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Você largaria seu emprego para procurar meteoritos? Esse caçador fez isso

Escrito por Sara Aquino
Publicado em 21/12/2025 às 17:43
Atualizado em 21/12/2025 às 17:44
Emprego inusitado cresce com a busca por meteoritos, rochas raras e o interesse de colecionadores ao redor do mundo.
Foto: IA
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Emprego inusitado cresce com a busca por meteoritos, rochas raras e o interesse de colecionadores ao redor do mundo.

Percorrer desertos, florestas e áreas remotas do planeta em busca de meteoritos deixou de ser apenas uma curiosidade científica e passou a representar emprego e renda para um grupo cada vez maior de pessoas.

Esse é o caso dos caçadores de meteoritos, profissionais que identificam, coletam e negociam rochas vindas do espaço, abastecendo um mercado global em expansão, impulsionado pelo interesse de cientistas e pelo apetite de colecionadores privados.

Nos últimos anos, a valorização dessas rochas extraterrestres transformou uma atividade de nicho em um negócio altamente lucrativo.

Em alguns casos, um único achado pode render centenas de milhares ou até milhões de dólares, despertando atenção internacional e debates sobre propriedade, legislação e preservação científica.

Um jovem observa um meteorito em uma exposição no Museu de História Natural de Londres
Foto: Matthew Chattle/Future Publishing via Getty Images

De terapeuta a caçador de meteoritos em tempo integral

A história de Roberto Vargas ilustra como esse mercado mudou a vida de quem decidiu apostar nele. Filho de porto-riquenhos e cidadão americano, ele largou um emprego estável na área de saúde mental para se tornar caçador de meteoritos profissional.

Assim que algo cai, é hora de sair a campo”, disse Vargas ao The Documentary Podcast, do Serviço Mundial da BBC.

A curiosidade surgiu de forma inesperada. “Por algum motivo, eu achava que uma pessoa comum não podia possuir meteoritos. Então, quando segurei um nas mãos, fiquei extremamente empolgado”, contou. A partir desse momento, ele passou a colecionar e, posteriormente, a viajar em busca dessas rochas espaciais.

Viagens, vendas e uma virada financeira inesperada

Em 2019, ao saber da queda de um meteorito na Costa Rica, Vargas decidiu tentar a sorte. Embora não tenha encontrado o fragmento principal, conseguiu adquirir diversos pedaços e decidiu revendê-los para custear a viagem.

O resultado foi surpreendente. “Na primeira viagem à Costa Rica, voltei numa sexta-feira e, na segunda, já tinha vendido meteoritos e ganhado mais de US$ 40.000”, afirmou.

Pouco tempo depois, ele deixou definitivamente o emprego tradicional, que lhe rendia entre US$ 50 mil e US$ 60 mil por ano, para viver exclusivamente da busca por meteoritos.

O papel dos comerciantes e o interesse dos colecionadores

O sucesso desse mercado não depende apenas de quem encontra as rochas, mas também de quem as conecta aos compradores.

Darryl Pitt, fotógrafo musical que se tornou comerciante de meteoritos, desempenhou papel central nessa transformação.

Eu queria compartilhar minha fascinação com o mundo, mas também queria ganhar dinheiro”, explicou. Segundo Pitt, levar essas rochas para o universo dos leilões foi decisivo para ampliar o alcance do setor.

Na década de 1990, ele organizou o primeiro leilão especializado, e desde então os preços não pararam de subir, impulsionados pelo crescimento do público colecionador.

O que define um meteorito e por que ele vale tanto

Antes de tudo, é preciso entender o que está sendo vendido. “Um meteorito é uma rocha que chegou à superfície da Terra”, explicou a professora Sarah Russell, do Museu de História Natural de Londres, à BBC News Mundo.

Segundo a especialista, essas rochas podem ter origem em asteroides, na Lua, em Marte ou em regiões ainda desconhecidas do sistema solar.

O valor varia conforme fatores como tamanho, raridade, estado de conservação, composição e procedência.

É possível comprar um meteorito por apenas 20 ou 30 centavos de dólar o grama”, afirmou Pitt, alertando para falsificações comuns em plataformas online.

Por outro lado, peças raras alcançam cifras impressionantes, como um meteorito marciano de 24 quilos vendido por US$ 4,3 milhões em leilão da Sotheby’s.

Como identificar meteoritos entre rochas comuns

Distinguir um meteorito de uma rocha terrestre não é simples. Russell explica que, ao atravessar a atmosfera, essas rochas formam uma crosta externa chamada crosta de fusão, resultado do derretimento superficial.

Além disso, costumam ser mais densas e pesadas. Ainda assim, somente análises químicas confirmam sua origem. Existem três tipos principais: meteoritos de pedra, metálicos (ricos em ferro) ou mistos.

Comércio em debate e disputas legais

A venda milionária do meteorito encontrado no Níger reacendeu discussões sobre a legalidade da comercialização. Autoridades locais questionaram como a rocha deixou o país e se houve autorização oficial.

Precisamos aguardar as orientações dadas aos diferentes ministérios para esclarecer esse assunto”, afirmou o professor Idi Umuru Amadou, da Universidade Abdu Mouni. Segundo ele, sem autorização, a retirada pode configurar roubo ou saque.

As regras variam conforme o país. Enquanto a Austrália proíbe a exportação de meteoritos, o Reino Unido não possui legislação específica, o que torna o cenário internacional desigual.

As caçadoras de meteoritos e a defesa da ciência

Nem todos os caçadores de meteoritos atuam motivados apenas pelo lucro. Na América Latina, um grupo de cientistas brasileiras conhecido como Meteoríticas se dedica a localizar essas rochas para fins científicos.

Deixamos o que estamos fazendo e partimos em busca desse novo meteorito. Porque ser as primeiras faz diferença”, disse a meteorologista Amanda Tosi. Para ela, o comércio pode coexistir com a ciência, desde que haja regulamentação.

Entre o lucro, a ciência e o futuro da exploração espacial

O crescimento do interesse privado elevou preços e dificultou o acesso de museus e instituições científicas às peças mais raras.

Ainda assim, pesquisadores alertam que essas rochas espaciais podem revelar informações cruciais sobre a origem do sistema solar e apoiar futuras missões espaciais.

Vargas, por sua vez, rebate críticas. “Sim, temos motivação econômica, mas também científica. Queremos que essas rochas estejam nas mãos de cientistas”, afirmou. Assim, o debate segue aberto entre emprego, mercado, ciência e preservação do patrimônio extraterrestre.

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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