USS New Jersey disparava projéteis de 1,2 tonelada a mais de 40 km, atuou em combate real nos anos 80 e desafiou a era dos mísseis na guerra naval.
Durante décadas, analistas militares repetiram a mesma frase: encouraçados eram relíquias do passado. Depois da Segunda Guerra Mundial, porta-aviões e mísseis guiados pareciam ter selado o destino dos gigantes de aço. Mas em fevereiro de 1984, no litoral do Líbano, o USS New Jersey voltou a disparar seus canhões de 406 mm em combate real, provando que a artilharia naval pesada ainda tinha um papel que nenhuma outra plataforma substituía completamente. O que parecia obsoleto mostrou-se brutalmente eficaz.
O dia em que disseram que os encouraçados estavam mortos
O USS New Jersey (BB-62), da classe Iowa, foi comissionado em 1943. Naquela época, o mundo acreditava que batalhas navais ainda seriam decididas por canhões gigantescos trocando fogo a quilômetros de distância.
Mas o cenário mudou rápido. Porta-aviões dominaram o Pacífico. Depois vieram os mísseis antinavio, submarinos nucleares e guerra eletrônica. Navios enormes passaram a ser vistos como alvos grandes demais.
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Ainda assim, o New Jersey não desapareceu. Foi reativado para a Guerra da Coreia, depois para o Vietnã e novamente nos anos 1980. Cada retorno parecia contrariar a lógica estratégica vigente.
Como os canhões de 406 mm lançavam projéteis de 1,2 tonelada a mais de 40 km
O coração do USS New Jersey eram seus nove canhões Mark 7 de 16 polegadas (406 mm), distribuídos em três torres triplas.
Cada disparo podia lançar um projétil perfurante de aproximadamente 2.700 libras, cerca de 1.225 kg. Em versões de alto explosivo, o peso era menor, mas ainda devastador.

O alcance máximo citado para esses disparos girava em torno de 23 a 23,6 milhas náuticas, algo próximo de 37 a 38 km, frequentemente arredondado para “mais de 40 km” em comunicações públicas.
A cadência chegava a cerca de dois disparos por minuto por canhão. Em plena operação, isso significava quase seis projéteis de quase uma tonelada sendo lançados por minuto a dezenas de quilômetros de distância.
Cada disparo gerava energia cinética e explosiva suficiente para destruir estruturas reforçadas, instalações costeiras e posições fortificadas.
Não era apenas fogo. Era impacto industrial aplicado ao campo de batalha.
Guerra no Líbano: o bombardeio que mostrou que o gigante ainda era temido
Em 1983 e 1984, o USS New Jersey foi enviado ao Mediterrâneo oriental durante a Guerra Civil Libanesa. Ali, voltou a usar seus canhões de 406 mm contra posições hostis em terra. Relatos da época descrevem disparos de 16 polegadas sendo empregados contra alvos no interior, em apoio às forças americanas e aliadas.
Foi um dos últimos usos em combate dos canhões de 16 polegadas de um encouraçado americano. O simbolismo foi enorme. Em plena era dos mísseis de cruzeiro e da guerra eletrônica, um navio projetado na década de 1940 ainda exercia pressão estratégica real.
Por que os mísseis não substituíram totalmente a artilharia pesada
Nos anos 1980, o USS New Jersey não era apenas um navio de canhões. Ele foi modernizado para operar também com mísseis de cruzeiro Tomahawk e mísseis antinavio Harpoon.
Essa combinação criou uma plataforma híbrida. Mísseis ofereciam alcance intercontinental e precisão guiada. Mas eram caros, limitados em quantidade e destinados a alvos estratégicos específicos.
Os canhões de 406 mm, por outro lado, podiam manter fogo contínuo por horas, com custo por disparo muito menor que o de um míssil. Em operações costeiras, essa persistência fazia diferença.
Enquanto aeronaves precisavam de janelas climáticas e reabastecimento, o encouraçado podia permanecer na costa, pronto para disparar novamente em minutos. Essa capacidade de presença constante foi o que manteve o navio relevante.
O que realmente matou os encouraçados
O fim da era dos encouraçados não veio por falha técnica. Veio por custo, logística e mudança doutrinária.
Manter um navio da classe Iowa exigia milhares de tripulantes, manutenção intensiva de sistemas a vapor e uma cadeia de suprimentos específica para munições gigantescas que já não eram produzidas em larga escala.
Além disso, a proliferação de mísseis antinavio modernos aumentou o risco para grandes navios próximos à costa. Gradualmente, a Marinha dos EUA optou por plataformas menores, mais versáteis e integradas a sistemas digitais modernos.

O USS New Jersey foi desativado definitivamente em 1991 e transformado em navio-museu. Mas a pergunta nunca desapareceu totalmente: existe hoje alguma plataforma que combine presença física, volume de fogo e impacto psicológico como um encouraçado de 16 polegadas?
O legado técnico do USS New Jersey na guerra naval moderna
O USS New Jersey representou o ponto máximo da artilharia naval pesada.
Ele cruzou três eras militares distintas:
- a era dos duelos de canhões
- a era dos porta-aviões
- e a era dos mísseis guiados
Mesmo quando considerado obsoleto, mostrou que ainda era funcional. O que mudou não foi sua capacidade destrutiva, mas a forma como a guerra passou a ser travada.
Hoje, navios modernos priorizam furtividade, sensores avançados e mísseis inteligentes. Mas nenhum deles dispara projéteis de mais de uma tonelada a dezenas de quilômetros com cadência repetitiva. A história do USS New Jersey revela algo incômodo para a teoria militar moderna:
Tecnologias consideradas superadas às vezes continuam úteis por mais tempo do que especialistas imaginam. E quando isso acontece, não é nostalgia. É engenharia aplicada à realidade do conflito.

