Em Laguna, botos comandam a pesca em uma rara pesca com botos, onde botos de Laguna guiam a pesca de tainha e sustentam a pesca artesanal ameaçada
Em uma lagoa turva no litoral de Santa Catarina, botos comandam a pesca de um jeito que parece cena de documentário: eles empurram o cardume de tainhas em direção à praia, fazem um mergulho profundo, arqueiam o dorso e, nesse gesto, avisam aos pescadores que é hora de lançar a rede. A partir daí, o relógio corre. Os pescadores têm cerca de sete segundos para reagir, acertar o arremesso circular perfeito e transformar o movimento do boto em peixe na canoa.
Não é uma lenda de pescador. É uma cooperação estudada em detalhe por pesquisadores, registrada em vídeos, sonares e hidrofones. Ali, botos comandam a pesca e os humanos obedecem, em uma parceria que já dura cerca de 140 anos. Os dois lados saem ganhando: os pescadores aumentam suas capturas e a renda da família, enquanto os botos vivem mais, pescam com mais eficiência e se mantêm longe das redes de arrasto que matam tudo o que encontram pela frente. Mas a queda na oferta de tainha e a pesca ilegal estão empurrando essa relação para o limite.
Onde botos comandam a pesca e pescadores seguem o sinal
Na lagoa de Laguna, ao sul do Brasil, botos comandam a pesca em uma coreografia que se repete há gerações.
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O som dos cliques de ecolocalização se mistura ao barulho das ondas e ao movimento dos pescadores com suas redes circulares.
Os botos-nariz-de-garrafa selvagens trabalham duro para conduzir os cardumes de tainha para perto da margem, onde os pescadores de rede de lançar ficam atentos, quase imóveis, dentro d’água.
A água é extremamente turva. O pescador não vê peixe nenhum. Ele enxerga os botos.
É aí que entra a cooperação. Quando os botos comandam a pesca, eles se aproximam dos pescadores, fazem um mergulho súbito e profundo, arqueiam as costas ou batem a cabeça e a cauda na água. Esses sinais viraram linguagem. Quem pesca ali sabe: esse é o aviso para lançar a rede.
Como os botos comandam a pesca em sete segundos

O timing é tudo. A pesquisa mostra que, quando os botos comandam a pesca, o pescador tem uma janela de apenas sete segundos depois do sinal para lançar a rede redonda. Se errar o tempo ou a posição, a chance de acerto cai.
Os botos usam a ecolocalização para localizar a tainha e compactar o cardume em um bloco denso, empurrando os peixes para a zona exata onde a rede alcança.
As redes têm um papel fundamental: quebram a estrutura do cardume, deixando tainhas isoladas ou desorientadas.
Depois que a rede é lançada, começa a segunda fase. Os botos voltam a emitir cliques altos de ecolocalização.
Pesquisadores descrevem esses sons como algo que lembra uma porta rangendo debaixo d’água. Em alguns casos, quem está na água consegue até sentir os cliques nas pernas.
É o momento em que os botos comandam a pesca e partem para pegar os peixes que escaparam ou até retiram alguns diretamente da rede.
O que os botos ganham ao comandar a pesca

Não é caridade. É estratégia. Os estudos mostram que, nas situações em que botos comandam a pesca e os pescadores respondem corretamente ao sinal, os dois lados têm ganhos claros.
Para os pescadores, a conta é direta: quando os botos estão presentes e dão o sinal, a chance de captura e a quantidade de tainhas na rede disparam em comparação com lançamentos feitos sem essa ajuda.
Em muitos casos, a maior parte do peixe que entra nas redes ao longo da temporada vem justamente desses momentos sincronizados.
Para os botos, o benefício aparece na sobrevivência. Os indivíduos que cooperam com os pescadores têm cerca de 13 por cento mais chance de chegar à velhice do que aqueles que não participam desse tipo de pesca.
Eles evitam áreas do oceano dominadas por redes longas e ilegais, onde o risco de ficar preso e morrer é bem maior.
Outro ponto importante é que os botos cooperativos raramente abandonam a lagoa, mesmo pertencendo a uma espécie que costuma migrar por distâncias de até 320 quilômetros.
Cerca de 50 a 60 indivíduos mantêm esse comportamento e, ao que tudo indica, sabem que aquele ambiente oferece uma combinação rara de alimento e segurança.
Quando botos comandam a pesca, a comunicação vira cultura

