Fundada em 2019 por Sabrina e Nubi Tatan, a Rebricks recolhe sachês e embalagens multicamadas que costumam ir para aterros ou incineradores, tritura tudo em flocos e molda tijolos de pavimentação com 20% de resíduo, suportando 250 kg/cm² em parques, pistas e estacionamentos sem perder forma, aderência e segurança comprovada.
Em Jacarta, os tijolos deixaram de ser apenas um produto de construção para virar uma resposta prática a um problema que cresce em silêncio: a circulação diária de embalagens descartáveis que, por serem “complexas demais”, acabam acumuladas em aterros, incineradores ou espalhadas por rios e praias.
A Rebricks nasce justamente nesse atrito entre consumo e descarte. Criada em 2019 por dois amigos, Sabrina e Nubi Tatan, a fábrica se propôs a fazer algo específico: pegar embalagens consideradas “impossíveis de reciclar” e transformá-las em tijolos de pavimentação que se comportem como os convencionais no uso do dia a dia.
Jacarta como ponto de partida e ponto de chegada
A operação acontece na capital indonésia, Jacarta, onde a presença de resíduos plásticos é visível nas rotinas urbanas: comida de rua, compras rápidas, itens de higiene, tudo embalado em porções pequenas, com muito invólucro e pouca chance de retorno ao ciclo produtivo.
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Foi ali que os fundadores começaram de forma bem direta, visitando barracas e comércios locais para coletar descartáveis como sachês de café instantâneo, embalagens de macarrão seco, pacotes variados e sacolas. A coleta não era um detalhe logístico; era o coração da ideia, porque o objetivo não era competir com a reciclagem “fácil”, e sim atacar o resíduo que costuma sobrar.
O que torna essas embalagens tão difíceis de reciclar

O foco da Rebricks recai sobre o plástico multicamadas, aquele material usado para embalar desde café e lanches até detergente, xampu de uso único e sabonete líquido. Esses pacotes vazios não são feitos de um único tipo de material: eles combinam camadas de diferentes plásticos e, frequentemente, folha de alumínio.
Na prática, isso cria um impasse industrial. Separar camadas tão finas e diferentes exige processos que quase nunca compensam, então o caminho mais comum vira descarte: aterro, incineração ou vazamento para o ambiente. O “impossível de reciclar” aqui não é força de expressão; é um atalho que o sistema toma quando separar custa mais do que descartar.
Do saco vazio ao floco: como o resíduo vira tijolos

Antes de chegar aos tijolos, existe uma etapa que determina a consistência do produto final: o plástico precisa ser reduzido e uniformizado.
Na Rebricks, esse lixo plástico é primeiro decomposto em flocos minúsculos, o que facilita misturar um resíduo irregular com materiais de construção de comportamento mais previsível.
Depois, esses flocos entram na fórmula com cimento e areia, e o conjunto é moldado em blocos. Visualmente, podem parecer tijolos convencionais, mas o interior denuncia a origem: o tijolo fica “pontilhado” de flocos de plástico. O ponto central é que essa presença não é decorativa: ela é uma fração planejada do composto.
Quanto plástico entra, quanta força sai: o que os números indicam
Os blocos produzidos carregam um dado bem objetivo: 20% do conteúdo é resíduo plástico. Essa proporção não elimina a necessidade do cimento e da areia, mas muda o destino de um material que, do contrário, seguiria para descarte definitivo.
A resistência informada também se conecta a uma referência local: os tijolos suportam 250 kg por centímetro quadrado, valor descrito como norma indonésia para tijolos de pavimentação.
Isso ajuda a entender por que a aplicação citada é o “chão” urbano estacionamentos, pavimentos, parques e até pistas de corrida, onde o que importa é aguentar carga, atrito, tempo e calor. A promessa técnica não é leveza; é permanência.
Escala, rotina e o que ainda está sendo testado
Até agora, a empresa já produziu mais de 100 mil tijolos, um número que aponta para algo além de protótipo. Também há uma dimensão diária no fluxo de entrada de material: graças a uma campanha viral nas redes sociais, passaram a chegar embalagens de doadores de várias partes do país, e o resíduo entra continuamente na fábrica.
Em “um dia qualquer”, a operação é descrita como capaz de impedir que quase 88 mil peças de embalagens plásticas acabem poluindo o ambiente.
Esse tipo de dado costuma ser o mais difícil de visualizar, porque não aparece como uma única montanha de lixo: ele se espalha, some nos bueiros, volta na beira do rio e reaparece no mar. Quando a conta vira “peças por dia”, o problema deixa de ser abstrato.
Para além do piso: tijolos ocos e novas funções na construção
Depois de consolidar os tijolos de pavimentação, a Rebricks passou a explorar outra possibilidade: transformar resíduos em tijolos ocos, usados como elementos de construção em revestimentos e paredes internas.
Essa etapa é relevante porque muda o tipo de exigência técnica. Pavimento pede resistência e durabilidade sob carga e atrito; paredes internas e revestimentos pedem estabilidade dimensional, encaixe, acabamento e previsibilidade no assentamento.
A mesma lógica de “tirar do descarte” permanece, mas o desafio passa a ser atender usos diferentes sem perder desempenho.
A história da Rebricks é simples de resumir, mas difícil de executar: dois amigos em Jacarta insistiram por tempo suficiente para testar cerca de 100 métodos, refazer protótipos e chegar a um processo que desloca o “lixo impossível” para uma peça de uso urbano.
E, no meio desse caminho, os tijolos viram uma forma de medir o que a cidade consome e o que ela decide não enxergar.
Se essa ideia chegasse na sua região, você se sentiria confortável caminhando sobre pavimentos feitos com embalagens de café, macarrão e produtos de higiene?
E, olhando para a sua cidade, quais resíduos “sem saída” você acha que deveriam virar prioridade: sachês, sacolas, embalagens de salgadinho, ou outro tipo que você vê se acumulando todo dia?


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