As baterias da rede elétrica passaram de 857 MW em 2021 para cerca de 21,7 GW em julho de 2026 no Texas. Com recordes de consumo e temperaturas acima de 38°C, o sistema combinou gás, solar e armazenamento para atender a demanda sem novos pedidos de economia aos moradores locais.
As baterias da rede elétrica assumiram um papel muito maior no sistema elétrico do Texas justamente quando o estado enfrentou um dos verões mais exigentes de sua história. Em 2026, temperaturas frequentemente superiores a 38°C coincidiram com sucessivos recordes de demanda, mas a operadora ERCOT não precisou repetir os pedidos para que consumidores reduzissem o uso de energia feitos em períodos críticos anteriores.
O contraste chama atenção porque, em agosto de 2023, durante outro verão intenso, a ERCOT chegou a solicitar economia de eletricidade seis vezes apenas na última semana do mês para tentar evitar problemas na rede. Três anos depois, a demanda estava ainda maior, mas uma combinação diferente de geração solar, gás natural e armazenamento permitiu ao sistema enfrentar os horários mais críticos.
Capacidade das baterias cresce 25 vezes em apenas cinco anos
A mudança mais expressiva ocorreu na quantidade de armazenamento disponível. Segundo dados citados pela Xataka a partir da consultoria Wood Mackenzie, o Texas tinha cerca de 857 MW de capacidade em baterias em 2021. Em julho de 2026, esse total já estava próximo de 21,7 GW.
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Isso representa uma expansão de aproximadamente 25 vezes em cinco anos. Ao mesmo tempo, a geração fotovoltaica também ganhou espaço na matriz texana. Em agosto de 2026, a energia solar produziu mais eletricidade do que o carvão pela primeira vez, segundo a fonte.
A combinação entre essas duas tecnologias é importante porque a produção solar não acompanha necessariamente os horários de maior consumo. Durante a manhã e o meio do dia, quando existe grande disponibilidade de sol, parte dessa eletricidade pode abastecer diretamente a rede enquanto outra parcela é direcionada aos sistemas de armazenamento.
As baterias ficam carregadas para entrar em cena mais tarde. Quando o sol começa a desaparecer e a produção fotovoltaica cai, a energia armazenada durante o dia é devolvida à rede, reduzindo a diferença entre geração e demanda.
Energia solar é armazenada durante o dia para enfrentar o pôr do sol
Esse funcionamento ajuda a enfrentar um problema conhecido no setor elétrico como “curva do pato”. Durante as horas de forte produção solar, a necessidade de outras fontes pode cair rapidamente. No fim da tarde, porém, a geração fotovoltaica diminui enquanto residências e empresas continuam consumindo eletricidade.
É justamente nessa transição que as baterias da rede elétrica funcionam como uma ponte. Elas absorvem parte do excedente produzido anteriormente e começam a descarregar quando a oferta solar perde força, evitando que toda a demanda seja transferida subitamente para outras fontes.
O mecanismo ganhou importância particular no Texas porque o consumo continua elevado no fim do dia, quando milhões de aparelhos de ar-condicionado permanecem ligados em meio às altas temperaturas. O armazenamento não substituiu sozinho as demais fontes, mas ajudou a distribuir melhor a oferta ao longo das horas.
O resultado é uma rede menos dependente de conseguir gerar toda a eletricidade necessária exatamente no instante em que ela será consumida. Parte da produção passa a ser deslocada no tempo, permitindo aproveitar a energia solar de algumas horas antes quando ela já não está disponível diretamente.
Texas chega a 91.308 MW de consumo e estabelece novo recorde
O maior teste ocorreu em 22 de julho de 2026. Naquele dia, o consumo de eletricidade do Texas chegou a 91.308 MW às 18h, estabelecendo um recorde histórico para a rede administrada pela ERCOT.
A demanda não foi atendida por uma única tecnologia. Conforme os dados apresentados pela fonte, o gás natural respondia por 48% da capacidade naquele momento, enquanto a energia solar contribuía com 32%. As baterias começaram a assumir progressivamente uma parcela da carga conforme a produção fotovoltaica diminuía.
