pontos centrais do debate. A China domina o mercado de terras raras, a República Democrática do Congo concentra o fornecimento de cobalto e a África do Sul tem posição dominante na platina. A recuperação interna mudaria parte dessa lógica.
O impacto ambiental também aparece entre os principais ganhos. A reciclagem, em vez da mineração, poderia evitar até 300 milhões de toneladas de emissões de CO2 por ano em meados do século, volume comparado à pegada anual de carbono da Espanha.
Para alcançar esse resultado, o projeto destaca a necessidade de corrigir vazamentos estruturais. Isso inclui melhorar a coleta doméstica, ampliar sistemas de rastreamento, fortalecer capacidades regionais de refino e evitar a exportação de recursos parcialmente processados, como a massa negra de baterias.
A Plataforma de Minas Urbanas reúne os dados do levantamento, enquanto a ferramenta SARA4UNFC padroniza a avaliação dos resíduos em critérios técnicos, econômicos, sociais e ambientais.
O desafio europeu agora é tratar esses descartes como insumos estratégicos, capazes de sustentar cadeias industriais essenciais e para a segurança econômica do continente europeu nas próximas décadas também.
