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Enquanto o Brasil senta sobre o pré-sal e ainda importa diesel, a Turquia, que quase não produz petróleo, cruzou meio mundo para perfurar 7.500 metros abaixo do mar da Somália atrás do próprio combustível

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 26/05/2026 às 18:43
Atualizado em 26/05/2026 às 18:50
Navio-sonda de perfuração de petróleo em águas ultraprofundas no oceano
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Enquanto o Brasil produz petróleo de sobra no pré-sal e mesmo assim importa diesel para rodar seus caminhões, a Turquia, que mal arranha o próprio subsolo, mandou um navio-sonda cruzar meio mundo até a Somália e começar a perfuração offshore mais ousada da sua história, furando a partir de 3.500 metros de água atrás de óleo.

O poço se chama Curad-1 e fica a cerca de 370 quilômetros da costa de Mogadíscio, no oceano Índico. É a primeira vez que a Turquia leva uma operação de perfuração para fora do próprio território, e não escolheu um lugar fácil: a lâmina d’água ali tem 3.500 metros, e a meta é furar até 7.500 metros de profundidade total contando a rocha abaixo do leito do mar. Antes de a broca descer, o navio de pesquisa Oruç Reis vasculhou 4.500 quilômetros quadrados de fundo oceânico com sísmica em três dimensões.

Um país quase sem petróleo perfurando onde poucos se atrevem

A parte que me faz parar para pensar é o contexto. A Turquia importa praticamente todo o petróleo e o gás que consome, algo perto de 93%, e há anos vem montando uma frota própria de navios-sonda com nomes de sultões otomanos para furar onde conseguir, primeiro no Mediterrâneo e no Mar Negro, agora na África Oriental. O Curad-1 está sendo perfurado pelo Çağrı Bey, uma dessas embarcações de águas ultraprofundas, dentro de um acordo de hidrocarbonetos que o país fechou com a Somália.

Essa frota não surgiu do nada. Na última década a Turquia comprou navios-sonda no mercado internacional e os rebatizou com nomes de sultões, como Fatih, Yavuz e Abdülhamid Han, montando uma capacidade de perfuração offshore que poucos países fora das grandes petroleiras possuem. Foi com eles que o país encontrou gás no Mar Negro, no campo de Sakarya, e é com essa bagagem que agora se aventura no Índico. A Somália, com um litoral quase inexplorado, entrou na rota como a nova fronteira dessa caçada.

É uma aposta de alto risco e custo altíssimo, num bloco do Índico onde as gigantes tradicionais do setor nunca foram. Mas diz tudo sobre a fome energética de quem não tem reserva em casa: se o petróleo não está debaixo dos seus pés, você atravessa o oceano para procurá-lo embaixo dos pés de outro.

Navio-sonda de perfuração em águas ultraprofundas navegando em mar aberto
Navio-sonda de perfuração em águas ultraprofundas (imagem ilustrativa). Operações como a do Curad-1 furam a partir de milhares de metros de lâmina d’água em mar aberto.

3.500 metros de água, 7.500 de rocha

Para entender o tamanho do desafio, vale separar os números. Os 3.500 metros de lâmina d’água já colocam o Curad-1 entre as perfurações mais profundas em andamento no planeta, porque a coluna de perfuração precisa atravessar essa distância de mar antes mesmo de tocar o leito. Depois disso, ainda há outros quatro mil metros de rocha a vencer até a meta de 7.500. É o tipo de operação em que pressão e temperatura crescem a cada metro, e qualquer falha custa uma fortuna.

Plataforma de perfuração offshore em alto-mar
A engenharia de perfuração em águas ultraprofundas é a mesma que o Brasil domina no pré-sal, mas que poucos países do mundo conseguem operar em escala.

O espelho invertido do Brasil

E é aqui que a comparação fica desconfortável. O Brasil senta sobre uma das maiores fronteiras de petróleo do mundo, com a Petrobras instalando novas plataformas no pré-sal de Búzios e batendo recordes de exportação de óleo cru. Ao mesmo tempo, o país importa diesel e gasolina porque não refina o suficiente do que tira do próprio mar. Temos o petróleo e mandamos o combustível refinado vir de fora.

A Turquia faz o caminho contrário. Sem reserva relevante, transformou a busca por óleo em política de Estado e foi atrás dele em águas extremas, do mesmo jeito que a China furou mais de dez mil metros de rocha no deserto para não depender de ninguém. A gente costuma achar que ter a reserva é o fim da história, quando na verdade é só o começo.

Confesso que fico imaginando o mapa-múndi com essas setas: a Turquia indo da Anatólia até o chifre da África para perfurar, a China cavando o próprio deserto, e o Brasil, com o tesouro no quintal, ainda discutindo refino. Não é falta de petróleo que separa um país do outro, é o que cada um decide fazer com a vontade de não depender.

Se um país sem petróleo cruza o oceano para perfurar 7.500 metros, o que justifica o Brasil sentar sobre o pré-sal e ainda importar combustível?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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