Estruturas criadas para reduzir ruído nas rodovias holandesas passaram a gerar energia solar sem ocupar novos terrenos, em uma solução que combina infraestrutura viária, produção renovável e uso inteligente do espaço urbano já existente.
Estruturas criadas originalmente para reduzir o ruído do tráfego passaram a desempenhar uma nova função na Holanda: gerar eletricidade solar sem exigir a ocupação de novos terrenos para instalação de usinas fotovoltaicas.
Dentro dessa estratégia, o projeto Solar Highways, desenvolvido pela Rijkswaterstaat, agência responsável pela infraestrutura pública holandesa, transformou barreiras acústicas de rodovias em superfícies capazes de produzir energia renovável.
A aplicação mais conhecida foi instalada ao longo da rodovia A50, na região de Uden, no lado leste da pista e ao norte da saída de Volkel, onde o muro acústico passou a integrar painéis solares à própria estrutura.
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Embora continue exercendo a função de reduzir o impacto sonoro do trânsito sobre áreas vizinhas, a barreira agora também injeta eletricidade renovável na rede por meio dos módulos integrados ao sistema de contenção.
Com 400 metros de extensão, cinco metros de altura e cerca de 1.600 metros quadrados de painéis solares, o projeto foi concebido para avaliar a viabilidade técnica e econômica desse tipo de aplicação em infraestrutura rodoviária.

Na prática, a lógica adotada é simples: se a estrada já necessita de proteção acústica permanente, a mesma estrutura pode assumir uma função energética sem ampliar a disputa pelo uso do solo.
Barreira acústica com energia solar ganha espaço na Holanda
O modelo ganhou relevância por enfrentar um dos principais obstáculos da expansão solar em países densamente ocupados, onde grandes usinas fotovoltaicas frequentemente disputam espaço com agricultura, moradia e áreas de preservação ambiental.
Ao longo da A50, porém, a geração elétrica foi incorporada a uma estrutura já presente na paisagem rodoviária, evitando a necessidade de converter novos terrenos para produção de energia renovável.
Em vez de ocupar áreas livres, a solução aproveitou uma barreira acústica indispensável para a rodovia e acrescentou a ela uma segunda utilidade sem alterar sua função original.
Além disso, a experiência passou a ampliar a discussão sobre o uso de superfícies urbanas e viárias que normalmente são vistas apenas como elementos auxiliares da infraestrutura de transporte.
Muros acústicos, acostamentos, taludes e faixas de domínio podem ganhar relevância no planejamento energético quando recebem sistemas de geração distribuída integrados à própria estrutura física.
Painéis solares bifaciais aumentam eficiência da estrutura
A barreira solar holandesa utiliza painéis bifaciais, capazes de produzir eletricidade pelos dois lados.
Essa característica é importante em estruturas verticais, pois permite captar luz tanto na face frontal quanto na traseira, de acordo com a incidência solar e o reflexo do ambiente ao longo do dia.
Segundo a Rijkswaterstaat, o Solar Highways investigou justamente a integração de painéis de dupla face a barreiras acústicas em rodovias.
O objetivo era entender se esse tipo de construção poderia combinar desempenho energético, redução de ruído e manutenção adequada em condições reais de uso.
A construção começou em 2018 e foi concluída em fevereiro de 2019.
Desde então, a barreira passou a operar como demonstração prática de uma infraestrutura pública com dupla finalidade, reunindo proteção sonora e geração de eletricidade renovável no mesmo espaço físico.
Projeto da rodovia A50 passou por monitoramento técnico

O projeto foi acompanhado por um período de monitoramento de 18 meses, entre janeiro de 2019 e junho de 2020.
Nesse intervalo, a barreira produziu 325,5 MWh de eletricidade solar, o equivalente a cerca de 220 MWh por ano, conforme dados do programa europeu LIFE.
Essa produção é suficiente para abastecer aproximadamente 60 a 70 residências, segundo o relatório do projeto.
A própria Rijkswaterstaat também informa que a barreira pode fornecer eletricidade verde local para cerca de 40 a 60 casas, diferença ligada aos critérios usados em cada estimativa de consumo.
O acompanhamento técnico avaliou parâmetros de operação, cenários de manutenção e efeitos de limpeza sobre o desempenho energético.
Os dados coletados serviram para atualizar modelos técnicos e financeiros, além de orientar eventuais aplicações semelhantes em rodovias municipais, provinciais, regionais e até no setor ferroviário.
Infraestrutura rodoviária ganha nova função energética
Os resultados do monitoramento confirmaram o potencial da integração entre infraestrutura rodoviária e geração solar, embora os dados também tenham revelado desafios ligados ao custo e ao desempenho esperado inicialmente.
Segundo o relatório do programa LIFE, a produção energética ficou abaixo das projeções originais, enquanto os custos de capital superaram as estimativas iniciais devido a despesas relacionadas à execução contratual do projeto.
Mesmo assim, a experiência gerou recomendações técnicas voltadas à redução de custos e ao aprimoramento da eficiência em futuras aplicações semelhantes em rodovias e outras estruturas públicas.
Entre as conclusões registradas pelos responsáveis pelo monitoramento, uma delas apontou que a limpeza dos painéis não apresentou impacto mensurável no desempenho energético da barreira solar.

Projetada para operar durante aproximadamente 30 anos, a estrutura também passou a servir como referência para estudos sobre durabilidade dos módulos e custos de manutenção ao longo do ciclo de vida.
Com isso, o projeto deixou de ser apenas uma vitrine tecnológica e passou a fornecer parâmetros técnicos para avaliações futuras envolvendo geração solar integrada à infraestrutura viária.
Uso inteligente do espaço impulsiona energia renovável
A barreira da A50 faz parte de um conjunto maior de medidas de redução de ruído no trecho entre Sint-Oedenrode e o entroncamento de Paalgraven.
Nesse contexto, a geração solar não substituiu a finalidade acústica da obra, mas acrescentou valor a uma intervenção que já seria necessária para proteger áreas vizinhas.
Esse tipo de solução não tem a escala de grandes parques solares, mas oferece uma alternativa complementar para ampliar a produção renovável.
Ao distribuir painéis por superfícies já ocupadas, o sistema reduz conflitos pelo uso da terra e aproxima a geração elétrica de estruturas existentes no cotidiano urbano e rodoviário.
Para países que enfrentam pressão por energia limpa e restrição de espaço, a experiência holandesa mostra que parte da transição energética pode ocorrer em locais pouco considerados.
Barreiras contra ruído, fachadas, coberturas, estacionamentos e outras superfícies construídas podem ampliar a oferta solar sem deslocar atividades essenciais.
A relevância do Solar Highways está menos no volume absoluto de eletricidade produzido e mais na demonstração de um princípio de planejamento.
Infraestruturas públicas podem deixar de cumprir uma única função quando são pensadas para combinar mobilidade, proteção ambiental, qualidade de vida e geração de energia.
Na A50, o muro que reduz o som dos veículos também injeta eletricidade renovável na rede. A solução mantém a rodovia em operação, preserva a função acústica da barreira e transforma uma superfície antes passiva em parte ativa da matriz energética.

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