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Estação McMurdo na Antártica funciona como cidade de 1.200 pessoas a -50°C com usina dessalinizadora produzindo 170 mil litros de água por dia, bombeiros, central telefônica, rádio FM e até 2 caixas eletrônicos operando 24 horas no lugar mais isolado da Terra onde aviões só pousam 4 meses por ano

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 10/03/2026 às 17:14
Assista o vídeoEstação McMurdo na Antártica funciona como cidade de 1.200 pessoas a -50°C com usina dessalinizadora produzindo 170 mil litros de água por dia, bombeiros, central telefônica, rádio FM e até 2 caixas eletrônicos operando 24 horas no lugar mais isolado da Terra onde aviões só pousam 4 meses por ano
Foto: Eli Duke/wikipedia
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Na Antártica, a Estação McMurdo abriga até 1.200 pessoas a −50 °C, com dessalinização, rádio FM, bombeiros e até caixas eletrônicos no lugar mais isolado da Terra.

A Estação McMurdo não foi construída — foi acampada. Em dezembro de 1955, a Marinha dos Estados Unidos desembarcou na Península de Hut Point, na Ilha Ross, e montou as primeiras tendas no que viria a ser a maior comunidade da Antártica. Setenta anos depois, McMurdo é uma cidade completa. Tem endereço postal. Tem corpo de bombeiros profissional. Tem dois bancos. Tem três aeroportos. Tem delegacia. Tem hospital. Tem capela. Tem rádio FM. Tem festival de música. Tem correio. Tem reciclagem de lixo. E tem 146 prédios espalhados por 2,6 quilômetros quadrados de rocha vulcânica no ponto navegável mais ao sul do planeta.

A diferença? Lá fora, a temperatura pode cair a -50°C. O vento sopra a 100 km/h. O sol desaparece por quatro meses seguidos. E o aeroporto mais próximo fica a 3.864 quilômetros de distância, em Christchurch, Nova Zelândia.

De 1.200 pessoas no verão a 150 no inverno polar

McMurdo vive dois calendários distintos. De outubro a fevereiro, durante o verão austral, a população explode para 1.200 a 1.400 residentes. Cientistas, técnicos, cozinheiros, mecânicos, bombeiros, operadores de rádio, médicos, eletricistas. A estação ferve. Em fevereiro, os últimos voos partem. A temperatura despenca. As primeiras trevas chegam. E a população encolhe para 150 a 200 pessoas — os que ficam para passar o inverno polar.

Esses 150 não hibernam. Eles mantêm a cidade funcionando. Operam a usina de energia. Tratam a água. Monitoram os geradores diesel. Removem neve. Consertam equipamentos. Garantem que, quando o sol voltar em agosto e os cientistas retornarem em outubro, tudo esteja pronto.

A estação funciona no horário da Nova Zelândia (UTC+12) porque todos os voos partem de Christchurch. Durante a noite polar — de abril a agosto — praticamente não há voos. Nenhum avião pousa. Nenhum navio chega. McMurdo fica isolada do mundo.

170 mil litros de água dessalinizada por dia — do oceano para a torneira

A Antártica é o continente mais seco do planeta. É tecnicamente um deserto. Não neva tanto quanto se imagina. E derreter neve consumiria energia demais. A solução? O oceano. McMurdo bombeia água do mar de McMurdo Sound, a cerca de 800 metros da estação, e a transforma em água potável usando osmose reversa. O processo funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.

Primeiro, a água do mar — que está a -2°C — é aquecida até 3°C usando calor residual da usina de energia. Depois, passa por filtros de areia para remover sedimentos. Em seguida, é pressurizada a mais de 700 libras por polegada quadrada e forçada através de membranas microscópicas. O sal fica retido. A água limpa passa.

O resultado? Cerca de 170 mil litros de água potável por dia — suficiente para 1.200 pessoas. Cada pessoa consome em média 227 litros diários. Parece muito, mas inclui cozinha, lavanderia, laboratórios científicos, hospitais, limpeza de equipamentos e combate a incêndios.

