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Enquanto o mundo teme o avanço dos desertos, a China cria uma “muralha” de milhares de quilômetros com restos secos de plantas enterrados na areia para impedir que dunas engulam rodovias em uma das regiões mais inóspitas do planeta

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 18/06/2026 às 10:33
Atualizado em 18/06/2026 às 10:36
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No noroeste da China, uma megaoperação ambiental tenta conter dunas móveis, proteger estradas e manter vegetação viva em uma região extrema, usando irrigação, energia solar, técnicas de fixação do solo e décadas de planejamento contra a desertificação.

Imagine uma estrada cortando um mar de areia, com dunas tentando engolir o asfalto de todos os lados. Agora imagine fileiras de vegetação, bombas de água, painéis solares e até palha enterrada no chão tentando segurar esse avanço. Parece cena de ficção científica, mas é exatamente o tipo de batalha que a China trava há décadas no deserto de Taklamakan.

Localizado em Xinjiang, no noroeste do país, o Taklamakan é um daqueles lugares onde a natureza parece jogar no modo mais difícil. Faz calor extremo no verão, frio pesado no inverno, quase não chove e as tempestades de areia podem mudar a paisagem em pouco tempo.

Mesmo assim, a China decidiu enfrentar o problema com uma ideia gigantesca: criar um cinturão verde ao redor do deserto para impedir que a areia avance sem controle sobre estradas, vilarejos, plantações, oleodutos e áreas estratégicas.

Segundo a Reuters, o país concluiu em novembro de 2024 um cinturão verde de aproximadamente 3.000 quilômetros ao redor do Taklamakan. A obra faz parte de uma campanha iniciada ainda em 1978, dentro do programa conhecido como Three-North Shelterbelt, muitas vezes chamado de “Grande Muralha Verde” chinesa.

Não é uma floresta mágica, é uma guerra contra a areia

Foto aérea feita por drone em 18 de julho de 2025 mostra a Rodovia do Deserto de Tarim cortando o deserto de Taklamakan, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. Ao longo da estrada, é possível ver o cinturão verde plantado para conter o avanço da areia. A rodovia tem 522 km de extensão e atravessa o Taklamakan, considerado o segundo maior deserto de areia móvel do mundo. (Foto: Xinhua)
Foto aérea feita por drone em 18 de julho de 2025 mostra a Rodovia do Deserto de Tarim cortando o deserto de Taklamakan, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. Ao longo da estrada, é possível ver o cinturão verde plantado para conter o avanço da areia. A rodovia tem 522 km de extensão e atravessa o Taklamakan, considerado o segundo maior deserto de areia móvel do mundo. (Foto: Xinhua)

Quando se fala em “verdejar o deserto”, muita gente imagina uma transformação milagrosa: dunas desaparecendo e árvores tomando conta de tudo. Mas a realidade é bem diferente.

O objetivo da China não é transformar o Taklamakan em uma floresta tropical. O que o país tenta fazer é muito mais técnico e estratégico: segurar a areia nos pontos mais perigosos, reduzir tempestades de poeira e proteger obras de infraestrutura que custaram caro.

O deserto continua lá. As dunas continuam existindo. A diferença é que, em algumas bordas e corredores, a vegetação funciona como uma barreira viva contra o vento.

Essa barreira ajuda a diminuir a velocidade da areia, cria zonas mais estáveis e reduz o risco de soterramento de estradas e instalações. Em uma região onde o vento pode mover toneladas de areia ao longo do tempo, qualquer obstáculo bem planejado já faz diferença.

A técnica mais curiosa usa palha como escudo

Uma das partes mais interessantes do projeto é também uma das mais simples: a palha.

Em várias áreas, trabalhadores enterram feixes de palha parcialmente na areia, formando quadrados parecidos com um tabuleiro de xadrez. Essa técnica cria pequenas barreiras no solo e reduz a força do vento bem perto da superfície.

Parece simples demais para funcionar, mas é justamente essa simplicidade que torna o método tão eficiente. A palha segura parte da areia, diminui o deslocamento das dunas e cria uma condição mínima para que arbustos e mudas consigam se fixar.

Com o tempo, a palha também ajuda a reter um pouco de umidade e matéria orgânica na camada superficial. Ou seja, antes de plantar, a China primeiro tenta fazer a areia parar de fugir.

É como preparar o terreno em um lugar onde o terreno praticamente não quer existir.

A estrada que virou laboratório no meio do deserto

Foto aérea feita por drone em 18 de julho de 2025 mostra a Rodovia do Deserto de Tarim cortando o deserto de Taklamakan, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. Com 522 km de extensão, a estrada atravessa o Taklamakan, considerado o segundo maior deserto de areia móvel do mundo. (Foto: Xinhua)
Foto aérea feita por drone em 18 de julho de 2025 mostra a Rodovia do Deserto de Tarim cortando o deserto de Taklamakan, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. Com 522 km de extensão, a estrada atravessa o Taklamakan, considerado o segundo maior deserto de areia móvel do mundo. (Foto: Xinhua)

Um dos pontos mais famosos dessa história é a rodovia que atravessa o Taklamakan, ligando regiões ao norte e ao sul da bacia do Tarim. A estrada foi construída na década de 1990 para encurtar distâncias e facilitar o transporte em uma área importante para a economia local.

Mas havia um problema óbvio: uma estrada no meio de um deserto de dunas móveis pode simplesmente ser engolida.

Por isso, a China criou um corredor verde ao longo do trajeto. Um estudo publicado na revista Frontiers in Environmental Science descreve o sistema como um cinturão de proteção de aproximadamente 436 quilômetros, desenvolvido para defender a rodovia e instalações próximas contra os impactos do vento e da areia.

