Com 20 minutos de conversa no início das aulas, a Escola Municipal GET IV Centenário, na Maré, alcançou 97% de alfabetização na idade adequada, zerou o abandono escolar e pode ver sua metodologia incorporada por 350 escolas municipais do Rio após virar finalista de prêmio internacional de educação em 2026
A alfabetização virou um dos principais resultados de uma mudança simples, mas profunda, adotada pela Escola Municipal GET IV Centenário, localizada na Maré, zona norte do Rio de Janeiro. A unidade passou a reservar os primeiros 20 minutos do dia para ouvir crianças após operações policiais e alcançou 97% de estudantes alfabetizados na idade adequada.
O caso ganhou projeção nacional em 25 de junho de 2026, quando a Agência Brasil informou que a escola está entre as finalistas do Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2026, na categoria Superação de Adversidade. Segundo a Prefeitura do Rio de Janeiro, a metodologia poderá ser incorporada por outras 350 unidades da rede municipal.
Escola da Maré foi reconhecida em prêmio internacional de educação
A Escola Municipal GET IV Centenário integra o modelo de Ginásio Educacional Tecnológico e atende crianças de 6 a 11 anos. A unidade fica na Maré, um território formado por 16 favelas e marcado por disputas de grupos armados e operações policiais. Foi nesse contexto que a escola transformou acolhimento em estratégia pedagógica.
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O reconhecimento veio com a inclusão da unidade entre as dez finalistas da categoria Superação de Adversidade no World’s Best School Prizes, traduzido como Prêmio Melhores Escolas do Mundo. A premiação é promovida pela plataforma T4 Education e tem apoio da Fundação Lemann, da American Express e da Accenture.
A virada começou depois de operações policiais na região
De acordo com a reportagem da Agência Brasil, a escola percebeu a necessidade de criar um espaço de conversa depois de uma operação policial. A diretora Alessandra Aguiar relatou que os estudantes precisavam falar sobre o que viviam, sentiam e carregavam para dentro da sala de aula.
A partir dessa percepção, surgiu o Café com Música e Prosa, uma prática de acolhimento socioemocional ligada ao projeto Fábrica de Sonhos. A iniciativa passou a abrir o dia letivo com escuta, diálogo e atenção às preocupações das crianças antes do início das disciplinas tradicionais.
Vinte minutos de escuta passaram a fazer parte da rotina escolar
A proposta adotada pela escola é direta: todos os dias, antes das matérias, os primeiros 20 minutos são destinados a ouvir os estudantes. Nesse intervalo, as crianças podem falar sobre sentimentos, medos, expectativas, problemas familiares, experiências do território e sonhos para o futuro.
Esse ponto é central porque a escola não tratou a escuta como ação isolada ou evento pontual. O acolhimento virou rotina pedagógica. Em vez de esperar que a criança ignore o impacto da violência ao entrar na sala, a equipe criou um momento estruturado para reconhecer o que ela traz de casa, da rua e da comunidade.
Alfabetização avançou junto com vínculo e permanência
O resultado mais concreto informado pela fonte é expressivo: a escola zerou o abandono escolar e alcançou 97% de alfabetização na idade adequada. Em uma unidade situada em área vulnerável, esse dado mostra que permanência, vínculo e aprendizagem caminham juntos.
A diretora Alessandra Aguiar resume a lógica da metodologia ao defender que não há aprendizagem sem relação. Na prática, a escola aproximou estudantes, famílias e equipe pedagógica, criando um ambiente no qual as crianças se sentem mais seguras para permanecer, participar e aprender.
Projeto Fábrica de Sonhos coloca o estudante no centro
O Fábrica de Sonhos não se limita à conversa diária. Segundo a Agência Brasil, o projeto reúne práticas que colocam o estudante no centro do processo de aprendizagem. A tecnologia entra como ferramenta para que as crianças investiguem problemas reais da comunidade e desenvolvam soluções práticas.
Essa abordagem amplia o papel da escola. Em vez de trabalhar apenas conteúdos desconectados da vida dos alunos, a unidade usa o território como ponto de partida para desenvolver conhecimento. A criança deixa de ser vista apenas como receptora de conteúdo e passa a participar da construção das respostas.