A água é armazenada em quatro tanques de 190 mil litros cada e distribuída por tubulações suspensas acima do solo — enterrar canos congelaria tudo. No inverno, quando a população cai para 150 pessoas, o consumo despenca para 30 a 45 mil litros por dia. Apenas uma das três máquinas de dessalinização opera.

Bombeiros profissionais — os únicos de tempo integral na Antártica

McMurdo tem o único corpo de bombeiros profissional em tempo integral de toda a Antártica. São cerca de 55 bombeiros durante o verão, operando em duas estações: Estação 1 no centro de McMurdo e Estação 2 no aeroporto internacional.

A Estação 1 tem dois caminhões de bombeiros, um caminhão-tanque, uma ambulância, um veículo de resgate e um SCAT (veículo de ataque autônomo). A Estação 2, que atende os três aeroportos da estação, tem sete veículos ARFF (resgate e combate a incêndios em aeronaves), todos com esteiras para neve profunda.

Por que bombeiros são tão críticos na Antártica? Porque um incêndio pode matar todo mundo. Abrigo é sobrevivência. Perder um prédio pode significar perder capacidade de aquecimento, energia, água ou alimentos. E não há ajuda externa chegando rápido — especialmente no inverno.

O corpo de bombeiros também atende emergências médicas, vazamentos de materiais perigosos, investigações de odor suspeito, emergências de mergulho e — sim — remoção de focas e pinguins das pistas de pouso quando aviões estão chegando. Tempo de resposta exigido: dois minutos para qualquer incidente em qualquer ponto da estação.

Dois caixas eletrônicos — os únicos da Antártica

McMurdo tem dois caixas eletrônicos ATM, operados por Wells Fargo. São os únicos caixas automáticos de todo o continente antártico. Não há bancos físicos. Não há agências. Apenas os dois ATMs, que funcionam 24 horas por dia e permitem saques em dólares americanos. O dinheiro vem nos voos de reabastecimento.

Por que caixas eletrônicos na Antártica? Porque McMurdo tem lojas, bares, correio e serviços pagos. E porque, tecnicamente, é solo dos EUA sob jurisdição do Programa Antártico Americano — então sistemas bancários americanos funcionam.

Rádio FM, TV a cabo e 20 mil discos de vinil

McMurdo tem três estações de rádio FM e vários canais de TV a cabo. A principal é a Ice Radio 104.5 FM, operada inteiramente por voluntários da estação. Transmite com 50 watts — suficiente para cobrir 10 quilômetros. A programação é ao vivo, feita por moradores que se revezam como DJs.

A segunda estação, 93.9 FM, retransmite a programação da American Forces Network (AFN) via satélite. A terceira, 88.7 FM, é uma estação pirata de baixa potência que só alcança McMurdo. A estação de rádio abriga uma das maiores coleções de discos de vinil ainda supervisionadas pelo governo dos EUA: entre 12 mil e 20 mil LPs. Parte da coleção veio da antiga estação da AFRTS em Saigon, no Vietnã, e inclui rock, pop, rap, jazz, clássico — de tudo.

Estação McMurdo na Antártica funciona como cidade de 1.200 pessoas a -50°C com usina dessalinizadora produzindo 170 mil litros de água por dia, bombeiros, central telefônica, rádio FM e até 2 caixas eletrônicos operando 24 horas no lugar mais isolado da Terra onde aviões só pousam 4 meses por ano
Foto: Eli Duke/wikipedia

Todo ano, no Natal, as estações de McMurdo e do Polo Sul cantam canções natalinas ao vivo via rádio HF na frequência 7.995 kHz, transmitindo para acampamentos remotos espalhados pelo continente. A TV a cabo tem canais da AFN e do Navy Motion Picture Service, além de canais informativos com alertas de emergência, clima em tempo real, informações de voos e cardápio do refeitório.

