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Etanol ou gasolina? Motoristas não sabem, mas a regra dos 70% mudou e agora você pode perder dinheiro se segui-la cegamente

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 24/02/2026 às 15:48
Atualizado em 24/02/2026 às 15:50
Gasolina E30 muda regra dos 70% e altera cálculo entre etanol ou gasolina. Veja como consumo real pode impactar seu bolso.
Gasolina E30 muda regra dos 70% e altera cálculo entre etanol ou gasolina. Veja como consumo real pode impactar seu bolso.
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Mudança na gasolina E30 e avanço dos motores flex alteram cálculo tradicional que orientava motoristas há anos, enquanto preço do etanol anidro, octanagem de 94 RON e eficiência acima de 20 km/l tornam decisão mais técnica e dependente do consumo real de cada veículo.

A chamada “regra dos 70%”, usada por motoristas para decidir entre etanol e gasolina, ficou menos confiável depois da adoção da gasolina E30 no Brasil e do avanço dos motores flex, que passaram a variar mais no consumo conforme projeto, uso e condições de rodagem.

Embora nunca tenha sido uma conta exata, a referência ganhou novas camadas desde 1º de agosto de 2025, quando a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina passou de 27% para 30%, medida que alterou a energia disponível por litro no combustível vendido nos postos.

Na prática, o etanol hidratado continua tendo cerca de 30% menos energia por volume do que a gasolina pura, mas a gasolina E30 carrega um pouco menos energia por litro do que a mistura anterior, mudando a comparação que sustentava a regra.

“A regra dos 70% não faz sentido como algo fixo. Nunca foi exata. Varia de acordo com o carro e conforme o modo de condução”, afirma Vitor Sabag, especialista em combustíveis, ao defender que o motorista compare o consumo real do próprio veículo.

Segundo Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), o cálculo sempre partiu de um princípio físico, o poder calorífico, mas a mudança na mistura empurra a referência para perto de 71% como aproximação.

Gasolina E30 e impacto no consumo por litro

Com mais etanol anidro na gasolina, a densidade energética do combustível comercializado diminui levemente, o que tende a reduzir a autonomia por litro em relação ao padrão anterior, mesmo que a diferença não seja percebida de imediato em toda situação.

“Assim que adiciono mais etanol anidro na gasolina, ela passa a ter menos energia por litro. Hoje o carro anda um pouco menos com um litro de gasolina do que antigamente”, diz Sabag, ao explicar por que a comparação direta virou um atalho arriscado.

Esse deslocamento, no entanto, não significa que o etanol “melhorou”; a mudança é relativa, porque o parâmetro da gasolina ficou um pouco diferente, e o resultado depende do quanto cada motor perde ou ganha eficiência em cada combustível.

Ao mesmo tempo, o aumento do teor de etanol elevou a octanagem mínima da gasolina C, com proposta de ajuste de 93 para 94 RON, vinculada às especificações para manter qualidade e compatibilidade com o E30, o que influencia a forma de queima.

Em motores que conseguem explorar esse benefício, a gasolina com maior resistência à detonação pode permitir estratégias mais eficientes de ignição e compressão, o que bagunça ainda mais a ideia de que a perda de energia na mistura define sozinha o custo por quilômetro.

Preço do etanol anidro influencia valor da gasolina

Além da eficiência, a formação de preço ganhou protagonismo porque o etanol anidro é componente obrigatório da gasolina e, por isso, sua cotação tende a pressionar o valor final na bomba, ainda que o consumidor associe tudo apenas a reajustes de refinaria.

Dados do Cepea, da Esalq/USP, mostram que o litro do etanol anidro subiu de R$ 2,99 no início de agosto de 2025 para R$ 3,41 na semana de 13 de fevereiro, num período de alta monitorada.

O ciclo da cana-de-açúcar ajuda a explicar oscilações, porque a oferta tende a ser maior durante a safra e menor na entressafra, e a decisão das usinas sobre produzir mais açúcar ou mais etanol também afeta o volume disponível.

Quando o consumo de gasolina cresce, a demanda por etanol anidro aumenta automaticamente, já que ele compõe 30% do produto final, e isso pode reforçar movimentos de preço, especialmente em momentos de logística apertada ou estoques mais baixos.

Motores flex modernos ampliam variação de eficiência

A evolução dos motores flex ampliou a variação de consumo entre modelos, porque fatores como taxa de compressão, calibração de injeção e ignição, pressão e desenho da câmara de combustão podem favorecer um combustível mais do que o outro, segundo Gonçalves.

Com isso, dois carros abastecidos no mesmo posto podem responder de forma diferente ao etanol e à gasolina, e a proporção de autonomia que antes era tratada como “padrão” passou a oscilar mais, principalmente em motores turbinados e injeção direta.

Nesse cenário, a eficiência geral dos veículos também cresceu, e já há modelos que superam 20 km/l em condições específicas, o que aumenta a sensibilidade do custo final ao estilo de condução e ao tipo de trajeto, como destaca Sabag.

Mesmo quando o motorista tenta medir o consumo, a comparação pode ser distorcida por temperatura, umidade, vento, pressão de pneus, trânsito e padrão de aceleração, fatores que, somados, podem mudar o resultado sem que o combustível seja o único responsável.

“A conta que o consumidor pode fazer é comparando o consumo com os dois combustíveis, mas isso ainda é muito impreciso”, diz Gonçalves, ao citar que as condições do dia e o “espírito do motorista” também interferem na média final.

Qualidade do posto e risco de adulteração

A procedência do combustível também pesa no custo por quilômetro, porque variações de qualidade e composição podem elevar consumo e reduzir desempenho, anulando diferenças pequenas de preço na placa, num mercado em que a precificação muda com safra e logística.

Segundo Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), uma fraude recorrente é colocar etanol acima do limite estabelecido, e fiscalizações já encontraram gasolina com 40%, 50% e até 70% de etanol, o que engana o consumidor.

Como carros flex tendem a “aceitar” variações sem falhar de imediato, o motorista pode não perceber a adulteração e acabar pagando por gasolina, mas rodando com uma mistura mais próxima de etanol, o que reduz autonomia e pode transformar a economia aparente em prejuízo.

Na prática, especialistas defendem que a melhor referência continua sendo o custo por quilômetro no uso real, obtido ao repetir abastecimentos completos com cada combustível e comparar a autonomia registrada em condições semelhantes, sem depender apenas de uma regra fixa.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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