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Jardineiros da Inglaterra enterravam abacaxis em covas aquecidas por 15 toneladas de esterco de cavalo e criaram um “forno tropical” subterrâneo para fazer fruta de luxo nascer no frio britânico séculos antes das estufas modernas

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 24/06/2026 às 20:54
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Jardineiros da Inglaterra enterravam abacaxis em covas aquecidas por 15 toneladas de esterco
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Abacaxis cultivados com esterco de cavalo no Reino Unido viraram símbolo de luxo e exibiram a engenharia hortícola britânica dos séculos XVIII e XIX.

No Reino Unido dos séculos XVIII e XIX, cultivar abacaxi era muito mais do que produzir uma fruta exótica. Era uma demonstração pública de riqueza, prestígio e domínio técnico, num período em que reproduzir o clima tropical em solo britânico exigia estrutura cara, conhecimento hortícola e trabalho permanente. Foi nesse contexto que surgiram os chamados pineapple pits, estruturas parcialmente enterradas e cobertas por vidro que usavam o calor da decomposição orgânica para aquecer o cultivo. Em Heligan, na Cornualha, esse sistema histórico foi restaurado nos anos 1990, e os jardins registram a frutificação de abacaxis em 1997, quando um dos frutos foi enviado à rainha Elizabeth II.

Abacaxi no Reino Unido já foi símbolo de luxo extremo e status aristocrático

Hoje, o abacaxi é um item corriqueiro em mercados e feiras. Na Inglaterra georgiana e vitoriana e também na Escócia do século XVIII, porém, a fruta estava entre os alimentos mais raros e desejados, justamente por depender de clima tropical e de cultivo altamente controlado.

A força simbólica dessa obsessão apareceu até na arquitetura. O National Trust for Scotland registra que, em 1761, o Earl of Dunmore mandou construir uma casa de verão em forma de abacaxi, conhecida até hoje como The Pineapple, num momento em que a fruta figurava entre os alimentos mais exóticos da Escócia.

Jardineiros da Inglaterra enterravam abacaxis em covas aquecidas por 15 toneladas de esterco
Jardineiros da Inglaterra enterravam abacaxis em covas aquecidas por 15 toneladas de esterco

O motivo era direto. O abacaxi não suportava o frio britânico sem proteção intensiva, e cultivá lo localmente significava dominar um sistema caro, delicado e impressionante para a época. Por isso, a fruta virou um troféu botânico associado à elite e ao prestígio social.

Pineapple pits usavam esterco de cavalo e vidro para criar calor no subsolo

O coração da técnica estava no aproveitamento do calor gerado pela decomposição. Em vez de depender apenas de estufas convencionais, jardineiros britânicos construíam estruturas enterradas com compartimentos laterais aquecidos por esterco fresco, enquanto a área central recebia as plantas de abacaxi protegidas por cobertura de vidro.

Esse arranjo funcionava como um aquecedor biológico subterrâneo. O material orgânico fermentava, liberava calor e ajudava a elevar a temperatura do espaço de cultivo, criando um microclima capaz de sustentar uma planta tropical em pleno ambiente frio do Reino Unido.

Na prática, era uma solução de engenharia hortícola baseada em vidro, tijolo, fermentação e manejo térmico, muito antes da existência de aquecimento automatizado, sensores digitais ou estufas climatizadas como as de hoje.

Cultivo de abacaxi exigia manutenção constante e alto domínio técnico

Apesar da engenhosidade, o sistema estava longe de ser simples. O calor produzido pela decomposição não se mantinha estável indefinidamente, o que exigia reposição de material, vigilância frequente e manejo cuidadoso do ambiente para evitar perda térmica ou falha no desenvolvimento das plantas.

Esse nível de exigência ajuda a explicar por que o abacaxi britânico se tornou uma fruta tão prestigiosa. Mais do que o valor do fruto em si, o que impressionava era a capacidade de manter um cultivo tropical funcional em condições climáticas naturalmente desfavoráveis.

Cultivo de abacaxi exigia manutenção constante e alto domínio técnico
Cultivo de abacaxi exigia manutenção constante e alto domínio técnico

Heligan restaurou o pineapple pit e voltou a produzir a fruta no Reino Unido

Os Lost Gardens of Heligan registram que a propriedade já tinha um pineapple pit plenamente funcional no século XIX, quando competia com outras grandes propriedades locais na produção de frutos impressionantes. Décadas depois, a técnica histórica voltou a ganhar vida com a recuperação do sistema nos anos 1990.

O artigo da Sibbaldia, revista ligada ao Royal Botanic Garden Edinburgh, aponta que o pit vitoriano de Heligan foi restaurado em 1994. Já a linha do tempo oficial de Heligan registra a primeira frutificação em 1997, quando um dos abacaxis foi entregue à rainha Elizabeth II por ocasião de seu jubileu de casamento.

A restauração transformou a antiga técnica em um caso vivo de história da horticultura. Em vez de permanecer apenas como curiosidade de arquivo, o pineapple pit passou a mostrar na prática como jardineiros britânicos resolviam um problema climático complexo com recursos físicos simples e grande conhecimento empírico.

A história do abacaxi mostra como o clima foi enfrentado com engenharia hortícola

O mais fascinante nessa história é que os pineapple pits antecipavam uma lógica muito atual. A ideia central era criar um microclima produtivo a partir de uma fonte de calor disponível, usando massa térmica, estrutura protegida e circulação controlada de calor.

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A diferença é que, no lugar de bomba de calor, automação ou energia elétrica, os jardineiros trabalhavam com esterco em fermentação, vidro e construção enterrada. Era uma tecnologia artesanal, mas extremamente sofisticada para o seu tempo.

Por isso, o abacaxi cultivado no frio britânico não era apenas uma fruta rara. Ele se tornou uma vitrine de poder, paciência, conhecimento técnico e ambição aristocrática, num momento em que dobrar o clima era parte do espetáculo social da elite europeia.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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