Capela, correio, ginásios e até um festival de música

A Capela of the Snows é uma capela inter-religiosa que oferece serviços protestantes, católicos e eventos seculares. A capela atual foi inaugurada em 1989, depois que a anterior queimou em 1978. Uma capela temporária montada em um Quonset queimou também em 1991.

O correio de McMurdo, localizado no prédio 140 (Movement Control Center), oferece todos os serviços regulares: selos, envio de cartas e pacotes. Aceita apenas cartões de crédito e débito. Correspondências para a Estação do Polo Sul também passam por McMurdo.

A estação tem três ginásios: um de basquete, um de musculação e um aeróbico. Tem biblioteca. Tem loja geral. Tem dois bares. Tem coffee house. Tem boliche antiquado com pinos montados manualmente. E todo ano, por volta do Ano Novo, McMurdo sedia o Icestock — o festival de música mais ao sul do mundo — com apresentações de moradores da estação e da vizinha Base Scott, da Nova Zelândia, que fica a apenas 3 km de distância.

Três aeroportos operando em gelo, neve e prateleira de gelo

McMurdo tem três aeroportos, todos construídos sobre gelo ou neve compactada. Juntos formam o maior e mais movimentado complexo aeroportuário da Antártica. O Sea Ice Runway opera de setembro a novembro sobre o gelo marinho sazonal de McMurdo Sound. Acomoda todos os tipos de aeronaves, incluindo o C-17 Globemaster, mas a capacidade de peso depende da espessura do gelo.

O Williams Field opera de novembro a fevereiro e aceita apenas aeronaves equipadas com esquis, como os LC-130 Hercules da Força Aérea dos EUA. O Pegasus Ice Runway, construído sobre a plataforma de gelo de McMurdo, pode operar o ano todo, mas normalmente funciona de dezembro a março. Aceita todos os tipos de aeronaves. A estação também tem um heliporto em solo rochoso na borda da cidade.

Usina de energia diesel e turbinas eólicas compartilhadas com a Nova Zelândia

McMurdo é alimentada por seis geradores diesel que podem produzir 900 kilowatts cada, mas o número de geradores em operação varia conforme a população da estação. De 1961 a 1972, McMurdo foi alimentada por um reator nuclear PM-3A, que gerava 1,8 megawatts e também produzia vapor para a usina de dessalinização — cerca de 53 mil litros de água por dia.

O reator foi desativado em 1972 devido a problemas de segurança (rachaduras e vazamentos). Foi substituído por geradores diesel convencionais, mais confiáveis e mais baratos de operar. Em 2010, três turbinas eólicas Enercon E-33 (330 kW cada) foram instaladas em Crater Hill, a cerca de 1 km de McMurdo. As turbinas geram cerca de 990 kW no total e são compartilhadas com a Base Scott da Nova Zelândia.

Juntas, economizam 463 mil litros de diesel por ano — uma redução de 11% no consumo de combustível. O calor residual dos geradores aquece os prédios de McMurdo e fornece energia para a usina de dessalinização.

Tratamento completo de esgoto — nada vai para o oceano sem processar

Até os anos 1980, McMurdo despejava esgoto bruto direto no oceano. Isso acabou. Hoje, toda a água residual — banheiros, pias, chuveiros, lavanderia, laboratórios — vai para a estação de tratamento de esgoto. O sistema processa cerca de 170 mil litros de esgoto por dia no verão e 30 a 45 mil litros no inverno.

O tratamento usa bactérias e microorganismos para decompor matéria orgânica. Os sólidos são removidos, prensados em “bolos” e embalados em caixas revestidas de plástico. Tudo é enviado de volta aos Estados Unidos para descarte. A água tratada — agora limpa — é descarregada no oceano. Pesquisadores monitoram constantemente a qualidade da água para garantir que não haja contaminação.

McMurdo recicla até 70% de todo o lixo gerado no continente. Há separação para plástico, alumínio, papel, papelão, vidro, metal leve, metal pesado, roupas inutilizáveis, restos de comida e madeira. Tudo que não pode ser reciclado localmente é enviado de volta aos EUA.