Famílias também entram no planejamento escolar

Outro ponto destacado pela reportagem é a participação das famílias. No início do ano, responsáveis são chamados para o planejamento colaborativo, compartilham metas, apresentam projetos e definem responsabilidades junto com a escola.
Esse envolvimento ajuda a explicar por que a metodologia ultrapassa a sala de aula. A alfabetização não depende apenas do professor diante da turma, mas de um ambiente mais amplo, com confiança, presença familiar, acompanhamento e clareza sobre o papel de cada parte no desenvolvimento dos estudantes.
Maré registra histórico de violência que atravessa a escola
A Maré é descrita na fonte como uma região constantemente afetada por operações policiais e disputas entre grupos armados. Segundo o projeto De Olho na Maré, citado pela Agência Brasil, ocorreram 231 operações entre 2016 e 2025, com 160 mortes e 1.538 ações de violência registradas no período.
Esses números ajudam o leitor a entender a dimensão do desafio enfrentado pela escola. Quando uma criança vive em um território atravessado por medo, interrupções e insegurança, a aprendizagem pode ser impactada. A resposta do GET IV Centenário foi reconhecer essa realidade sem abandonar a exigência pedagógica.
Metodologia pode chegar a 350 escolas municipais do Rio
A Prefeitura do Rio de Janeiro informou que a metodologia aplicada no GET IV Centenário será incorporada em outras 350 escolas da rede municipal, com possibilidade de expansão para mais unidades. A fonte não detalha o cronograma completo de implementação, nem informa quais escolas serão contempladas primeiro.
Mesmo assim, o dado indica que a experiência da Maré deixou de ser apenas uma prática local. Se a expansão se concretizar, a rede municipal poderá testar em escala uma proposta baseada em escuta diária, participação familiar, tecnologia, vínculo e protagonismo estudantil.
Brasil teve duas escolas entre as finalistas mundiais
Além do GET IV Centenário, outra escola brasileira também foi anunciada como finalista do Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2026: a Escola Baniwa Kalipana, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Ela concorre na categoria Ação Ambiental.
A presença das duas unidades brasileiras entre as finalistas amplia o alcance da notícia, mas os modelos são diferentes. Enquanto a escola da Maré foi reconhecida pela superação de adversidades em contexto urbano vulnerável, a escola amazonense se destaca por integrar saberes tradicionais, território, gestão ambiental e conhecimentos indígenas ao currículo.
Prêmio terá votação popular e vencedores em novembro
O anúncio das finalistas ocorreu em 25 de junho de 2026. Segundo a Agência Brasil, a votação popular fica aberta pela internet até 29 de outubro, e os vencedores de cada categoria serão anunciados em novembro.
As escolas vencedoras e finalistas também serão convidadas para o World Schools Summit, em Londres, nos dias 16 e 17 de janeiro de 2027. O encontro reunirá educadores, lideranças e formuladores de políticas públicas para compartilhar experiências e práticas educacionais.
O que essa história revela sobre aprendizagem
A experiência da Escola Municipal GET IV Centenário mostra que alfabetização não é apenas uma questão de método de leitura e escrita. Em contextos de vulnerabilidade, aprender também depende de segurança emocional, escuta, vínculo e continuidade.
O caso não oferece uma fórmula automática para todas as escolas. Cada território tem desafios próprios. Mas a experiência da Maré sugere que ouvir crianças de forma estruturada, todos os dias, pode abrir caminho para melhorar presença, confiança e desempenho escolar sem ignorar a realidade fora dos muros da escola.
Uma escola que transformou escuta em resultado concreto
Ao zerar o abandono escolar, alcançar 97% de alfabetização na idade adequada e virar finalista de uma premiação internacional, o GET IV Centenário colocou a Maré no centro de uma discussão urgente sobre educação pública, violência e aprendizagem.
A pergunta que fica é simples e difícil ao mesmo tempo: se 20 minutos diários de escuta ajudaram uma escola em território vulnerável a mudar seus resultados, quantas outras unidades poderiam avançar ao tratar vínculo, família e acolhimento como parte real da aprendizagem?
Você acredita que essa metodologia deve ser expandida para mais escolas públicas? Deixe sua opinião nos comentários.
