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Enquanto o mundo olha para o petróleo, a guerra com o Irã já derruba o fornecimento de hélio do Catar, afeta chips de carros e iPhones, ameaça a expansão da IA e pressiona embalagens com alumínio no maior valor em quatro anos

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Escrito por Fabio Lucas Carvalho Publicado em 02/04/2026 às 01:02 Atualizado em 02/04/2026 às 11:04
Guerra com o Irã afeta hélio e alumínio, pressiona chips, embalagens e equipamentos médicos no mercado global.
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A guerra com o Irã passou a afetar cadeias globais além do petróleo ao interromper parte da produção de hélio no Catar, pressionar o alumínio no Golfo e elevar o risco de impactos em chips, ressonâncias magnéticas, embalagens, eletrônicos e investimentos em infraestrutura de inteligência artificial

A guerra com o Irã já vai além da pressão sobre petróleo e gás e começa a comprometer o fornecimento global de hélio e alumínio, dois insumos estratégicos para a fabricação de chips semicondutores, equipamentos médicos, bens de consumo e embalagens, em um cenário que amplia os efeitos econômicos do conflito.

O Catar, responsável por cerca de um terço da oferta mundial de hélio, interrompeu a produção do gás neste mês após ataques iranianos a duas instalações de gás natural liquefeito da estatal QatarEnergy. Como o hélio é um subproduto do processamento de gás natural, a paralisação dessas estruturas compromete diretamente o abastecimento internacional.

A própria QatarEnergy informou que os ataques destruíram 17% da capacidade de exportação de GNL do país. Os reparos, de acordo com a estimativa divulgada, podem levar de três a cinco anos, o que prolonga o risco de escassez e pressiona ainda mais cadeias produtivas já afetadas.

Guerra com o Irã expõe fragilidade no mercado de hélio

Os efeitos da guerra com o Irã sobre o hélio passaram a chamar atenção em um momento em que o foco principal do mercado ainda está concentrado nos combustíveis.

Nos Estados Unidos, a alta do petróleo e do gás domina as reações imediatas de consumidores, empresas e economistas, com o preço médio da gasolina chegando a US$ 4 por galão na terça-feira, pela primeira vez desde agosto de 2022.

A menor visibilidade da crise do hélio não reduz seu potencial de impacto. Vidya Mani, especialista global em cadeia de suprimentos e professora associada de administração de empresas na Darden School of Business da Universidade da Virgínia, afirmou que a atenção ao fornecimento de gás acabou ofuscando a dimensão da escassez de hélio.

O mercado global desse gás é especialmente vulnerável porque apenas um pequeno grupo de países concentra a produção. Os Estados Unidos lideraram no ano passado com 81 milhões de metros cúbicos, enquanto Catar, Argélia e Rússia aparecem entre os principais produtores, mas o fornecimento russo está vetado por sanções dos Estados Unidos e da União Europeia.

Esse quadro reduz as alternativas para compensar uma interrupção prolongada no Golfo. Com menos fornecedores relevantes disponíveis, qualquer quebra relevante na produção tende a desorganizar rapidamente contratos, estoques e cronogramas industriais em vários setores ao mesmo tempo.

Semicondutores, hospitais e setor espacial entram na zona de risco

O hélio é considerado essencial na fabricação de semicondutores por sua alta eficiência na transferência de calor e no resfriamento rápido. O gás é usado pelos fabricantes de chips para resfriar wafers, os discos de silício onde ficam impressos os circuitos eletrônicos.

O uso também ocorre durante o processo de corrosão, etapa em que o material depositado sobre a pastilha é raspado para formar as estruturas dos transistores. Jacob Feldgoise, analista do Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade de Georgetown, detalhou essa função ao explicar a presença do hélio na linha de produção de semicondutores.

Vidya Mani alertou que uma parcela significativa do hélio usado pela indústria de chips vem de países do Golfo. Ela apontou que a escassez pode atingir diretamente produtos como laptops, iPhones e pequenos eletrodomésticos, todos dependentes de circuitos eletrônicos para funcionar.

Na área médica, o gás é usado para resfriar os ímãs supercondutores dos equipamentos de ressonância magnética. Já a indústria espacial depende do hélio para purgar os tanques de combustível de foguetes, uma demanda que tende a crescer com o aumento dos lançamentos promovidos por empresas como SpaceX e Blue Origin.

Estoques curtos ampliam impacto da guerra com o Irã

A guerra com o Irã também preocupa porque os estoques mantidos por fabricantes que usam hélio costumam ser limitados. Mani afirmou que, em geral, essas empresas armazenam volumes suficientes para no máximo dois meses, o que estreita a margem para absorver uma paralisação prolongada.

Os sinais de escassez já começaram a chegar ao mercado americano. Especialistas relataram que fornecedores de hélio estão avisando clientes nos Estados Unidos, entre eles fabricantes de semicondutores e de eletrônicos, para se prepararem para falta do produto e alta de preços.

Cliff Cain, da Pulsar Helium, disse que empresas já recebem cartas de força maior e de alocação. Para ele, os efeitos da crise já começaram e tendem a atingir desde chips automotivos até iPhones, com reflexos diretos na produção global de dispositivos eletrônicos.

Cain acrescentou que não há forma de ampliar a oferta de hélio no curto prazo. A Oxford Economics também apontou que uma escassez global do gás pode atrapalhar a fabricação de chips, interferir na construção de data centers de inteligência artificial e limitar planos de investimento das empresas.

Yvette Connor, líder de consultoria de risco da CohnReznick, avaliou que o crescimento das empresas americanas de IA pode desacelerar por causa da falta de chips associada às restrições de hélio. A avaliação dela é de que o problema pode reduzir a velocidade de crescimento dessas companhias, ainda que não elimine sua capacidade.

Alumínio sobe e pressiona custos de produção e embalagens

Além do hélio, a guerra com o Irã também eleva o risco de escassez de alumínio e nitrogênio, na avaliação de especialistas em cadeia de suprimentos. Esse movimento pode aumentar os custos de alimentos e embalagens para consumidores americanos, ampliando o alcance da crise para além da indústria pesada e de tecnologia.

Cerca de 9% do fornecimento mundial de alumínio vem dos países do Golfo. Com as interrupções locais, os efeitos já começaram a aparecer no mercado, e os preços do alumínio atingiram nesta semana o maior nível em quatro anos.

Stephen Hare e Sebastian Tillet, da Oxford Economics, afirmaram que a combinação entre menor oferta regional e custos mais altos de energia está pressionando toda a curva global de produção. Na prática, isso aperta as condições de mercado e empurra os preços do alumínio para cima.

Vidya Mani observou que uma escassez do metal teria efeito direto e imediato sobre o custo de embalagens de bens de consumo. O alumínio também é amplamente utilizado no setor automotivo, o que reforça como a guerra com o Irã pode espalhar seus impactos por diferentes segmentos da economia mundial.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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