Com desemprego em mínima histórica e apagão de mão de obra, o mercado de trabalho formal brasileiro passa a absorver imigrantes em massa, puxa venezuelanos para chão de fábrica e serviços essenciais e expõe desafios de qualificação, integração social e proteção trabalhista em todo o país e na política migratória.
Em meio ao avanço da imigração latino-americana entre 2020 e 2025 e à queda contínua da taxa de desemprego, estrangeiros já respondem por 4% das novas contratações com carteira assinada no mercado de trabalho formal brasileiro, segundo dados do Caged. Apenas entre janeiro e outubro de 2025, o saldo de empregos formais para pessoas de outras nacionalidades chegou a 73,4 mil, em um universo de 1,8 milhão de novas vagas criadas no período.
No mesmo intervalo, quase metade dos contratados estrangeiros é formada por venezuelanos, que concentram 47,8% das admissões. Haitianos respondem por 8,2%, argentinos por 4,8% e paraguaios por 4,3%, desenhando um novo mapa da força de trabalho formal no país e reforçando o Brasil como polo de atração regional em meio a crises econômicas e humanitárias nos países de origem.
Explosão de contratações em cinco anos

Entre 2020 e 2025, o número de estrangeiros contratados com carteira assinada deu um salto próximo de 200%, segundo a série recente do Caged.
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Em 2020, ano em que o mercado eliminou vagas por causa da pandemia, foram 24,8 mil contratações de pessoas de outras nacionalidades.
Em 2021, o volume recuou para pouco mais de 5 mil, equivalente a 0,19% do saldo total de empregos.
A partir de 2022, o movimento se inverteu.
O saldo de contratações estrangeiras subiu para 35,9 mil em 2022, passou a 47,3 mil em 2023, alcançou 71,1 mil em 2024 e já superou esse patamar em apenas dez meses de 2025, mantendo a fatia de aproximadamente 4% das novas vagas com carteira assinada.
A trajetória indica consolidação da presença de imigrantes no fluxo de admissões, e não apenas um pico conjuntural.
Desemprego em mínima histórica e apagão de mão de obra
O avanço da participação estrangeira ocorre em paralelo à queda rápida do desemprego. Em 2021, a taxa de desocupação estava em 12,1%.
Em 2022, recuou a 8,3%; em 2023, a 7,6%; em 2024, a 6,2%. No trimestre encerrado em outubro de 2025, atingiu 5,4%, o menor nível da série do IBGE iniciada em 2012.
Esse ambiente de aquecimento ajuda a explicar a abertura do mercado de trabalho formal brasileiro a imigrantes.
Com menos trabalhadores disponíveis e mais vagas em aberto, empresas ampliam o recrutamento além das fronteiras tradicionais, especialmente em funções com maior dificuldade de preenchimento.
A rotatividade também está em recorde: 36,1% dos trabalhadores formais trocaram de emprego nos últimos 12 meses até outubro, ante menos de 25% no pré-pandemia.
Setores que mais contratam estrangeiros
Os estrangeiros se concentram em ocupações de difícil provimento por empresas brasileiras.
O posto de alimentador de linha de produção lidera, com saldo positivo de 13,8 mil contratações de imigrantes até outubro de 2025.
Em seguida aparecem funções como faxineiros, com cerca de 5.300 contratações, açougueiros, com 4.700, e serventes de obras, com 4.100.
Um levantamento da Fiesp mostra que 20,5% das indústrias paulistas que buscaram novos funcionários entre o início de 2024 e março não conseguiram contratar.
A combinação de vagas abertas, salários de entrada relativamente baixos e pouca atratividade para trabalhadores locais empurra empresas a recorrer a imigrantes para manter a operação, sobretudo em atividades intensivas em mão de obra e com alta rotatividade.
Venezuela, Haiti e vizinhos: quem chega ao Brasil
Os dados do Censo 2022 do IBGE indicam que o fluxo venezuelano ganhou dimensão inédita em pouco mais de uma década, com aumento de 2.900 para 271,5 mil venezuelanos chegando ao país entre 2010 e 2022, em meio ao agravamento da crise econômica e política sob o governo Nicolás Maduro.
Eles formam hoje o principal grupo nacional entre os estrangeiros contratados.
Crises humanitárias em outros países também explicam a nova composição do mercado de trabalho formal brasileiro.
No caso dos haitianos, o número de pessoas que chegaram ao Brasil cresceu 106.294% em 12 anos até 2022, passando de 54 para 57.453, segundo o IBGE.
Argentinos e paraguaios completam a lista das principais nacionalidades, impulsionados por instabilidade econômica e pela percepção de maior estabilidade relativa no Brasil.
Histórias de adaptação e requalificação
A trajetória estatística se traduz em histórias individuais de recomeço.
A venezuelana Maria Hernandez, 32, formada em engenharia elétrica e ex-professora de física em seu país, chegou ao Brasil em 2019 com a família em busca de renda estável.
Sem reconhecimento imediato da formação, começou em trabalhos de limpeza até conseguir vaga formal como analista de atendimento bilíngue e, depois, analista de treinamento em uma multinacional de serviços ao cliente.
Já o venezuelano Julio César, 27, passou por Erechim, no Rio Grande do Sul, onde trabalhou dois anos em empresa de ônibus, e por Cascavel, no Paraná, atuando em frigorífico de frango, antes de assumir um posto formal como arrumadeiro em hotel de rede internacional.
As dificuldades de adaptação incluem o idioma e o entendimento de rotinas básicas, mas são compensadas pela estabilidade de um emprego com carteira assinada, inexistente em sua experiência anterior na Venezuela.
Concentração regional e pressão sobre políticas públicas
Os dados do Caged mostram que a maior parte dos venezuelanos contratados formalmente se concentra na região Sul.
Entre janeiro e outubro de 2025, 25,9 mil conseguiram emprego com carteira na região, com destaque para Santa Catarina, que responde por 10,8 mil contratações, seguida pelo Paraná, com 9.300, e pelo Rio Grande do Sul, com 5.600.
Essa distribuição reforça o papel das regiões industrializadas e com forte setor de serviços na absorção de mão de obra estrangeira.
Ao mesmo tempo, amplia o desafio de coordenar políticas de acolhimento, qualificação profissional, ensino de português e combate à informalidade, para evitar que parte desse contingente migre para atividades precárias ou fique à margem da proteção social.
Desafios futuros para o mercado de trabalho formal brasileiro
O aumento da participação de imigrantes nas contratações acende uma agenda de médio e longo prazo.
De um lado, estrangeiros ajudam a suprir lacunas em setores com apagão de mão de obra, evitando perda de produção e fechamento de vagas.
De outro, exigem revisão de políticas de integração, validação de diplomas, combate a práticas discriminatórias e fortalecimento da fiscalização trabalhista.
Para especialistas, o mercado de trabalho formal brasileiro tende a conviver de forma permanente com uma presença maior de estrangeiros se o desemprego seguir em níveis baixos e a imigração latino-americana permanecer alta, o que torna a definição de regras claras e estáveis ainda mais importante para trabalhadores locais e imigrantes.
Você já trabalha com colegas estrangeiros ou pensa em migrar para outra região ou país em busca de emprego formal? Como essa mudança no mercado de trabalho atinge a sua realidade profissional hoje?

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