1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Enquanto geladeiras e ar-condicionados ainda dependem de gases que podem vazar, startup de Cambridge levanta US$ 10 milhões para criar refrigeração com cristais plásticos que esfriam quando são espremidos 
Tempo de leitura 7 min de leitura Comentários 0 comentários

Enquanto geladeiras e ar-condicionados ainda dependem de gases que podem vazar, startup de Cambridge levanta US$ 10 milhões para criar refrigeração com cristais plásticos que esfriam quando são espremidos 

Escrito por Ana Alice
Publicado em 08/05/2026 às 23:58
Startup de Cambridge usa cristais plásticos para criar refrigeração sem gases, com tecnologia baseada em pressão e estado sólido. (Imagem: Ilustrativa)
Startup de Cambridge usa cristais plásticos para criar refrigeração sem gases, com tecnologia baseada em pressão e estado sólido. (Imagem: Ilustrativa)
  • Reação
1 pessoa reagiu a isso.
Reagir ao artigo

Startup de Cambridge aposta em cristais plásticos para transformar a refrigeração ao substituir gases por materiais sólidos que mudam de temperatura sob pressão, em uma tecnologia ainda em desenvolvimento e voltada inicialmente a sistemas comerciais.

Uma startup ligada à Universidade de Cambridge trabalha em uma tecnologia de refrigeração que troca gases por materiais sólidos capazes de mudar de temperatura quando são pressionados.

A Barocal levantou US$ 10 milhões em uma rodada seed para avançar no desenvolvimento de sistemas de aquecimento e resfriamento baseados em cristais plásticos, uma classe de materiais estudada por pesquisadores da área de física dos materiais.

A proposta busca enfrentar uma limitação dos sistemas usados hoje em geladeiras, ar-condicionados e equipamentos industriais.

A refrigeração convencional funciona, em grande parte, por compressão de vapor, processo em que fluidos refrigerantes circulam pelo equipamento, mudam de estado físico e retiram calor de um ambiente.

Esses fluidos podem vazar durante o uso, a manutenção ou o descarte dos aparelhos.

De acordo com a Barocal, o objetivo é substituir os refrigerantes gasosos por materiais sólidos orgânicos.

A empresa afirma que seus primeiros protótipos já alcançam desempenho comparável ao de compressores usados em refrigeradores atuais, mas a tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento e não tem data pública de lançamento comercial.

A rodada de investimento teve participação de World Fund, Breakthrough Energy Discovery, Cambridge Enterprise Ventures e IP Group.

Segundo informações divulgadas pela Cambridge Enterprise, braço de comercialização da Universidade de Cambridge, os recursos serão usados para contratações, desenvolvimento de engenharia e preparação da tecnologia para uso comercial.

Como funciona a refrigeração por pressão

A tecnologia da Barocal se baseia no chamado efeito barocalórico, fenômeno em que certos materiais liberam ou absorvem calor quando recebem pressão mecânica.

Em vez de comprimir um gás, como ocorre em muitos sistemas de refrigeração atuais, o equipamento comprime um sólido.

O físico Xavier Moya, fundador da Barocal e professor de física dos materiais na Universidade de Cambridge, explica o princípio com um exemplo simples.

Em entrevista à TechCrunch, ele citou o comportamento de um balão vazio quando é esticado e depois solto.

“Se você esticá-lo, ele fica quente. E então, se você esperar, quando soltá-lo, ele parece frio”, afirmou.

Nos cristais plásticos usados em pesquisas relacionadas à tecnologia, as moléculas têm mobilidade em condições normais.

Quando o material é comprimido, essa movimentação fica reduzida.

Como o calor está associado ao movimento de átomos e moléculas, a alteração estrutural permite que o material libere calor.

Quando a pressão é retirada, o processo se inverte, e o sólido pode absorver calor do ambiente próximo.

Em uma geladeira, esse ciclo funcionaria como uma bomba de calor.

O material retiraria calor do interior do equipamento e o transferiria para fora.

A Barocal informa que o sistema pode usar água para circular ao redor dos materiais e levar o calor até um radiador, sem depender de gases refrigerantes convencionais.

Pesquisa da Universidade de Cambridge deu origem à Barocal

A Barocal é uma spin-out da Universidade de Cambridge e foi fundada em 2019 por Xavier Moya.

Antes da criação da empresa, pesquisadores já investigavam o uso de cristais plásticos como alternativa para sistemas de resfriamento em estado sólido.

Em 2019, um estudo publicado por pesquisadores ligados a Cambridge e a outras instituições descreveu efeitos barocalóricos expressivos em cristais plásticos próximos à temperatura ambiente.

Na época, a Universidade de Cambridge informou que Moya trabalhava com a Cambridge Enterprise para avaliar formas de levar a tecnologia ao mercado.

A área não se limita à Barocal.

Materiais calóricos, de modo geral, são estudados porque podem trocar calor quando submetidos a estímulos externos, como pressão, campo elétrico ou campo magnético.

No caso da empresa britânica, o foco está nos materiais barocalóricos, que respondem à pressão.

