Em uma ilha tombada e disputada por turistas, um aposentado vive isolado há quase duas décadas, mantendo rotina própria em meio à Mata Atlântica, mar turquesa e regras rígidas de preservação.
Em uma ilha tombada e rigidamente controlada no litoral de Florianópolis, um ex-eletricista apresentado em reportagens como aposentado de 84 anos vive há quase duas décadas em condição rara.
Enquanto centenas de turistas chegam e partem em poucas horas, Nilton Cardoso permanece como único morador fixo da Ilha do Campeche, cercado pela Mata Atlântica e por um mar em tons de azul e verde que muitos passaram a chamar de “Caribe catarinense”.
Ilha do Campeche reúne mar turquesa, regras rígidas e tombamento histórico
A Ilha do Campeche fica a cerca de 1,6 quilômetro da Praia do Campeche, no leste de Florianópolis, e combina atributos paisagísticos e arqueológicos considerados excepcionais.
-
Militares brasileiros passam semanas de treinamento extremo na Amazônia e recebem distintivo reservado aos Guerreiros de Selva durante celebração dos 60 anos de um dos cursos mais exigentes e respeitados do mundo.
-
Após o divórcio, mulher passou quatro anos construindo uma quitinete com claraboias, espelhos, banheira escondida sob o sofá e lembranças de família para um recomeço
-
O “Rei do Bolão” de Fortaleza fez 100 pessoas milionárias de uma só vez na Mega-Sena: a lotérica da Aldeota dividiu R$ 168 milhões num bolão e entrega aposta de São Paulo a Dubai
-
Depois de trocar a costura pelo cimento, mulher do Paraná virou pedreira, passou 12 anos em obras, começou a construir a própria casa e ainda ganhou fama por restaurar Opalas antigos
Foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no ano 2000, por sua importância ambiental e cultural.
A área abriga a maior concentração de oficinas líticas e gravuras rupestres do litoral brasileiro, com diversos sítios distribuídos entre costões, pedras e trilhas internas.
Nos últimos anos, além da proteção federal, o município criou uma unidade de conservação do tipo Monumento Natural Municipal, reforçando as regras para visitação e preservação.
Na prática, foi mantido o limite diário de 770 visitantes, com possibilidade de aumento para 800 pessoas em meses de alta temporada, conforme portarias e termos ajustados com o Ministério Público Federal e o Iphan.

O acesso depende de cadastro prévio, emissão de autorização e travessia feita apenas por embarcações credenciadas.
Não é permitido acampar, fazer fogueiras ou churrasco, usar som alto nem desembarcar com animais de estimação.
A permanência dos visitantes costuma ser limitada a poucas horas, variando conforme o passeio contratado.
Turistas vão e voltam, mas Nilton permanece na ilha
Nesse sistema de visitação controlada, o fluxo de Nilton é inverso ao da maioria.
Turistas chegam em barcos vindos da Praia do Campeche, da Armação ou da Barra da Lagoa, permanecem em média quatro a cinco horas e são obrigados a retornar no fim do dia.
O aposentado, ao contrário, atravessa o mar para ficar.
Reportagens de televisão, portais de notícias e estudos sobre o turismo na região o descrevem como o único morador permanente da ilha.
Seu papel se mistura ao de guardião informal de um espaço tombado que, em alta temporada, recebe diariamente o limite máximo de visitantes.
Quando as últimas embarcações recolhem as pulseiras de acesso, Nilton segue em sua rotina solitária, acompanhado apenas pelos sons da mata e do mar.
Infância, pesca e a decisão que mudou sua vida
A relação de Nilton com o Campeche começou muito antes da mudança definitiva.

Textos de veículos regionais relatam que ele conheceu a ilha aos 11 anos e, já adulto, retornou diversas vezes como pescador amador.
Ao longo da vida profissional, construiu carreira como eletricista na Celesc até se aposentar.
Depois da aposentadoria, passou a frequentar com mais intensidade as ilhas da costa sul de Florianópolis.
Em um desses dias de pesca, contou que o mar virou e impediu o retorno ao continente.
Forçado a permanecer por vários dias, decidiu permanecer na ilha em definitivo.
Em entrevista, relatou que se sentia mal na área urbana e em paz quando voltava ao Campeche, descrevendo o lugar como um descanso do qual não queria abrir mão.
Associação Couto de Magalhães e moradia simples na mata
A permanência de longo prazo foi amparada pela Associação Couto de Magalhães, entidade recreativa que atua na ilha desde meados do século passado.
Nilton se tornou sócio e passou a morar em uma das poucas casas da associação, localizada em trecho afastado da praia principal, mais próximo da mata e de áreas com inscrições rupestres.
Da casa simples onde vive, cercada pela vegetação nativa, acompanha o movimento das embarcações e observa o comportamento dos banhistas.
Também auxilia de forma informal no cumprimento das regras impostas pelos acordos de preservação.
Pesquisas e reportagens o descrevem como figura de referência local pela familiaridade com o território.

Rotina solitária marcada por tarefas repetidas
O cotidiano relatado por quem acompanhou sua rotina indica um conjunto de gestos fixos.
Nilton costuma acordar por volta das 5h. Varre a área ao redor da casa. Caminha por trilhas internas e pesca em pontos tradicionais.
Além disso, ele também lava roupas, prepara as refeições e em algum momento do dia, vê televisão.
Em outros, conversa com visitantes curiosos sobre a experiência de viver isolado em um cartão-postal do litoral catarinense.
Enquanto os turistas passam algumas horas na ilha, ele acompanha mudanças de longo prazo, como o aumento do número de barcos, o uso de drones e as discussões sobre capacidade de suporte ambiental.
Família em Florianópolis e abastecimento mensal por barco
Apesar de viver sozinho, Nilton mantém laços familiares em Florianópolis. As reportagens o apresentam como marido, pai de cinco filhos e avô.
A sobrevivência na ilha depende de remessas mensais de mantimentos enviadas de barco pela família.
Alimentos, itens de limpeza e produtos pessoais são organizados conforme as restrições de desembarque na área protegida.
A comunicação é feita principalmente por celular. Ele contou que mantém o aparelho preso por uma corda no pescoço para evitar perdas durante o trabalho diário.

As ligações da esposa são frequentes e servem para ajustar a lista de mantimentos e acompanhar sua rotina à distância.
Nilton associa a permanência no Campeche também a questões de saúde. Com problemas de visão, diz sentir-se mais seguro na ilha do que em ruas movimentadas, onde teme acidentes ou assaltos.
Arqueologia protegida, trilhas guiadas e turismo de massa
O cenário em que essa rotina se desenrola é uma área de alta sensibilidade cultural e ambiental.
Estudos e documentos oficiais apontam que a Ilha do Campeche reúne oficinas líticas, gravuras rupestres e outros vestígios com milhares de anos de antiguidade.
As trilhas que levam a mirantes, formações rochosas e painéis de inscrições só podem ser acessadas com monitores autorizados.
Há cobrança de taxa e limites diários de visitantes. Parte dos roteiros atende escolas públicas com foco em educação patrimonial.
Outra parte se dedica ao turismo de praia e contemplação. Simultaneamente, o Campeche se consolidou como destino de grande fluxo.
Embarcações oferecem travessias de poucos a quarenta minutos, dependendo do ponto de saída.
Agências promovem o local como “Caribe catarinense”, destacando a cor esmeralda e a visibilidade da água, reforçadas por imagens de drones.

Seja o primeiro a reagir!