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Enquanto faturava R$ 43,5 bilhões e registrava lucro de R$ 2 bilhões, o Grupo Mateus demitiu 6.673 funcionários em seis estados do Norte e Nordeste

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 02/06/2026 às 13:52 Atualizado em 02/06/2026 às 13:56
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A empresa não estava falindo, não estava no vermelho e continuava abrindo novas lojas. Mesmo assim, quase 7 mil trabalhadores perderam o emprego de uma vez. Entenda o que está por trás de uma das maiores demissões em massa do varejo brasileiro em 2026.

O Grupo Mateus faturou R$ 43,5 bilhões em 2025. No primeiro trimestre de 2026, registrou lucro bruto de R$ 2,15 bilhões, crescimento de 16,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. A empresa abriu nove novas lojas nos primeiros meses do ano e segue como terceira maior rede varejista do Brasil, atrás apenas do Carrefour e do Assaí Atacadista.

Em maio de 2026, demitiu 6.673 funcionários em seis estados.

O número representa 13,9% de toda a força de trabalho da companhia. Em poucos meses, o quadro de colaboradores caiu de 47,9 mil para 41,2 mil pessoas. As demissões atingiram trabalhadores do Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia, exatamente os estados onde a empresa foi fundada e onde construiu seu império ao longo de 40 anos.

O que a empresa disse, e o que ficou sem resposta

Em nota enviada ao mercado, o Grupo Mateus afirmou que os cortes foram “necessários para ajustes operacionais em toda a rede” e que o processo envolveu “análises históricas das operações e benchmarks internos entre lojas, formatos, fornecedores e contratos, permitindo identificar distorções e oportunidades de otimização com impacto financeiro mensurável”.

Durante teleconferência com investidores, o presidente do conselho de administração, Ilson Mateus Rodrigues, foi mais direto. “Se reduz demais é problema, se reduz de menos fica com despesa”, disse o fundador da empresa. Ele afirmou ainda que mais reduções de despesas estão previstas, mas que não envolverão novos cortes de pessoal.

O que a empresa não explicou com clareza é como uma companhia com receita bruta de R$ 43,5 bilhões e crescimento de 16% no lucro bruto precisa demitir quase 7 mil pessoas ao mesmo tempo. A resposta está nos números que ficaram fora do comunicado oficial.

Os dois lucros que confundiram o Brasil inteiro

Uma das maiores confusões em torno das demissões do Grupo Mateus surgiu por causa de dois números que circularam ao mesmo tempo nas redes sociais e na imprensa: o lucro de R$ 2 bilhões e o lucro de R$ 213 milhões.

Os dois são verdadeiros. E são completamente diferentes.

O lucro bruto de R$ 2,15 bilhões é o que sobra depois de descontar apenas o custo direto das mercadorias vendidas. É o número que a empresa usou no comunicado ao mercado. O lucro líquido de R$ 213 milhões é o que restou depois de pagar todas as despesas operacionais, financeiras, custos de reestruturação e impostos. Em relação ao mesmo período de 2025, o lucro líquido caiu 22%. O Ebitda recuou 18,2%, para R$ 400 milhões.

É o lucro líquido que mostra a pressão real sobre a empresa. E foi essa pressão que motivou os cortes.

Os juros, o atacarejo e o estoque que não existia

Por trás dos números, três fatores explicam por que uma empresa com bilhões em receita chegou a um ponto em que precisou cortar quase 7 mil postos de trabalho.

O primeiro é o custo do dinheiro. Com a taxa Selic elevada, os custos financeiros do Grupo Mateus aumentaram significativamente. Uma empresa que opera com centenas de lojas, centros de distribuição e estoques gigantescos precisa de crédito para funcionar, e crédito caro corrói margem.

O segundo é a concorrência do atacarejo. Assaí Atacadista, Atacadão e Fort Atacadista avançaram de forma agressiva nas regiões Norte e Nordeste nos últimos anos, exatamente o território do Grupo Mateus. Essas redes operam com preços mais baixos e margens que o supermercado tradicional não consegue replicar. O consumidor de baixa renda, que é o principal público da empresa, migrou em parte para esse formato. As vendas nas mesmas lojas já existentes caíram 1,1% no primeiro trimestre de 2026.

