Três sistemas com capacidade conjunta de 120,34 MWh serão instalados em parques fotovoltaicos de duas regiões espanholas, com operação prevista até o fim de 2027.
A Espanha começou a construir três grandes sistemas de baterias capazes de armazenar 120,34 megawatts-hora (MWh) de eletricidade produzida por usinas solares. O empreendimento, desenvolvido pelas empresas Masdar e Endesa, representa um investimento de € 25,2 milhões e utilizará uma tecnologia que permite às baterias participar diretamente da estabilização da rede elétrica. As instalações estão localizadas nas regiões de Extremadura e Andaluzia, no sul e oeste do país.
O início do projeto foi anunciado pela Masdar em 5 de novembro de 2026 e confirmado pela Endesa, que divulgou informações sobre as obras no dia 4. Os três sistemas somarão 60,16 megawatts (MW) de potência e deverão entrar em operação até o final de 2027.
Três usinas solares receberão 20 contêineres de baterias na Espanha

O investimento será distribuído entre três projetos instalados ao lado de parques fotovoltaicos que já produzem eletricidade.
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O maior deles é o Ardila, localizado em Fregenal de la Sierra, na província de Badajoz, em Extremadura. A instalação será integrada a uma usina solar de 44 megawatts-pico (MWp) operada pela Endesa.
O sistema terá 36,10 MW de potência e capacidade para armazenar 72,20 MWh de eletricidade. Serão utilizados 12 contêineres de baterias.
Segundo as empresas, esse volume corresponde aproximadamente ao consumo diário de 8.100 residências espanholas, considerando a referência adotada para o projeto.
Os outros dois empreendimentos, La Vega I e La Vega II, ficam no município de Teba, na província de Málaga, na Andaluzia.
Cada instalação terá 12,03 MW de potência e 24,07 MWh de armazenamento, distribuídos em quatro contêineres por projeto.
Juntos, os dois sistemas poderão guardar um volume de energia equivalente ao consumo diário aproximado de 5.400 residências espanholas.
As três instalações terão, portanto, 20 contêineres e capacidade energética conjunta equivalente ao consumo diário de cerca de 13.500 residências, segundo as estimativas divulgadas pelas companhias.
Baterias permitirão armazenar eletricidade solar para utilização em outros horários
O funcionamento das novas instalações está associado a uma dificuldade operacional da geração fotovoltaica: a energia solar não é produzida continuamente ao longo do dia.
A geração tende a se concentrar nas horas de maior radiação, mas o consumo de eletricidade pode permanecer elevado no início da noite, quando os painéis já deixaram de produzir.
Com os sistemas de armazenamento, parte da eletricidade gerada poderá ser acumulada e posteriormente disponibilizada à rede, conforme as condições de operação e as necessidades do sistema elétrico.
As baterias também permitirão administrar variações rápidas entre geração e consumo, reduzindo a dependência de respostas exclusivamente fornecidas por outras unidades geradoras.
Os equipamentos terão aproximadamente duas horas de duração nominal quando descarregados à potência máxima, considerando a relação entre capacidade energética e potência informada pelas empresas.
Isso não significa que conseguirão abastecer uma cidade inteira durante esse período. A quantidade efetivamente fornecida dependerá da demanda, do estado de carga e das condições operacionais.
O uso de baterias em redes de grande porte já apresenta resultados em outros mercados. Uma reportagem do CPG sobre o armazenamento de energia no Texas mostrou como a expansão desses sistemas passou a apoiar o fornecimento de eletricidade durante períodos de consumo elevado nos Estados Unidos.
Na Espanha, a integração com usinas existentes permitirá utilizar parte da infraestrutura dos parques fotovoltaicos, embora a instalação das baterias ainda exija equipamentos próprios e adequações técnicas.
Tecnologia grid-forming permitirá que baterias ajudem a estabilizar a rede elétrica
O principal diferencial técnico anunciado pelas empresas está na adoção de inversores com tecnologia grid-forming.
Os inversores são equipamentos eletrônicos responsáveis por converter a corrente contínua armazenada nas baterias em corrente alternada, utilizada no sistema elétrico.
Em sistemas convencionais conectados à rede, esses equipamentos normalmente acompanham as condições de tensão e frequência existentes.
