O projeto Capta, criado por três estudantes de escola pública de Sergipe, é um kit acessível de triagem precoce do autismo para comunidades vulneráveis sem médico. Premiado na FEBRACE 2026, virou política de saúde pública, no ano em que o Brasil brilhou na maior feira de ciências do mundo.
Em muitos lugares do Brasil, uma criança autista cresce sem ninguém por perto capaz de perceber os primeiros sinais, simplesmente porque não há médico na região. Foi para furar esse bloqueio que três estudantes de escola pública de Sergipe criaram o Capta, um kit de triagem precoce do autismo pensado para comunidades vulneráveis. O projeto foi um dos destaques da FEBRACE 2026, a maior feira de ciências do país, cuja premiação aconteceu em março de 2026, segundo a FEBRACE.
O nome do projeto resume a missão: captar cedo o que costuma passar despercebido. As autoras investigaram os fatores de risco do Transtorno do Espectro Autista em crianças e, principalmente, as dificuldades de acesso ao diagnóstico em regiões pobres. A resposta não foi um aparelho caro, e sim um material educativo barato, capaz de chegar onde a saúde pública não chega com a velocidade necessária.
Um kit de cartilhas e cards para enxergar o autismo cedo
O Capta não é um exame de laboratório nem um software complicado. É um kit educativo de triagem precoce do autismo formado por cartilhas, cards de sinais de alerta e instrumentos de apoio voltados a três públicos que convivem com a criança no dia a dia: famílias, educadores e agentes de saúde. A lógica é simples e poderosa, colocar a informação certa nas mãos de quem vê a criança todos os dias.
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Cada peça do material ajuda a reconhecer comportamentos que merecem atenção, como atrasos na fala, na interação e no contato visual. Em vez de esperar uma consulta especializada que pode demorar meses ou nem existir na cidade, o adulto próximo aprende a identificar os sinais e a buscar encaminhamento. É triagem precoce do autismo transformada em algo que cabe na realidade de comunidades vulneráveis.
Esse desenho é o que torna o projeto tão replicável. Por ser de baixo custo e fácil de entender, o kit pode ser distribuído em escolas e postos de saúde sem exigir estrutura cara, o que faz dele uma ferramenta de saúde pública e não apenas um trabalho de feira de ciências. A triagem precoce do autismo, nesse formato, deixa de ser privilégio de quem mora perto de um grande centro.
Feito por três estudantes de escola pública do sertão sergipano
Por trás do Capta estão três jovens do 3º ano do Ensino Médio: Taislaine Alves de Gois, Ana Karla Gois da Silva e Luana de Oliveira Santos. As três estudam no Centro de Excelência 28 de Janeiro, uma escola pública de Monte Alegre de Sergipe, e tiveram orientação dos professores Lark Soany Santos e Edson de Jesus Oliveira. Não é um laboratório milionário, é a rede estadual de ensino.
O detalhe que dá força à história é o contexto. As autoras não escolheram um tema distante: elas olharam para a própria região, marcada por comunidades vulneráveis e por longas distâncias até um serviço de saúde especializado. A escolha de atacar a triagem precoce do autismo nesse cenário mostra que a ciência feita na escola pública pode nascer do problema real que está na porta de casa.
Esse é o tipo de projeto que quebra um preconceito. Mostra que estudantes de escola pública do interior do Nordeste, com poucos recursos, conseguem desenvolver uma solução de saúde pública que muita instituição grande não desenvolveu. O mérito não é só científico, é também social, porque mira justamente quem o sistema costuma deixar para trás.
Da feira de ciências para o plano de saúde da cidade
Premiado não é sinônimo de aplicado, mas o Capta conseguiu as duas coisas. Na FEBRACE 2026, o projeto conquistou o primeiro lugar na categoria Ciências Humanas, um dos pontos altos da maior feira de ciências do Brasil, de acordo com a FEBRACE. Mais do que o troféu, o que impressiona é o que veio depois da feira.
O kit foi testado em três municípios e acabou incorporado ao plano municipal de saúde de Monte Alegre, ampliando o acesso à identificação precoce do autismo na rede, conforme a FEBRACE. Ou seja, saiu da bancada da feira de ciências e entrou na engrenagem real da saúde pública, atendendo gente de verdade nas comunidades vulneráveis que inspiraram o trabalho.
Esse salto é raro. Muitos projetos de feira de ciências brilham no palco e depois somem na gaveta, mas o Capta virou política pública municipal. Para as comunidades vulneráveis da região, isso significa que a triagem precoce do autismo deixou de ser uma promessa de estudante e passou a ser um serviço que existe de fato.
Por que detectar o autismo cedo muda a vida da criança
Para quem chega agora ao tema, vale entender o que está em jogo. O autismo não tem cura, mas a triagem precoce do autismo e o acompanhamento que vem depois fazem enorme diferença no desenvolvimento da criança. Quanto antes os sinais são percebidos, mais cedo começam as terapias que ajudam na fala, na interação e na autonomia.
O problema é o acesso. Em comunidades vulneráveis, faltam médicos, faltam especialistas e falta informação, e a criança pode chegar à idade escolar sem nunca ter passado por uma avaliação. É exatamente esse vácuo que um material simples de escola pública tenta preencher, levando conhecimento de saúde para quem está na linha de frente do cuidado.
Quando uma professora ou um agente comunitário aprende a reconhecer os sinais, a fila invisível diminui. A saúde pública ganha um filtro humano e barato que aponta quais crianças precisam de atenção, antes que o tempo precioso do desenvolvimento se perca. É por isso que um kit de cartilhas pode valer tanto quanto um equipamento caro.
O ano em que o Brasil brilhou na maior feira de ciências do mundo
O Capta surgiu num momento de ouro para a ciência feita por jovens brasileiros. A delegação selecionada pela FEBRACE conquistou 8 prêmios na Regeneron ISEF 2026, a maior feira de ciências pré-universitária do mundo, realizada entre 9 e 15 de maio em Phoenix, nos Estados Unidos, segundo a FEBRACE. Foram 14 estudantes representando o país, com seis prêmios na cerimônia principal e dois nas premiações especiais.
Os reconhecimentos vieram de várias regiões. Projetos como o MeMO, de Manaus, o AnisGuard, de Vitória da Conquista, o Sustainpoly, de Cascavel, e o Safeskies, de São Paulo, estiveram entre os premiados na feira de ciências internacional. Cada um atacou um problema concreto, da saúde ao meio ambiente, no mesmo espírito que move o Capta.
É importante registrar com honestidade que o Capta não integrou essa delegação que viajou aos Estados Unidos, já que brilhou na etapa brasileira. Ainda assim, ele faz parte do mesmo movimento. “Os resultados refletem uma geração de jovens que não apenas compreende os problemas do mundo atual, mas propõe soluções consistentes”, afirmou Roseli de Deus Lopes, coordenadora geral da FEBRACE. O kit de triagem precoce do autismo é, talvez, o exemplo mais nobre dessa geração: ciência de escola pública virando saúde pública para quem mais precisa.
O Capta prova que inovação de verdade não é a mais cara, e sim a que resolve o problema de quem é esquecido. Três estudantes de escola pública de Sergipe pegaram um drama silencioso das comunidades vulneráveis, a falta de triagem precoce do autismo, e responderam com um kit barato que já é política de saúde pública na cidade delas. E fizeram isso no ano em que o Brasil mostrou ao mundo, na maior feira de ciências do planeta, do que a juventude do país é capaz.
E você, conhece alguma criança que cresceu sem acesso a diagnóstico por falta de médico na região? Conta nos comentários o que achou da ideia dessas estudantes.

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