Enquanto o Brasil produz petróleo de sobra no pré-sal e mesmo assim importa diesel para rodar seus caminhões, a Turquia, que mal arranha o próprio subsolo, mandou um navio-sonda cruzar meio mundo até a Somália e começar a perfuração offshore mais ousada da sua história, furando a partir de 3.500 metros de água atrás de óleo.
O poço se chama Curad-1 e fica a cerca de 370 quilômetros da costa de Mogadíscio, no oceano Índico. É a primeira vez que a Turquia leva uma operação de perfuração para fora do próprio território, e não escolheu um lugar fácil: a lâmina d’água ali tem 3.500 metros, e a meta é furar até 7.500 metros de profundidade total contando a rocha abaixo do leito do mar. Antes de a broca descer, o navio de pesquisa Oruç Reis vasculhou 4.500 quilômetros quadrados de fundo oceânico com sísmica em três dimensões.
Um país quase sem petróleo perfurando onde poucos se atrevem
A parte que me faz parar para pensar é o contexto. A Turquia importa praticamente todo o petróleo e o gás que consome, algo perto de 93%, e há anos vem montando uma frota própria de navios-sonda com nomes de sultões otomanos para furar onde conseguir, primeiro no Mediterrâneo e no Mar Negro, agora na África Oriental. O Curad-1 está sendo perfurado pelo Çağrı Bey, uma dessas embarcações de águas ultraprofundas, dentro de um acordo de hidrocarbonetos que o país fechou com a Somália.
Essa frota não surgiu do nada. Na última década a Turquia comprou navios-sonda no mercado internacional e os rebatizou com nomes de sultões, como Fatih, Yavuz e Abdülhamid Han, montando uma capacidade de perfuração offshore que poucos países fora das grandes petroleiras possuem. Foi com eles que o país encontrou gás no Mar Negro, no campo de Sakarya, e é com essa bagagem que agora se aventura no Índico. A Somália, com um litoral quase inexplorado, entrou na rota como a nova fronteira dessa caçada.
-
A inflação de alimentos subiu 302% em 20 anos no Brasil, mas o supermercado mudou: o poder de compra rendeu 87% mais mortadela e 31% menos fruta, e os ultraprocessados tomaram o carrinho
-
Gigante do agro foca no Brasil e anuncia fábrica colossal automatizada de R$ 100 milhões no interior de SP
-
Petrobras coloca petróleo de lado e foca na soja ao produzir combustível de aviação com certificação inédita no mundo; lote de 3,8 mil m³ promete cortar até 70% das emissões e acelerar a transição energética
-
Brasil sancionou piso nacional de professores em R$ 5.130 para jornada de 40 horas, elevou salário mínimo da educação básica após reajuste de 5,4% e criou regra que impede aumentos abaixo da inflação nos próximos anos em todo o país
É uma aposta de alto risco e custo altíssimo, num bloco do Índico onde as gigantes tradicionais do setor nunca foram. Mas diz tudo sobre a fome energética de quem não tem reserva em casa: se o petróleo não está debaixo dos seus pés, você atravessa o oceano para procurá-lo embaixo dos pés de outro.

3.500 metros de água, 7.500 de rocha
Para entender o tamanho do desafio, vale separar os números. Os 3.500 metros de lâmina d’água já colocam o Curad-1 entre as perfurações mais profundas em andamento no planeta, porque a coluna de perfuração precisa atravessar essa distância de mar antes mesmo de tocar o leito. Depois disso, ainda há outros quatro mil metros de rocha a vencer até a meta de 7.500. É o tipo de operação em que pressão e temperatura crescem a cada metro, e qualquer falha custa uma fortuna.

O espelho invertido do Brasil
E é aqui que a comparação fica desconfortável. O Brasil senta sobre uma das maiores fronteiras de petróleo do mundo, com a Petrobras instalando novas plataformas no pré-sal de Búzios e batendo recordes de exportação de óleo cru. Ao mesmo tempo, o país importa diesel e gasolina porque não refina o suficiente do que tira do próprio mar. Temos o petróleo e mandamos o combustível refinado vir de fora.
A Turquia faz o caminho contrário. Sem reserva relevante, transformou a busca por óleo em política de Estado e foi atrás dele em águas extremas, do mesmo jeito que a China furou mais de dez mil metros de rocha no deserto para não depender de ninguém. A gente costuma achar que ter a reserva é o fim da história, quando na verdade é só o começo.
Confesso que fico imaginando o mapa-múndi com essas setas: a Turquia indo da Anatólia até o chifre da África para perfurar, a China cavando o próprio deserto, e o Brasil, com o tesouro no quintal, ainda discutindo refino. Não é falta de petróleo que separa um país do outro, é o que cada um decide fazer com a vontade de não depender.
Se um país sem petróleo cruza o oceano para perfurar 7.500 metros, o que justifica o Brasil sentar sobre o pré-sal e ainda importar combustível?

-
1 pessoa reagiu a isso.