Nova ferramenta reúne dados ambientais, certificações e informações sobre a origem dos produtos para ajudar o agronegócio brasileiro a atender às exigências internacionais.
A Embrapa desenvolveu uma tecnologia capaz de rastrear soja, café e carne bovina desde a propriedade rural até o mercado consumidor. Segundo comunicado oficial da instituição, publicado em 3 de novembro de 2026, a ferramenta Embrapa Trace reúne informações sobre a origem dos produtos, práticas ambientais e certificações. Além disso, a solução busca facilitar a comprovação de conformidade exigida por compradores internacionais, especialmente diante das novas regras ambientais da União Europeia.
Como funciona a tecnologia de rastreamento da Embrapa?
A Embrapa Trace funciona como uma ferramenta digital que conecta informações de diferentes etapas da produção agropecuária.
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O processo começa no cadastro da propriedade rural. Nessa fase, os produtores informam a localização das áreas, as atividades desenvolvidas e os dados necessários para identificar a origem das mercadorias.
Depois disso, o sistema acompanha registros de produção, armazenamento, transporte e processamento.
Assim, empresas e certificadoras podem consultar informações que ajudam a verificar a procedência dos produtos.

A ferramenta também integra dados de dois sistemas brasileiros: TerraClass e ElegiAgro.
O TerraClass, desenvolvido pela Embrapa e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), acompanha mudanças na cobertura e no uso da terra na Amazônia e no Cerrado.
Já o ElegiAgro cruza informações cadastrais, fundiárias e geográficas para apoiar análises de conformidade ambiental.
Com essa integração, a Embrapa Trace reúne diferentes evidências em um relatório de conformidade, semelhante a um passaporte digital da mercadoria.
A novidade chega em um momento de crescente interesse internacional pelo agronegócio brasileiro. Em janeiro de 2026, uma empresa chinesa iniciou a busca por terras no Brasil para produzir soja, milho e algodão, evidenciando a importância estratégica do país no fornecimento mundial de alimentos.
QR Code poderá mostrar a origem dos produtos
Um dos recursos da tecnologia é a utilização de QR Codes para acessar relatórios digitais.
Por meio desses registros, os participantes da cadeia comercial poderão consultar informações relacionadas à origem e à conformidade da produção.
Entretanto, o sistema não depende apenas dos dados informados pelos agricultores.
As indústrias, cooperativas e frigoríficos também participam do processo, enquanto empresas comercializadoras registram informações sobre origem e destino.
Além disso, organismos independentes poderão verificar os registros e atestar a conformidade dos produtos.
A tecnologia estará integrada à Plataforma AgroBrasil Mais Sustentável (AB+S), do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Também poderá ser acessada por meio da AgroAPI, estrutura que permite conectar a solução a outros sistemas digitais.
Dessa forma, a Embrapa pretende reduzir a necessidade de preencher documentos semelhantes para diferentes compradores.
A rastreabilidade também ganha importância na logística de exportação. No Porto de Santos, por exemplo, a Cofco investiu US$ 285 milhões em um terminal para ampliar a movimentação de grãos, reforçando a necessidade de acompanhar grandes volumes de mercadorias ao longo da cadeia comercial.
Novas regras europeias aumentam exigências para exportadores
O desenvolvimento da Embrapa Trace também responde às mudanças nas regras internacionais de comercialização.
Entre elas está o Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR), que estabelece critérios ambientais para a entrada de determinados produtos no mercado europeu.
Segundo a Embrapa, a legislação exige comprovação de que mercadorias abrangidas pela norma não estejam associadas a áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020.
As exigências alcançam cadeias como soja, café, carne bovina, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de determinados derivados.
Conforme o cronograma informado pela instituição, grandes e médios operadores deverão atender às novas exigências a partir de 30 de dezembro de 2026.
Já os micro e pequenos operadores terão prazo até 30 de junho de 2027.
Para comprovar a conformidade, será necessário reunir informações sobre a localização das áreas produtivas, a cadeia de fornecedores e os riscos de desmatamento.
Por isso, a Embrapa considera a rastreabilidade uma ferramenta importante para reduzir dificuldades comerciais.
Entretanto, o uso da Embrapa Trace não representa aprovação automática para exportar. As empresas continuam responsáveis por cumprir as exigências legais e apresentar a documentação necessária.
Tecnologia poderá alcançar outras cadeias do agronegócio
Inicialmente, a Embrapa Trace contempla soja, café e carne bovina.
Contudo, a instituição já prevê ampliar a solução para outras atividades, incluindo cacau, madeira, borracha, frango, suínos e pescados.
A proposta também pode ajudar cooperativas a organizar registros e reduzir tarefas repetitivas.
Além disso, a integração das informações poderá oferecer maior segurança para empresas que compram produtos brasileiros.
Esse movimento acompanha a importância econômica da produção agropecuária. Em levantamento divulgado pelo CPG, a pecuária brasileira respondeu por aproximadamente R$ 397,4 bilhões do Valor Bruto da Produção em 2024, demonstrando o peso da atividade na economia nacional.
Segundo a Embrapa, a nova tecnologia também permitirá manter os dados da produção sob controle nacional, com registros digitais destinados a apoiar auditorias.
Apesar disso, a instituição não divulgou quantas propriedades já utilizam a solução nem apresentou uma estimativa de aumento nas exportações.
Por enquanto, o principal avanço está na criação de uma infraestrutura digital capaz de conectar informações agrícolas, ambientais e comerciais.
Se a adoção crescer, a Embrapa Trace poderá ajudar produtores brasileiros a comprovar a origem de suas mercadorias e enfrentar as exigências de mercados internacionais, sem depender de processos documentais separados para cada negociação.