Essa composição mostra por que atribuir todo o desempenho do sistema exclusivamente às baterias seria impreciso. O gás natural permaneceu como a principal sustentação naquele momento de demanda máxima, enquanto a energia solar forneceu uma parcela significativa da eletricidade necessária.
O diferencial das baterias apareceu justamente na passagem entre essas fontes, liberando a energia previamente armazenada à medida que o sol se aproximava do horizonte. Em vez de provocar uma queda abrupta na oferta solar, o armazenamento permitiu uma transição mais gradual.
Baterias chegam a descarregar 13.256 MW de uma só vez
Os recordes continuaram nas semanas seguintes. Em 13 de agosto, a geração simultânea de fontes renováveis no Texas chegou a aproximadamente 53.000 MW, mostrando a escala alcançada pela participação dessas fontes no sistema.
Dez dias depois ocorreu outro marco. Em 23 de agosto, as baterias forneceram 13.256 MW em um único instante, o maior nível de descarga já registrado na rede elétrica texana segundo os dados reunidos pela fonte.
O número ajuda a dimensionar quanto o armazenamento deixou de ser um recurso marginal. Uma infraestrutura que poucos anos antes somava menos de 1 GW de capacidade havia passado a participar diretamente dos momentos em que dezenas de gigawatts precisavam ser entregues ao sistema.
Ao mesmo tempo, o preço da eletricidade aumentou apenas 2,3% em relação ao ano anterior, mesmo em um verão marcado por novos máximos de consumo. A fonte associa esse desempenho à combinação de maior oferta solar, armazenamento e outras fontes já presentes na rede.
Mais baterias ajudam a rede, mas criam um novo desafio para o mercado
A expansão também produz um efeito econômico curioso. Operadores de baterias costumam carregar seus equipamentos quando a eletricidade está barata e vendê-la de volta à rede nos momentos em que os preços sobem devido à escassez e à alta demanda.
Quanto mais armazenamento entra no sistema, porém, menor pode se tornar a diferença entre os preços de horários baratos e caros. A própria tecnologia que reduz os picos de preço e ajuda a estabilizar a rede pode diminuir as oportunidades de lucro baseadas justamente nesses picos.
A ERCOT começou a responder a essa transformação com o mecanismo RTC+B, sigla para um modelo de otimização em tempo real que incorpora as baterias e permite remunerá-las também por serviços auxiliares prestados ao sistema elétrico.
Na prática, o mercado precisa adaptar as regras à medida que o armazenamento deixa de atuar apenas comprando energia barata e vendendo-a nos horários caros. As baterias também podem ser valorizadas por sua capacidade de responder rapidamente às necessidades da rede.
Próximo teste pode ser ainda maior com data centers e inteligência artificial
O verão de 2026 mostrou que a rede texana conseguiu enfrentar uma demanda inédita, mas isso não significa que a pressão sobre o sistema tenha terminado. A própria ERCOT trabalha com a possibilidade de o consumo de eletricidade no Texas dobrar nos próximos anos.
Entre os fatores apontados estão a expansão de data centers, o avanço da inteligência artificial, a eletrificação dos transportes e o uso crescente de ar-condicionado. Todos esses elementos podem elevar ainda mais a quantidade de energia exigida da rede em determinados horários.
O Texas também não está sozinho nessa corrida. A Califórnia ampliou sua infraestrutura por meio de políticas regulatórias, enquanto o modelo texano foi impulsionado principalmente pelo mercado. Na Europa, a capacidade acumulada de armazenamento em baterias ultrapassou 100 GWh em 2025, com Alemanha na liderança e Espanha entre os principais mercados.
A questão agora é saber se a expansão das baterias da rede elétrica conseguirá continuar no mesmo ritmo da demanda. Em apenas cinco anos, o Texas multiplicou por 25 sua capacidade, passou a armazenar grandes volumes da geração solar e atravessou um verão de recordes sem repetir os pedidos de redução de consumo de 2023.
Você acredita que baterias gigantes ligadas à rede podem se tornar uma das principais soluções para evitar apagões em períodos de calor e consumo extremo, ou os países ainda precisarão ampliar fortemente outras fontes de geração? Conte nos comentários como você vê esse novo papel do armazenamento de energia.
