Travessia de longo curso une paisagens da Serra da Ibiapaba, conecta unidades de conservação e comunidades, e oferece percurso estruturado com diferentes níveis de dificuldade.
A nova travessia Caminhos da Ibiapaba liga Ceará e Piauí em um percurso oficial de 180 quilômetros, conectando áreas protegidas e comunidades da Serra da Ibiapaba e do entorno, com trechos que atravessam Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado.
Estruturada como trilha de longo curso, a rota foi dividida em 13 trechos com níveis distintos de dificuldade e pode ser feita de forma integral, em cerca de sete dias, ou em segmentos, com possibilidade de alternar caminhada e bicicleta em pontos específicos.
Ao longo do caminho, o traçado integra o Parque Nacional de Ubajara, o Parque Nacional de Sete Cidades e a Área de Proteção Ambiental Serra da Ibiapaba, criando uma ligação contínua entre unidades de conservação que antes funcionavam de forma mais isolada.
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Caminhos da Ibiapaba e a conexão de três biomas
Nos trechos mais altos da serra, o caminhante encontra mata mais fechada, brisa constante e áreas úmidas que contrastam com o entorno semiárido, em um cenário de mirantes, quedas d’água e trilhas sombreadas que marcam o início do percurso.
Mais adiante, a transição para a Caatinga se acentua na paisagem e no solo, com vegetação adaptada à estiagem e longos trechos abertos, enquanto pontos de apoio comunitário aparecem como opção de pernoite e abastecimento para quem segue a travessia.
Já na chegada ao Parque Nacional de Sete Cidades, a cobertura vegetal volta a mudar, com formações rochosas que se destacam em meio ao verde e áreas de contato de ecossistemas, reforçando o caráter de conectividade que orienta a implantação da trilha.
Parque Nacional de Ubajara, gruta e cachoeiras no trajeto

Um dos pontos mais conhecidos do trecho cearense é a Gruta de Ubajara, considerada o principal patrimônio espeleológico do estado, formada em rochas calcárias e com 1.120 metros de extensão mapeada, dos quais cerca de 450 metros ficam abertos à visitação.
A dinâmica de visitação na gruta e nas trilhas do parque é tratada como parte do planejamento do uso público, já que o percurso integra o conjunto maior dos Caminhos da Ibiapaba e demanda atenção a regras de segurança e conservação em área protegida.
Entre mirantes e vales, a travessia também passa por propriedades rurais e pequenos empreendimentos que fornecem comida, água e descanso, formando uma rede de serviços que acompanha o avanço do trajeto em direção à divisa estadual.
Comboieiros, cultura local e turismo de base comunitária
Além dos atrativos naturais, a trilha foi implantada sobre caminhos associados ao comércio regional feito por comboieiros, que atravessavam a serra para transportar produtos entre Ceará, Piauí e Maranhão, em deslocamentos longos que marcaram a ocupação local.
Nesse contexto, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima descreve a rota como uma travessia que combina natureza e cultura, citando a retomada desses caminhos históricos como parte do desenho do produto turístico e do vínculo com as comunidades.
Para o diretor de Áreas Protegidas do ministério, Pedro da Cunha e Menezes, o percurso já nasce estruturado e com sinalização completa, e “é uma travessia completa, com elementos naturais, culturais e possibilidades diversas de uso“.
Parque Nacional de Sete Cidades, formações rochosas e pinturas rupestres
No Piauí, o Parque Nacional de Sete Cidades reúne formações rochosas que, pela disposição, lembram “pequenas cidades”, característica que motivou o nome da unidade, criada em 8 de junho de 1961 e administrada pelo ICMBio.
A área também concentra registros de arte rupestre, com pinturas estimadas em cerca de 6 mil anos, citadas em materiais institucionais do parque, e que se somam aos mirantes e trilhas internas como parte da experiência do visitante.
A presença de sítios com gravuras na região de São João da Fronteira, conhecida localmente como “Pés de Ema”, aparece em registros públicos e relatos locais, embora a formalização e o detalhamento oficial do cadastro variem conforme as etapas de reconhecimento.
RedeTrilhas, sinalização e conectividade de paisagens
Os Caminhos da Ibiapaba integram o conjunto de 22 percursos homologados pela Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade, iniciativa coordenada pelo MMA e pelo ICMBio, com parceria do Ministério do Turismo.
A lógica por trás da implantação é ligar unidades de conservação por meio de corredores e rotas sinalizadas, ampliando o uso público e a conectividade da paisagem, ao mesmo tempo em que se cria uma estrutura de visitação que reduz improviso no deslocamento.
No planejamento do projeto, o Funbio registra que a implementação precisou lidar com áreas privadas no entorno das unidades, e a coordenação do trabalho destaca que a geração de valor social e econômico foi decisiva para reduzir resistências e viabilizar o traçado.
Financiamento do projeto e novas trilhas em outros biomas

O desenvolvimento da trilha foi conduzido pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), com apoio do programa GEF Terrestre, sob coordenação técnica do MMA, execução do Funbio e participação do BID como agência implementadora.
Na chamada pública do GEF Terrestre voltada a trilhas de longo curso, o Funbio informa valor total de R$ 1,6 milhão para seleção de projetos na Caatinga, no Pampa e no Pantanal, incluindo a estruturação e sustentabilidade dos Caminhos da Ibiapaba.
Enquanto o Nordeste passa a contar com o primeiro trajeto de longo curso a cruzar a Caatinga, o próprio programa aponta outras duas rotas em fase final, uma no Pantanal e outra no Pampa, dentro da mesma estratégia de ampliação da malha.
Reconhecimento internacional e disputa por destinos de caminhada
No cenário global, a União Internacional para a Conservação da Natureza aprovou em 9 de outubro de 2025 uma moção que reconhece trilhas como ferramenta de conservação, iniciativa apresentada pelo Brasil com base na experiência da Rede Brasileira de Trilhas.
Com a chegada da nova travessia, a política pública tenta responder a um mercado crescente de caminhadas de vários dias, ao mesmo tempo em que organiza regras, sinalização e serviços locais, para transformar percurso em destino e não apenas em aventura pontual.
Se a Serra da Ibiapaba agora ganha um caminho sinalizado que combina três biomas e patrimônio cultural, o que falta para outras rotas brasileiras alcançarem o mesmo nível de estrutura e atrair caminhantes que hoje buscam experiências semelhantes fora do país?


Sou Fco. Fortes Filho,tenho 64 anos e sou testemunha desta época. Era criança no início da década de 1970 e meu pai, o saudoso Fco. Fortes de Carvalho-(Chico Doca), tinha um comércio na localidade Boa Vista dos Cariocas-Esperantina-PI.
Esta localidade é o ponto mais próx entre a serra da Ibiapaba, o Piaui e o Maranhão.
Lembro que tinha um senhor conhecido como Didi, era um dos comboeiros que vendia cachaça serrana. O mesmo era da cidade de Mocambo, que fica próx de Ubajara. O mesmo vendia a cachaça p/ meu pai e seguia viagem para o Maranhão. Ele fazia esta rota sistematicamente. Esta rota tbm era usada pelos ciganos que sempre usavam esta mesma rota.
Muito bom, gostaria de saber a melhor época para fazer a travessia.