Estufa hidropônica — vegetais frescos cultivados sob luz artificial

De 1989 a 2011, McMurdo operou a maior estufa da Antártica. Começou com 50 metros quadrados e expandiu para 66 metros quadrados em 1994. As plantas eram cultivadas hidroponicamente — usando água em vez de solo. A estufa produzia cerca de 100 kg de vegetais por mês no pico de produção: alface, espinafre, rúcula, acelga, tomates, pimentões, pepinos e ervas.

Era o suficiente para dar uma salada por semana para a equipe de inverno, mas limitado para a população de verão. A estufa tinha painéis de vidro inicialmente, mas foi transferida para ambientes fechados porque era mais eficiente energeticamente no inverno. As pessoas adoravam estar perto das plantas. Muitos levavam uma garrafa de vinho e o jantar para comer lá dentro.

11 milhões de quilos de suprimentos chegam uma vez por ano

Todo ano, como parte da Operação Deep Freeze, navios de carga entregam 8 milhões de galões (30 milhões de litros) de combustível e 11 milhões de libras (5 milhões de kg) de suprimentos e equipamentos para McMurdo. Os navios são operados pelo Military Sealift Command dos EUA, mas tripulados por marinheiros civis. A carga varia: correspondência, materiais de construção, caminhões, tratores, comida seca e congelada, instrumentos científicos.

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Os quebra-gelos da Guarda Costeira dos EUA abrem um canal através do gelo marinho de McMurdo Sound para que os navios de suprimento alcancem Winter Quarters Bay, o porto de McMurdo. Suprimentos adicionais e pessoal chegam via voos de Christchurch, Nova Zelândia, quando o clima permite.

Centro científico de classe mundial — o verdadeiro motivo de tudo isso existir

A estação não existe para ser cidade. Existe para ser ciência. O Albert P. Crary Science and Engineering Center é o coração da operação. Laboratórios de biologia, geologia, glaciologia, oceanografia, astrofísica. Aquário de água salgada. Equipamentos de última geração.

Pesquisadores estudam mudanças climáticas através de núcleos de gelo. Monitoram vulcões ativos como o Monte Erebus, a 40 km de distância. Investigam ecossistemas marinhos em condições extremas. Coletam meteoritos — mais fáceis de encontrar contra o gelo branco. Estudam física atmosférica e raios cósmicos.

McMurdo também funciona como base logística para a Estação Amundsen-Scott no Polo Sul, a 1.360 km ao sul. Tudo que vai para o Polo Sul passa primeiro por McMurdo — por avião ou pela Travessia McMurdo-Polo Sul, uma estrada de gelo e neve que precisa ser limpa todo ano.

O lugar mais isolado onde humanos vivem permanentemente

McMurdo fica a 3.864 km de Christchurch, Nova Zelândia — aproximadamente a mesma distância entre Nova York e Los Angeles, ou entre Los Angeles e Havaí. No inverno, quando o sol desaparece de abril a setembro, não há voos. Não há navios. Não há evacuação médica rápida. Se algo der errado, você está sozinho com 150 pessoas até agosto.

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A temperatura média anual é -18°C. Já registrou -50°C no inverno e +8°C no verão. A neve acumula até 1,5 metro por ano. O vento pode ultrapassar 100 km/h. Não há ursos polares. Não há predadores terrestres. A vida selvagem local inclui pinguins Adelie, focas Weddell e skuas — aves marinhas que patrulham o céu roubando comida.

E no entanto, McMurdo funciona. Dessaliniza água. Gera energia. Trata esgoto. Recicla lixo. Apaga incêndios. Transmite rádio FM. Oferece caixas eletrônicos. Celebra Natal. Faz ciência de classe mundial. É a prova de que, se você construir infraestrutura suficiente, humanos conseguem viver em qualquer lugar — até no fim do mundo.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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