Esse corredor vegetal não está ali para enfeitar a paisagem. Ele reduz o acúmulo de areia sobre o asfalto, ajuda a baixar custos de manutenção e cria uma espécie de “zona de amortecimento” entre a estrada e o deserto.

Na prática, é uma obra de engenharia viva: em vez de concreto e aço, usa plantas, água, solo preparado e manutenção constante.

Painéis solares ajudam a irrigar árvores no meio da aridez

Foto aérea feita em 29 de maio de 2022 mostra trabalhadores da filial da PetroChina no campo petrolífero de Tarim instalando painéis fotovoltaicos em uma estação de poço ao longo da Rodovia do Deserto de Tarim, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. (Foto: Xinhua)
Foto aérea feita em 29 de maio de 2022 mostra trabalhadores da filial da PetroChina no campo petrolífero de Tarim instalando painéis fotovoltaicos em uma estação de poço ao longo da Rodovia do Deserto de Tarim, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. (Foto: Xinhua)

Plantar no Taklamakan já é difícil. Manter as plantas vivas é ainda mais complicado.

Por isso, o projeto depende de irrigação. Em alguns trechos, poços captam água subterrânea e sistemas de gotejamento levam pequenas quantidades diretamente às raízes. Essa técnica evita desperdício, algo essencial em uma região onde a evaporação é muito alta.

Também há trechos em que painéis solares ajudam a alimentar bombas de água. A lógica é simples: se o deserto tem sol de sobra, faz sentido usar essa energia para manter parte do próprio sistema funcionando.

Mas aqui entra um ponto importante. Nem todo o sistema funciona da mesma maneira. Alguns trechos usam energia solar, outros podem depender de eletricidade convencional ou estruturas mais antigas. O projeto é grande, antigo e foi sendo ampliado em diferentes fases.

E existe uma preocupação real: a água subterrânea não é infinita. Pesquisadores alertam que o uso contínuo precisa ser monitorado para evitar salinização do solo e queda do lençol freático.

Ou seja, a tecnologia ajuda, mas não resolve tudo sozinha.

E o famoso sal fundido a mais de 500 °C?

Foto aérea feita em 22 de agosto de 2021 mostra uma usina de energia fototérmica em Hami, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. (Foto: Xinhua/Gao Han)
Foto aérea feita em 22 de agosto de 2021 mostra uma usina de energia fototérmica em Hami, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. (Foto: Xinhua/Gao Han)

Muitos vídeos e textos sobre o tema misturam o cinturão verde do Taklamakan com usinas solares térmicas que usam espelhos gigantes e sal fundido aquecido a mais de 500 °C.

Essa tecnologia existe de verdade no noroeste da China, especialmente em Xinjiang. A SolarPACES, base internacional de projetos de energia solar de concentração, registra o projeto CEEC Hami, uma usina solar térmica de torre com capacidade de 50 MW.

Nesse tipo de usina, espelhos direcionam a luz do Sol para uma torre central. O calor aquece sais especiais, que armazenam energia térmica e permitem gerar eletricidade mesmo quando o Sol já não está forte.

É uma tecnologia impressionante. Mas é preciso separar as histórias.

Não há confirmação pública sólida de que essa usina de sal fundido esteja ligada diretamente à irrigação do cinturão verde da rodovia do Taklamakan. O que existe é uma coincidência regional e tecnológica: Xinjiang tem tanto grandes projetos contra a desertificação quanto grandes investimentos em energia solar.

Então, a forma mais correta de contar é esta: a energia solar aparece no combate à desertificação por meio de sistemas de bombeamento e também aparece na região em megaprojetos energéticos. Mas o sal fundido pertence a outra frente, ligada à geração de eletricidade em larga escala.

Foto aérea feita em 22 de agosto de 2021 mostra heliostatos em uma usina de energia fototérmica em Hami, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. (Foto: Xinhua/Gao Han)
Foto aérea feita em 22 de agosto de 2021 mostra heliostatos em uma usina de energia fototérmica em Hami, na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China. (Foto: Xinhua/Gao Han)

O lado impressionante e o lado delicado da obra

A ideia de cercar um deserto com vegetação é poderosa. Visualmente, é quase impossível não chamar atenção. Mas esse tipo de projeto também levanta perguntas difíceis.

Quanta água será necessária para manter tudo isso vivo? O solo pode ficar salgado demais com o tempo? As espécies plantadas vão resistir a pragas, secas prolongadas e eventos climáticos extremos? O custo de manutenção compensará os benefícios?

Essas dúvidas não diminuem o tamanho da obra. Pelo contrário, mostram que o projeto chinês é mais complexo do que parece.

Não se trata apenas de plantar árvores. Trata-se de manter um sistema artificial funcionando em um dos ambientes mais duros da Terra.

A China não derrotou o deserto, mas conseguiu freá-lo

O cinturão verde do Taklamakan chama atenção porque parece uma tentativa humana de negociar com uma força natural gigantesca. De um lado, dunas, vento, seca e calor extremo. Do outro, palha, raízes, bombas, painéis solares e décadas de planejamento.

A China não acabou com o deserto. Também não transformou o Taklamakan em uma floresta comum. O que ela fez foi criar barreiras para impedir que a areia avance sem controle sobre áreas estratégicas.

E talvez seja justamente isso que torna a história tão impressionante.

Em vez de vender a ideia de uma vitória total contra a natureza, o projeto mostra algo mais realista: em certos lugares do planeta, sobreviver já é engenharia. E manter árvores vivas no meio de um deserto como o Taklamakan é uma batalha diária contra o vento, a sede e o tempo.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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