Já os inversores grid-forming podem estabelecer e controlar referências elétricas, contribuindo para manter a estabilidade em determinadas situações de operação.
A tecnologia também permite fornecer uma resposta semelhante à inércia de geradores convencionais, conhecida como inércia sintética.
Em usinas termelétricas e hidrelétricas equipadas com grandes máquinas rotativas, a energia mecânica acumulada nos equipamentos ajuda a amortecer determinadas mudanças rápidas na frequência elétrica.
Baterias não possuem esse mesmo comportamento mecânico, mas podem utilizar controles eletrônicos para responder rapidamente às alterações do sistema.
Segundo a Masdar, os equipamentos escolhidos para os projetos espanhóis poderão atuar quase instantaneamente diante de mudanças nas condições da rede.
As instalações utilizarão baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP), tecnologia empregada em aplicações de armazenamento estacionário.
O desempenho dos inversores será avaliado em colaboração com o centro tecnológico CIRCE e o Instituto de Pesquisa Tecnológica da Universidade Pontifícia Comillas, por meio de estudos e testes realizados nas próprias instalações.
Investimento terá apoio de recursos europeus e prevê 50 empregos na construção
Além da capacidade de armazenamento, os projetos envolvem financiamento público e compromissos com fornecedores europeus.
Segundo a Endesa, os empreendimentos foram contemplados por programas de apoio a sistemas inovadores de armazenamento associados à geração renovável.
A reportagem especializada da ESS News, publicada em 5 de novembro, detalhou a divisão dos investimentos.
O projeto Ardila representa € 14,3 milhões, incluindo aproximadamente € 4,6 milhões em financiamento público.
La Vega I e La Vega II somam € 10,9 milhões, dos quais € 4,4 milhões correspondem a recursos públicos, segundo as informações reunidas pelo veículo especializado.
O investimento conjunto alcança € 25,2 milhões.
A Masdar informou que a construção dos três sistemas deverá gerar aproximadamente 50 postos de trabalho.
As empresas também assumiram compromissos de utilização de componentes e serviços de origem europeia, incluindo inversores, sistemas auxiliares, comunicação e integração tecnológica.
Em Ardila, a parceria trabalhará com a prefeitura de Fregenal de la Sierra para identificar iniciativas de melhoria local. Parte dos recursos previstos será direcionada a atividades de formação.
Parceria iniciada em 2024 amplia presença da Masdar no mercado energético europeu
Os sistemas de armazenamento são os primeiros projetos desse tipo desenvolvidos no âmbito da parceria estabelecida entre Masdar e Endesa em 2024.
Na ocasião, a empresa dos Emirados Árabes Unidos adquiriu uma participação de 49% em um conjunto de ativos fotovoltaicos da companhia espanhola.
O acordo abriu espaço para ampliar a infraestrutura de geração renovável e integrar tecnologias de armazenamento aos parques existentes.
Atualmente, a Masdar informa possuir 4,1 gigawatts de capacidade operacional na Península Ibérica, além de aproximadamente 1 GW em desenvolvimento.
No mercado internacional, a empresa trabalha com a meta de alcançar 100 GW de capacidade renovável até 2030.
A expansão de sistemas de armazenamento também está relacionada ao crescimento da geração solar e eólica. Quanto maior a participação dessas fontes, maior tende a ser a necessidade de instrumentos que ajudem a administrar a variabilidade da produção.
No Brasil, o tema já integra as discussões sobre o planejamento do setor elétrico. Uma análise publicada pelo CPG sobre armazenamento de energia apresentou projeções de demanda por baterias e outras tecnologias, além das questões regulatórias que ainda precisam ser resolvidas.
Outra experiência brasileira foi apresentada em uma reportagem sobre baterias industriais instaladas em Minas Gerais, onde um sistema de 1,29 MWh passou a integrar geração solar, rede elétrica e fornecimento de emergência.
Na Espanha, as obras dos três empreendimentos estão em andamento, com a entrada em operação prevista para o final de 2027. Até lá, a instalação dos equipamentos e os testes de funcionamento deverão demonstrar como a tecnologia grid-forming se comportará nas condições reais das usinas.