O mais impressionante é a sofisticação da comunicação. Os botos comandam a pesca usando sinais específicos, como o mergulho repentino com o dorso bem arqueado ou o bater forte da cauda na superfície.
Os pescadores locais aprenderam a reconhecer esses padrões com o tempo, transformando comportamento animal em instrução de trabalho.
Essa forma de cooperação entre humanos e cetáceos não é comum. Historicamente, existiram outros casos no mundo, como golfinhos colaborando com povos aborígenes na Austrália.
Mas muitas dessas práticas desapareceram com a colonização, a mudança cultural e a pressão de outras formas de pesca.
Em Laguna, o que se vê é um exemplo raro de cultura compartilhada, em que botos comandam a pesca e pescadores respondem com precisão.
Essa coordenação fina, chamada de sincronia de forrageio, é o que garante que o encontro seja vantajoso para os dois lados. Sem sincronia, os lançamentos errados desgastam o pescador e não rendem peixe suficiente para manter o interesse dos animais.
Uma tradição de 140 anos sob pressão
A cooperação entre pescadores e botos em Laguna tem cerca de 140 anos de história e faz parte da identidade local. Essa pesca artesanal ajudou a garantir alimento, renda e pertencimento comunitário ao longo de gerações.
Só que, apesar de toda essa importância cultural, a prática está em risco. Os cardumes de tainha estão diminuindo, em parte por causa da pesca ilegal e da pressão de outras modalidades de pesca que atuam fora da lagoa.
Isso reduz a recompensa para quem depende da sincronia com os botos e altera o equilíbrio da relação.
Além disso, muita gente está abandonando a pesca como atividade principal. Alguns passam a pescar mais como hobby, sem a mesma precisão no momento de lançar a rede que os veteranos têm.
Quando os pescadores erram o tempo ou o local do arremesso, os botos comandam a pesca, mas não recebem o retorno esperado em forma de peixes sobrando para eles. Com isso, podem simplesmente perder o interesse em cooperar.
Pesca ilegal, perda de experiência e o risco de os botos desistirem
Os pesquisadores mostram que o sistema está sob pressão por três frentes principais: menos tainha disponível, menos pescadores experientes e mais risco de captura acidental em outras pescarias.
Os chamados botos cooperativos, que ficam mais próximos do ponto de interação com os pescadores, ainda conseguem evitar boa parte das redes de arrasto e das artes ilegais que se espalham pela região.
Já os botos não cooperativos, que circulam por áreas maiores, são mais expostos e têm maior chance de morrer em redes que capturam tudo o que encontram.
Se a oferta de tainha continuar caindo e botos comandam a pesca sem ver resultado, a tendência é que tanto animais quanto pescadores passem a investir menos nessa prática.
Modelos numéricos construídos com base nos dados de campo indicam que, em um cenário de piora acentuada, essa coooperação pode caminhar para a extinção ao longo das próximas décadas.
O que pode salvar o lugar onde botos comandam a pesca
A boa notícia é que ainda há caminhos para evitar esse desfecho. Os cientistas sugerem duas frentes principais de ação.
A primeira é valorizar e incentivar os pescadores que mantêm a prática tradicional, apoiando economicamente quem continua treinando, ensinando e praticando a pesca sincronizada com os botos.
A segunda é reforçar a fiscalização contra artes de pesca ilegais e redes que geram alto índice de captura acidental, reduzindo o risco para os animais que circulam fora da área de interação.
Juntas, essas medidas podem manter o interesse dos pescadores na cooperação e preservar o refúgio seguro que a lagoa representa para os botos.
Proteger esse sistema não é só questão de salvar uma curiosidade local. É defender um dos últimos exemplos vivos de cooperação verdadeira entre seres humanos e animais selvagens, em que botos comandam a pesca, pescadores leem o sinal em sete segundos e todo mundo sai da água com mais chances de continuar existindo.
E você, se tivesse a chance de ver de perto uma pesca onde botos comandam a pesca e os humanos obedecem, o que mais te chamaria atenção: a inteligência dos animais, a habilidade dos pescadores ou a sintonia entre os dois?


La armonía entre ambos