O desafio científico não está apenas em demonstrar que o material muda de temperatura.

Para chegar ao mercado, a tecnologia precisa repetir o ciclo de compressão e relaxamento muitas vezes, manter desempenho estável, funcionar em equipamentos reais e apresentar custo compatível com aplicações comerciais.

Gases refrigerantes e impacto ambiental

A compressão de vapor permanece como a tecnologia dominante na refrigeração porque é amplamente conhecida pela indústria, tem cadeia de produção estabelecida e apresenta desempenho adequado em diferentes aplicações.

Ao mesmo tempo, o uso de fluidos refrigerantes levanta preocupações ambientais quando há vazamentos.

Alguns refrigerantes antigos foram associados à degradação da camada de ozônio.

Outras substâncias, como determinados hidrofluorcarbonetos, não têm o mesmo efeito sobre o ozônio, mas podem ter alto potencial de aquecimento global quando liberadas na atmosfera.

Por esse motivo, governos, pesquisadores e empresas buscam alternativas com menor impacto climático.

No sistema proposto pela Barocal, o refrigerante principal é sólido.

Segundo a empresa, essa característica reduz o risco de emissões fugitivas associadas ao vazamento de gases.

A tecnologia, porém, ainda precisa passar por validação comercial mais ampla antes de ser comparada em escala com os sistemas usados atualmente.

A substituição de refrigerantes gasosos também depende de fatores regulatórios, industriais e econômicos.

Equipamentos de refrigeração precisam operar por longos períodos, passar por manutenção, atender a normas de segurança e ter custo competitivo para fabricantes e consumidores.

Sistemas comerciais devem receber a tecnologia primeiro

A Barocal afirma que sua tecnologia pode ser aplicada em diferentes escalas, mas o foco inicial está em sistemas comerciais maiores.

A empresa cita áreas como refrigeração comercial, aquecimento e resfriamento de edifícios e aplicações ligadas a data centers.

Em entrevista à TechCrunch, Moya disse que a companhia observa sistemas comerciais de maior porte, nos quais a redução de custos operacionais pode ser percebida mais rapidamente.

A estratégia indica que a geladeira doméstica comum não deve ser o primeiro mercado da tecnologia.

Essa escolha também reflete as exigências do setor.

Em equipamentos maiores, consumo de energia, eficiência e manutenção têm peso relevante nas decisões de compra.

Já no mercado residencial, fabricantes precisam atender a requisitos de preço, tamanho, ruído, durabilidade e assistência técnica em larga escala.

Mesmo em aplicações comerciais, a empresa ainda precisa demonstrar que os materiais suportam ciclos repetidos de pressão, que o sistema mantém eficiência ao longo do tempo e que a tecnologia pode ser fabricada em escala.

Essas etapas fazem parte do processo de transformação de uma descoberta de laboratório em produto.

O que muda em relação à geladeira convencional

A tecnologia não elimina a necessidade de retirar calor de um ambiente e descartá-lo em outro ponto.

Esse princípio continua sendo central na refrigeração.

A diferença está no meio usado para realizar essa transferência.

Nos equipamentos tradicionais, o fluido refrigerante absorve e libera calor ao mudar de pressão e estado físico.

Na solução barocalórica, um material sólido muda sua organização interna quando é comprimido e relaxado.

A água, nesse arranjo, atua como meio de transferência de calor entre o material e o radiador.

Segundo a empresa, o uso de materiais sólidos orgânicos pode reduzir problemas associados a vazamentos e permitir ganhos de eficiência.

Essas afirmações, no entanto, fazem parte da proposta tecnológica da própria Barocal e ainda dependem de comprovação em aplicações comerciais.

A pesquisa chama atenção por aproximar um fenômeno físico observável em objetos simples, como borracha e balões, de uma aplicação industrial.

Para que isso funcione em refrigeradores, o material precisa apresentar resposta térmica forte, reversível e resistente ao desgaste.

Refrigeração em estado sólido segue em fase de teste

Alternativas à compressão de vapor são estudadas há anos por grupos de pesquisa e empresas.

Sistemas magnéticos, termoelétricos, elastocalóricos e barocalóricos fazem parte desse campo, mas enfrentam barreiras como custo, eficiência, estabilidade dos materiais e adaptação a equipamentos comerciais.

A Barocal tenta avançar em uma dessas rotas com base em cristais plásticos.

O investimento de US$ 10 milhões indica interesse de fundos em uma tecnologia que ainda precisa demonstrar viabilidade fora de protótipos e testes controlados.

Por enquanto, não há indicação pública de que geladeiras domésticas baseadas nessa tecnologia estejam próximas de chegar ao varejo.

O desenvolvimento deve seguir primeiro em aplicações de maior porte, nas quais a economia de energia e a redução de gases refrigerantes podem ter efeito mais direto sobre custos e emissões.

A refrigeração está presente em cadeias de alimentos, hospitais, laboratórios, transporte, climatização de edifícios e infraestrutura digital.

Por isso, mudanças nesse setor dependem de validação técnica, segurança operacional e capacidade de produção.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x