Em Nova York, uma proposta da Câmara Municipal quer depositar até US$ 3 mil (cerca de R$ 15,6 mil) em contas de poupança para a faculdade de crianças pobres, ainda na pré-escola. A ideia, que depende do prefeito Zohran Mamdani, busca reduzir dívida estudantil e combater a desigualdade de renda.
Nova York estuda uma forma inédita de combater a desigualdade: depositar dinheiro na conta de crianças pobres já na pré-escola para que, anos depois, elas consigam pagar a faculdade. A proposta partiu da Câmara Municipal da cidade, que em 1º de abril de 2026 publicou sua resposta ao orçamento do prefeito Zohran Mamdani prevendo de US$ 1.000 a US$ 3 mil (cerca de R$ 5,2 mil a R$ 15,6 mil) por aluno, com o maior valor para os mais pobres.
O plano expande o programa NYC Kids Rise, que já existe, e mira quem mais precisa: crianças de famílias de baixa renda receberiam US$ 3 mil, e as demais, US$ 1.000, valores muito acima da contribuição atual, de apenas US$ 100. A medida, porém, ainda depende da negociação do orçamento municipal de 2027, que prefeitura e Câmara devem fechar até o fim de junho de 2026.
Como funcionaria o depósito para crianças pobres
A proposta está entre os maiores investimentos em poupança infantil já sugeridos nos Estados Unidos. O aporte seria único, mas robusto: US$ 3 mil para os alunos mais pobres e US$ 1.000 para os demais, num salto enorme em relação aos US$ 100 depositados hoje. O dinheiro ficaria guardado para custear a educação superior no futuro.
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O efeito do tempo é parte central do plano. Segundo os defensores da medida, mesmo sem novos depósitos, os US$ 3 mil colocados na conta de uma das crianças pobres poderiam se transformar em cerca de US$ 8.500 (R$ 44,2 mil) até a idade de entrar na faculdade, considerando a taxa de retorno atual do programa. É dinheiro que, segundo eles, abre portas que hoje ficam fechadas para famílias de baixa renda.
O programa NYC Kids Rise, que já existe
A novidade se apoia em uma estrutura já em funcionamento. Chamado de NYC Kids Rise, o programa abre contas automaticamente para todos os alunos das pré-escolas públicas da cidade, incluindo três quartos das escolas conveniadas que aderiram. Lançado como piloto no bairro do Queens, em 2017, ele já abriu contas em nome de mais de 380 mil crianças.
O modelo tem ainda um componente comunitário. As contas do NYC Kids Rise já acumularam mais de US$ 85 milhões (R$ 442 milhões), e o programa permite que empresas locais, grupos comunitários e vizinhos façam doações, distribuídas entre os alunos de uma mesma escola. É uma forma de envolver toda a vizinhança no futuro das crianças pobres, não só o poder público.
Quem está por trás e o impasse político
A proposta tem nome, sobrenome e data. Ela foi apresentada pela Câmara Municipal de Nova York em 1º de abril de 2026, dentro da resposta oficial ao orçamento preliminar que o prefeito Zohran Mamdani havia enviado em 17 de fevereiro. A autoria é da presidente (speaker) da Câmara, Julie Menin, que ajudou a criar o programa de poupança há mais de uma década, quando era comissária de defesa do consumidor da cidade, e que trata a expansão como uma de suas prioridades.
O dinheiro, porém, ainda não está garantido. Quando Mamdani divulgou seu orçamento executivo, de US$ 124,7 bilhões, em 12 de maio de 2026, a expansão das contas universitárias ficou de fora. Desde então, prefeitura e Câmara negociam, com a expectativa de fechar o orçamento de 2027 até o fim de junho de 2026. A gestão Mamdani sinalizou estar aberta a ampliar as contribuições, e o tema segue em disputa nessa reta final.
Por que poupar desde a infância? O peso da dívida estudantil
O pano de fundo é o custo altíssimo da faculdade nos Estados Unidos. As contas de poupança universitária, conhecidas como planos 529, existem há mais de 40 anos, mas historicamente beneficiaram sobretudo as famílias mais ricas, que tinham como depositar. A proposta de Nova York tenta inverter essa lógica, levando o benefício às crianças pobres desde cedo.
Histórias pessoais mostram o tamanho do problema. Uma moradora do Brooklyn, orientadora de carreira, contou ter acumulado cerca de US$ 48 mil (R$ 249,6 mil) em dívidas estudantis que podem levar três décadas para serem quitadas, e por isso abriu uma poupança para a filha logo após o nascimento, ligada ao programa da cidade. Para um pesquisador da Universidade de Michigan ouvido na reportagem, programas assim mudam a forma como as crianças enxergam o próprio futuro, ao transmitir a mensagem de que a cidade e a vizinhança acreditam nelas.
O contraste com o Brasil e o Pé-de-Meia
O caso de Nova York dialoga com um debate que também acontece no Brasil. Por aqui, o programa federal Pé-de-Meia usa uma poupança para tentar manter os jovens no ensino médio, com foco em evitar a evasão escolar entre estudantes de baixa renda. A lógica é parecida no espírito, usar dinheiro para abrir caminhos, mas o momento e o objetivo são diferentes.
Enquanto o Brasil age na adolescência para segurar o aluno na escola, Nova York mira muito antes, ainda na pré-escola, e mais longe, na faculdade. A cidade não está sozinha nesse movimento: Connecticut investe US$ 3.200 (R$ 16,6 mil) para crianças de baixa renda ao nascer, e o governo federal americano criou recentemente contas de investimento para crianças, com aporte inicial de US$ 1.000. São apostas diferentes em uma mesma ideia: dar às crianças pobres um ponto de partida financeiro.
Apostar no futuro antes mesmo da alfabetização
A proposta de Nova York mostra uma maneira diferente de pensar política social: em vez de só socorrer quem já está em dificuldade, criar patrimônio para crianças que ainda nem sabem ler. Para os defensores, garantir uma poupança às crianças pobres desde a pré-escola é plantar hoje a chance de uma vida com menos dívida e mais oportunidades amanhã.
Agora a gente quer saber a sua opinião. Você acha que o Brasil deveria criar uma poupança para a faculdade desde a infância, como Nova York estuda fazer, ou é melhor concentrar o esforço no ensino médio, como o Pé-de-Meia?
Comente aqui embaixo o que você pensa, conte como foi o seu acesso ao ensino superior e compartilhe esta matéria com quem se preocupa com educação e desigualdade.


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