O terceiro fator é o mais grave: o erro contábil de R$ 1,1 bilhão. Em novembro de 2025, o Grupo Mateus revelou ao mercado que seus estoques registrados no balanço de 2024 estavam superavaliados em R$ 1,1 bilhão. Os estoques caíram de R$ 6 bilhões para R$ 4,9 bilhões. O patrimônio líquido encolheu R$ 695 milhões. As ações do GMAT3 despencaram mais de 20% em cinco dias, apagando R$ 2,5 bilhões em valor de mercado.

Uma investigação interna revelou que o problema vinha de longe. Desde 2021, a auditoria já alertava para deficiências nos controles internos: mercadorias desaparecendo em áreas de descarregamento, lojas que nunca haviam sido inventariadas desde a abertura, inventários que não acompanhavam a velocidade de expansão da rede. O erro não foi um acidente de um trimestre. Foi acumulado por pelo menos quatro anos.

6.673 famílias, e os estados que mais sentiram

Os cortes não foram distribuídos de forma uniforme. As demissões se concentraram nos seis estados onde o Grupo Mateus tem maior presença histórica e onde a reestruturação das operações foi mais intensa.

O Maranhão, estado natal da empresa e onde fica sua sede em São Luís, foi o mais afetado em volume absoluto. O Pará e o Piauí também registraram cortes expressivos. Ceará, Sergipe e Bahia completam a lista dos estados atingidos.

Em muitas cidades do interior nordestino, o Grupo Mateus é um dos maiores empregadores locais. O fechamento de uma loja, nesse contexto, não significa apenas a perda de um supermercado. Significa o corte de dezenas ou centenas de empregos numa região onde o mercado formal de trabalho já é limitado.

A empresa que nasceu num garimpo e virou a terceira maior do país

Para entender o peso do que aconteceu, é preciso lembrar de onde o Grupo Mateus veio.

Ilson Mateus Rodrigues nasceu em Imperatriz, no Maranhão, nos anos 1960. Tentou a sorte como garimpeiro em Serra Pelada nos anos 1980, voltou sem ouro e abriu uma mercearia de 50 metros quadrados em Balsas, cidade do sul do Maranhão, em 1986. A principal venda era cachaça. Em 1988, a mercearia já era um supermercado de médio porte.

Em 2020, o Grupo Mateus fez o maior IPO de uma empresa nordestina da história ao estrear na B3, arrecadando R$ 4,63 bilhões. A demanda superou a oferta em cinco vezes. Em 2026, a Forbes estima a fortuna pessoal de Ilson Mateus em US$ 1,8 bilhão, cerca de R$ 10 bilhões.

A empresa que saiu de uma mercearia de 50 metros quadrados para R$ 43 bilhões de receita agora demite quase 7 mil funcionários. Não porque está falindo. Mas porque cresceu mais rápido do que sua capacidade de controlar o que tinha.

O que os analistas dizem sobre o futuro

Apesar de tudo, as principais casas de análise do país mantêm visão positiva para o papel. BTG Pactual, XP e Itaú BBA recomendam compra ou “outperform” para o GMAT3. Apenas o Santander mantém classificação neutra.

O argumento central é que a reação do mercado ao erro contábil foi desproporcional ao impacto real nas operações. A empresa segue gerando caixa, tem dívida controlada com relação dívida líquida/Ebitda de apenas 0,41 vez e ainda lidera o varejo alimentar no Norte e Nordeste com mais de 300 unidades em operação.

O CEO sinalizou que o segundo trimestre de 2026 segue “bastante desafiador”. O cronograma de expansão não foi cancelado, mas novos investimentos passam agora por uma análise mais rigorosa do que em qualquer momento anterior da história da empresa.

O que ficou para trás são 6.673 postos de trabalho. E a pergunta que o Brasil ainda está fazendo: como uma empresa com R$ 43 bilhões de receita e lucro bilionário chegou a esse ponto?

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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